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  • Mao Tse-tung: trajetória e a Revolução Chinesa de 1949

    Mao Tse-tung (também grafado como Máo Zédōng), nascido em Shaoshan em 1893 e falecido em Pequim em 1976, foi uma figura central na história da China no século XX, atuando como político, teórico, líder comunista e revolucionário.  Ele liderou a Revolução Chinesa e foi o arquiteto e fundador da República Popular da China, governando o país desde sua criação em 1949 até sua morte. Suas contribuições teóricas para o marxismo-leninismo, estratégias militares e políticas comunistas são coletivamente conhecidas como maoísmo. A ascensão de Mao e os anos revolucionários (Pré-1949) A história da China foi marcada por humilhações internas, devido à dominação de imperadores e mandarins, e externas, pela ganância imperialista estrangeira a partir de meados do século XIX.  Foto de Mao Zedong publicada em "Citações do Presidente Mao Tse-Tung". Nesse cenário de opressão e revoltas populares, o marxismo-leninismo, trazido à China após a Revolução Russa de Outubro de 1917 e a fundação da Terceira Internacional em 1919, encontrou terreno fértil. O Partido Comunista da China (PCC) foi fundado em 1921. Mao Tse-tung se destacou por sua capacidade de integrar a "verdade universal do marxismo-leninismo" com a prática revolucionária concreta da China, o que resultou na criação do pensamento Mao Tse-tung. Ele ensinou que a teoria de Marx, Engels, Lênin e Stálin é universalmente aplicável, mas precisa ser adaptada às condições específicas de cada país. A trajetória da revolução foi longa e repleta de desafios. Inicialmente, houve colaboração entre o PCC e o Kuomintang (KMT), visando à unidade nacional, com muitos membros do PCC, incluindo Mao Tse-tung, integrando o KMT. No entanto, após o massacre de Shanghai em 1927, liderado por Chiang Kai-shek, o KMT passou a perseguir e dizimar o PCC. Essa repressão levou à formação das "bases vermelhas" em províncias remotas e inacessíveis, como Chingkangshan, onde Mao começou a consolidar sua experiência e a desenvolver táticas de guerrilha social camponesa. O episódio da Longa Marcha (1934-1935) foi um marco importante. Embora representasse uma retirada e uma derrota inicial na construção das bases vermelhas, ela se tornou o início da busca por novos caminhos para a revolução, com táticas renovadas para a guerrilha camponesa e a luta armada de longo prazo.  A marcha acabou por consolidar a linha revolucionária de Mao em detrimento de outras e redefiniu os rumos da revolução, focando no imperialismo japonês como o principal inimigo. Nesse sentido, a  Guerra de Resistência Anti japonesa (1937-1945)  foi crucial. O PCC, sob a liderança de Mao, formou uma Frente Única com o Kuomintang para combater os invasores. A luta de resistência criou uma nova forma de conceber a sociedade entre os camponeses, com transformações culturais que se tornaram rotineiras, distantes das antigas práticas de opressão. Este período foi fundamental para a criação de condições favoráveis à construção de uma sociedade socialista na China. Mao Tsé-tung formulou uma política dual de unidade e luta na frente única, reconhecendo o caráter ambíguo da burguesia chinesa, que ora resistia, ora cooperava com o imperialismo. Após a derrota do Japão em 1945, a China entrou em uma difícil Guerra Civil (1946-1949) entre o PCC e o KMT. O Exército Popular de Libertação (EPL) passou à ofensiva, estendendo seu domínio por toda a China, enquanto Chiang Kai-shek se refugiou em Formosa (Taiwan) no início de 1949. A Revolução de 1949 e a proclamação da República Popular da China Em 1º de outubro de 1949 , a República Popular da China foi proclamada, com Pequim como capital e Mao Tse-tung como Presidente. O governo foi estabelecido com uma composição que incluía comunistas e não comunistas. Essa vitória representou o triunfo de uma revolução socialista com características próprias, forjada sob as condições concretas da história do povo chinês, sem imitações e rejeitando ingerências externas.  Aspectos antropológicos, filosóficos e legado de Mao Tse-tung Mao Tse-tung é reconhecido como o "Grande Timoneiro" e muitos chineses o veem como um grande estrategista político, mentor militar e "salvador da nação". Seu retrato continua a ser exibido na Praça Tiananmen e nas notas do Renminbi. O culto à personalidade de Mao, especialmente acentuado a partir da Revolução Cultural, levou a que sua imagem e escritos tivessem força de lei e se tornassem parte do cotidiano, no lar, na escola e no trabalho. Suas contribuições filosóficas são notáveis, com obras como "Sobre a Prática" e "Sobre a Contradição". Ele desenvolveu o materialismo dialético, enfatizando a lei da unidade dos contrários ("um se divide em dois") como a lei fundamental da dialética, à qual todas as outras leis estão subordinadas. Para Mao, a teoria é importante, mas sua relevância se manifesta plenamente na prática social , que é o critério da verdade do conhecimento. Ele distinguiu as contradições antagônicas (entre o povo e seus inimigos) das não antagônicas (dentro do povo), defendendo a necessidade de resolver estas últimas através do debate e da crítica. Mao também foi fundamental na construção do Partido Comunista Chinês , impulsionando movimentos de retificação baseados na crítica e autocrítica para combater o subjetivismo, o dogmatismo e o empirismo. Ele insistia que a direção correta do Partido deveria vir "das massas e para as massas". No que diz respeito às transformações sociais , durante seu governo de três décadas, Mao é creditado por avanços significativos como a duplicação da população escolar, o fornecimento de moradia universal, a abolição do desemprego e da inflação, o aumento do acesso à saúde e a elevação drástica da expectativa de vida. Contudo, o período de governo de Mao também foi marcado por eventos controversos e de grande custo humano. Programas sociais e políticos como o Grande Salto Adiante (1956-1961) e a Revolução Cultural (1966-1976) são acusados de causar grave fome, danos à cultura, à sociedade e à economia chinesa. Autores citam que esforços para fechar a China ao comércio de mercado e erradicar a cultura tradicional foram amplamente rejeitados por seus sucessores. Em termos de política externa , Mao inicialmente buscou alinhar a China com a União Soviética de Josef Stálin , enviando forças para a Guerra da Coreia e apoiando movimentos comunistas em outros países. No entanto, a China e a URSS divergiram após a morte de Stálin, levando a uma ruptura definitiva no início dos anos 1960. Pouco antes de sua morte, a China começou sua abertura comercial com o Ocidente, culminando na aproximação com os EUA em 1972. Após a morte de Mao em 1976, houve uma reação contra a Revolução Cultural, com a condenação do "Bando dos Quatro" e o início de um processo de "desmaoização", embora não radical. As reformas de Deng Xiaoping, incluindo as Quatro Modernizações (indústria, agricultura, defesa e cultura), marcaram um retorno a princípios de desenvolvimento econômico-social combatidos durante a Revolução Cultural. Essa nova fase levou ao surgimento do que é conhecido como "socialismo de mercado", que funde o Estado Revolucionário com o desenvolvimentismo de tipo asiático. Local do primeiro congresso do Partido Comunista da China — Shanghai. Acervo pessoal. Mao Tse-tung permanece uma das mais influentes da história moderna, que lançou as bases econômicas, tecnológicas e culturais da China moderna, transformando-a de uma sociedade agrária atrasada em uma grande potência mundial. Mao Tse-tung foi uma figura de imensa influência, e além de seus papéis políticos e militares, há aspectos de sua vida e pensamento que podem ser considerados curiosidades antropológicas, focando em suas visões sobre o comportamento humano, a cultura e a sociedade. Aqui estão alguns: A Prática como Critério da Verdade e a Importância da Experiência : Mao Tsé-tung defendia uma filosofia onde o conhecimento é inseparável da prática social . Para ele, a verdade de qualquer teoria não é determinada por sentimentos subjetivos, mas pelos resultados objetivos da prática social. Isso significa que, para realmente entender algo, como o sabor de uma pera ou a teoria da revolução, é necessário experienciá-lo diretamente, seja comendo-a ou participando da luta. Essa visão enfatiza a experiência e a ação como fundamentos do saber humano. Crítica ao "Sabe-Tudo" e à Arrogância Intelectual : Mao era crítico daqueles que ele chamava de "sabe-tudo", indivíduos que ostentavam conhecimentos superficiais e se consideravam autoridades, sem ter uma compreensão profunda da realidade. Ele insistia que a busca do conhecimento requer honestidade e modéstia , rejeitando a presunção. Uma metáfora que ele usava para ilustrar a necessidade da prática no conhecimento era: "Como pegar filhotes de tigre sem entrar na toca do tigre?". Ele também criticava aqueles que apenas recitavam frases de teóricos sem conhecimento real, usando a imagem de um "junco nos muros, copas frondosas, caules débeis, raízes não profundas" ou "rebento de bambu nas montanhas, língua afiada, casca grossa, oco o interior" para descrevê-los. Mao disse: A pessoa mais ridícula do mundo é o “sabe-tudo” que junta um monte de conhecimentos superficiais e se proclama a “autoridade mundial número um”; o que apenas mostra que não é boa auto-avaliação. O conhecimento é uma questão de ciência, e nenhuma desonestidade ou arrogância é permissível. O que se requer é definitivamente o oposto – honestidade e modéstia. Se quiser conhecimento, você deve participar da prática de transformar a realidade. Se quiser saber o gosto de uma pêra, deve transformar a pêra, comendo-a. Se quiser conhecer a estrutura e as propriedades do átomo, deve fazer experiências físicas e químicas para lhe transformar o estado. Se quiser conhecer a teoria e os métodos da revolução, dela deve tomar parte. Todo conhecimento genuíno tem origem na experiência direta. Valores Fundamentais de Respeito e Unidade: Em suas instruções sobre o trabalho político no exército, Mao enfatizava que a base para boas relações entre oficiais e soldados, e entre o exército e o povo, era uma "atitude fundamental" de respeito pelos soldados e pelo povo. Essa atitude, para ele, era o princípio que geraria todas as políticas e métodos corretos. A "Lei da Unidade dos Contrários" no Pensamento e na Realidade: Uma das contribuições filosóficas centrais de Mao foi sua ênfase na "lei da contradição inerente aos fenômenos, ou lei da unidade dos contrários", que ele considerava a lei fundamental da dialética materialista. Ele afirmava que as contradições existem em todos os processos, sejam objetivos ou ideológicos, e que os aspectos opostos de uma contradição são interdependentes – por exemplo, "sem a vida, não existiria a morte; sem a morte, não existiria a vida". Essa visão da realidade, onde os contrários são vivos, condicionais e móveis, pode ser aplicada à compreensão das dinâmicas sociais e do pensamento humano. Adaptação Cultural do Marxismo-Leninismo: Mao defendia que a teoria universal do marxismo-leninismo precisava ser aplicada às condições concretas da China, assumindo uma "forma nacional" e um "ar e estilo chineses, cheios de frescura e de viço, agradáveis ao ouvido das pessoas comuns". Isso indica uma preocupação com a ressonância cultural da ideologia entre a população chinesa. Critérios para Definir um "Revolucionário": Para Mao, o critério decisivo para determinar se um jovem era revolucionário não era sua mera fé em uma doutrina, mas sim se ele estava disposto a se ligar, e de fato se ligava, às massas operárias e camponesas. Essa perspectiva valoriza a ação e o engajamento social concreto sobre as declarações ideológicas. Esses pontos oferecem uma visão sobre as preocupações de Mao com a natureza humana, a sociedade e a cultura, além de suas estratégias puramente políticas.

  • Feriado 15 de agosto: da devoção brasileira à Nossa Senhora ao culto chinês de Fuxi e Nüwa

    Embora o 15 de agosto não seja feriado nacional no Brasil, a data carrega muitos significados religiosos e históricos em diferentes regiões.   Em Belo Horizonte (MG), é dia de Nossa Senhora da Boa Viagem , padroeira da cidade, cuja devoção remonta ao século XVIII. Já em Fortaleza (CE), é celebrada a Assunção de Nossa Senhora , enquanto em Tocantins é celebrado o  Dia do Senhor do Bonfim .  Outros municípios e estados atribuem significados próprios à data. No Pará, por exemplo, existe uma relação com à Independência do Brasil em 1823. Em Vitória da Conquista (BA), a data está associada à Nossa Senhora das Vitórias. Em Maringá (PR), Nossa Senhora da Glória. Essa pluralidade reforça a importância das culturas e tradições locais na construção do calendário cívico-religioso brasileiro. Assim, o feriado 15 de agosto se torna um ponto de encontro entre memória, devoção e identidade coletiva, ainda que suas celebrações permaneçam restritas a âmbitos municipais ou estaduais.  Mas qual a relação entre o 15 de agosto no Brasil e a China? Um paralelo cultural Na China, um evento com características semelhantes — não por conteúdo religioso específico, mas por sua natureza local e regional — é o Festival de Fuxi e Nüwa , realizado anualmente na província de Henan, na planície central, às margens do lago de Huaiyang.   Assim como o 15 de agosto brasileiro, este não é um feriado nacional, mas uma celebração profundamente enraizada na memória e identidade de uma comunidade. O festival reúne cerca de um milhão de pessoas, principalmente agricultores, em torno de um complexo de templos com origem no período das Primaveras e Outonos (cerca de 700 a.C.). É dedicado às divindades primordiais Fuxi , criador das “leis da humanidade”, e Nüwa , associada ao casamento, à fertilidade e à prosperidade.  Um dos rituais mais importantes é a veneração de Nüwa consertando o pilar do céu e segurando o primeiro ser humano moldado com barro e sangue.  Mulheres que desejam filhos tocam uma pedra sagrada diante do templo, perpetuando um gesto ancestral que ecoa práticas votivas de outras culturas. O festival carrega ainda o legado de rituais imperiais da dinastia Song, posteriormente revitalizados na dinastia Ming. Embora tenha sido suspenso e seus templos vandalizados durante a Revolução Cultural, o culto ressurgiu nos anos 1980, integrado às feiras populares e impulsionado pela política de “Reforma e Abertura” .  Nessas feiras, além de apresentações artísticas, dança e música, ocorre a troca simbólica de terra entre comunidades, reforçando o vínculo com o lugar sagrado. Resistência cultural e continuidade da memória A permanência dessas celebrações, tanto no Brasil quanto na China, revela um traço antropológico importante. A resiliência das tradições locais diante de mudanças políticas e sociais .  No Brasil, as festas católicas absorvem elementos das culturas indígena e africana, compondo uma religiosidade plural. Na China, o culto a Fuxi e Nüwa também representa um longo processo histórico — o culto a Fuxi e Nüwa são os elementos primordiais da mitologia chinesa e data de pelo menos 3.000 anos atrás —, de união entre elementos de diversas etnias locais, sendo, inclusive, um elementos importante de construção da coletividade chinesa que hoje se expressa na ideia de identidade nacional.  Nesse sentido, em ambos os contextos, o que se celebra não é apenas um evento religioso, mas também um marco identitário . É a afirmação de pertencimento a uma comunidade específica, a partir de narrativas que reforçam a noção de ancestralidade.  No Brasil, a devoção a padroeiros locais cria um elo afetivo e histórico entre cidade e fiéis; na China, o culto às divindades primordiais reforça a ideia de que “todos somos da mesma família”, uma memória coletiva que antecede fronteiras políticas contemporâneas e ultrapassa, embora não elimine, características étnicas mais específicas. Assim, o feriado 15 de agosto , em suas múltiplas interpretações, e o Festival de Fuxi e Nüwa , cada qual em seu território, mostram como datas festivas funcionam como âncoras culturais, porque ligam passado e presente, conectam indivíduos por meio de símbolos partilhados e mantêm viva a herança espiritual e social de um povo.

  • O caso Felca: saiba como a CHINA protege suas crianças na internet

    Nos últimos dias, o termo “adultização infantil” ganhou repercussão intensa nas redes sociais e chegou ao Congresso Nacional, impulsionado pelo vídeo do youtuber Felca . Nele, o influenciador denuncia a exposição precoce de crianças a conteúdos e comportamentos que deveriam ser restritos ao universo adulto, com um recorte que vai desde influenciadores mirins que falam sobre investimentos até adolescentes reproduzindo falas, coreografias e atitudes de cunho sexualizado. A Fundação Abrinq define adultização como a antecipação de comportamentos e expectativas da vida adulta para crianças, o que inclui: Uso precoce de roupas e maquiagens com apelo sexual; Reproduzir falas, gestos e coreografias de teor erótico; Acesso irrestrito a músicas, vídeos e influenciadores com conteúdo sexual; Pressão social para “parecer mais velho” a fim de ser aceito. No vídeo, Felca alterna entre ironia e seriedade, mas reforça críticas à postura de pais e responsáveis, alertando para os riscos do contato precoce com certos conteúdos.  A discussão, que começou no YouTube, rapidamente se ampliou: como equilibrar liberdade de expressão, autonomia digital e proteção da infância? Essa é uma questão que já foi enfrentada por outros países, e a China oferece um exemplo de abordagem regulatória que combina leis rígidas, interpretações judiciais e medidas tecnológicas . O modelo chinês de proteção infantil online A China estruturou um sistema que envolve várias frentes, para lidar com crimes e riscos envolvendo crianças na internet. Essa atuação se baseia em cinco eixos principais: 1. Proteção contra pornografia e conteúdos nocivos Desde 2000, com a “Decisão do Comitê Permanente da Assembleia Popular Nacional sobre a Salvaguarda da Segurança na Internet”, a produção e disseminação de material pornográfico são criminalizadas , especialmente quando envolvem menores. Interpretações do Supremo Tribunal Popular e da Suprema Procuradoria (2004 e 2010) reforçam punições severas para quem criar, vender ou distribuir conteúdo sexual com menores de 18 anos. A versão de 2010 reduziu pela metade a quantidade mínima de publicações necessárias para condenar quem produza conteúdo com menores de 14 anos, um endurecimento claro para acelerar responsabilizações. As proibições legais também abrangem a divulgação de cultos e superstições , entendidos como nocivos à ordem social, incluindo responsabilização criminal para disseminação online. 2. Proteção da privacidade e identidade de menores As leis chinesas, como a Lei de Proteção de Menores e a Lei de Processo Penal , determinam que crimes cometidos por menores não sejam julgados publicamente e que nenhuma informação de identificação (nome, endereço, fotos) possa ser divulgada antes do julgamento. A Lei de Prevenção da Delinquência Juvenil vai além: proíbe a divulgação desses dados em qualquer momento, mesmo após a conclusão do caso, buscando reduzir estigmas e favorecer a reintegração social. 3. Combate a fraudes e golpes online envolvendo crianças Casos de falsos pedidos de doações explorando doenças graves de crianças levaram o governo a regulamentar rigidamente o setor. Desde a Lei da Caridade (2016) e os Regulamentos sobre a Gestão dos Serviços de Plataforma de Arrecadação Pública de Fundos , apenas plataformas credenciadas pelo Departamento de Assuntos Civis podem intermediar doações. Elas devem verificar a autenticidade das campanhas e alertar o público sobre riscos. 4. Prevenção de vícios digitais e exposição a conteúdo prejudicial Empresas como a Kuaishou implementaram um programa chamado “Crescimento Feliz” (Happy Growth), com medidas como: Educação digital sobre uso consciente da internet; Controle parental integrado, restringindo transmissões ao vivo, cobranças e saques para menores; Alertas anti-vício para limitar tempo de uso; Identificação automática de menores; Sistema de classificação de vídeos em parceria com universidades, para atacar a raiz do consumo excessivo. 5. Uso da tecnologia para encontrar crianças desaparecidas Projetos como o serviço “Online Person Finder” de Cao Jinsheng já ajudaram a localizar mais de 600 idosos e crianças desaparecidas via redes sociais como Weibo e WeChat. Em 2015, o governo lançou a Plataforma Nacional de Informações sobre Crianças Desaparecidas , que planeja integrar reconhecimento facial e blockchain para criar perfis digitais à prova de adulteração. Medidas fundamentais no combate ao tráfico de menores. Entre liberdade e segurança: o que o Brasil pode aprender O debate brasileiro sobre o caso Felca expõe a ausência de mecanismos claros e eficazes para regular o acesso de crianças à internet. Enquanto isso, a China aplica uma estrutura legal que combina prevenção, punição e apoio tecnológico , articulando Estado, empresas e sociedade civil em um mesmo eixo. Embora o contexto sociocultural chinês seja distinto e muitos elementos que são considerados importantes lá, aqui são compreendidos de outra maneira, a experiência mostra que regulação não significa censura indiscriminada , mas pode funcionar como instrumento de proteção integral.  No cenário atual, em que a exploração e a adultização infantil encontram espaço nas redes, adotar elementos dessa abordagem pode ser um passo decisivo para proteger as próximas gerações.

  • Do Wu-Shu ao Xondaro Guarani: um diálogo entre artes marciais

    A compreensão das artes marciais vai além da técnica de combate. Essa é a premissa central de uma trajetória de pesquisa que uniu a experiência corporal pessoal e a antropologia com foco em estudos étnicos. Com a publicação de "Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política" , busquei desvendar o xondaro não apenas como uma prática corporal, mas como uma expressão profunda dos sentidos por trás de uma prática corporal agonística. Mestre Fu Song com Bagua Dao e praticantes de Xondaro do Jaraguá, São Paulo - Brasil Porém, não há como negar a profunda influência que tive por anos de experiência de convivência com professores e mestres de  artes marciais chinesas , em ambientes informais.  Este livro, portanto, é o resultado de uma imersão teórica e etnográfica do meu mestrado em antropologia e estudos étnicos no Brasil.  Uma pesquisa que se aprofundou nos mecanismos de resistência e identidade do povo Guarani (etnia indígena comum em países da América do Sul, como o Brasil) estudado, valorizando a percepção sensorial e a complexa relação entre corpo, performance e política. A filosofia por trás do gesto: xondaro como arte marcial Em sua essência, o xondaro é muito mais do que uma dança ou um treino de guerra. Ele é um conceito do pensamento Guarani , um modo de ser e de se comportar que se manifesta na dança, na socialização e na resistência. A pesquisa, nesse sentido, se aprofundou nessa dimensão, mostrando como o xondaro é um exercício coletivo de resistência que utiliza elementos estéticos e simbólicos para expressar uma intenção de luta.  Ao invés de uma abordagem puramente física, a prática promove a saúde do corpo e do espírito, ensinando agilidade, atenção e preparando para a vida adulta. Mas a dimensão política do xondaro — que também se expressa coletivamente — é inseparável, sendo uma ferramenta utilizada em cenários de conflito social para reivindicar direitos e afirmar a identidade Guarani. Para validar o xondaro como uma arte marcial , a pesquisa adotou a definição de Wojciech Cynarski —  antropólogo pesquisador das artes marciais do  Institute of Physical Culture Studies , na Polônia —, que expande o conceito para além do combate.  As artes marciais, segundo ele, são caracterizadas por uma filosofia ética, uma conexão com sistemas religiosos, um foco no desenvolvimento pessoal e a presença de ritos de passagem. O livro, portanto, demonstra como o xondaro se encaixa perfeitamente nesses critérios, desafiando a visão que o categorizaria apenas como dança.  A abordagem teórica também utiliza o paradigma da corporeidade de Thomas Csordas, que valoriza a sensação e a experiência corporal em detrimento da sistematização de movimentos. Das artes marciais chinesas ao xondaro: as duas Performances Marciais Minha trajetória nas artes marciais chinesas (Wu-Shu), sobretudo as artes internas, foi fundamental para a compreensão do xondaro. O conceito das duas performances marciais , um dos pilares do livro, encontra um paralelo interessante no Taolu (套路) e no Sanda (散打) .  O Taolu, com suas rotinas de movimentos, representa aspectos da "primeira performance", um espaço de preparação e imaginação onde o adversário é subjetivo. O Sanda, por sua vez, expressa a "segunda performance", o confronto real onde as habilidades do Taolu são aplicadas. Essa distinção teórica é utilizada para analisar o xondaro, onde a prática diária (primeira performance) se conecta ao confronto real com um oponente (segunda performance).  Porém, a segunda performance não necessariamente tem uma dimensão de contato, embora este seja iminente. Nesta segunda performance, a agência da imagem é um fator crucial. A representação visual do corpo em movimento pode influenciar a percepção do adversário, agindo como uma "estratégia política imagética". Os movimentos diante do adversário expressa elementos mais profundos de interação, onde a força da imagem do corpo em ação, diante do Outro, também exerce influência no resultado final da disputa, podendo anular o contato físico (por resolver o combate sem necessidade da agressão), ou engajar nele como recurso para consolidar o "ataque subjetivo" da performance.  São elementos existentes em praticamente todas as performances marciais. Nesse sentido, o livro estabelece um diálogo com outras artes marciais, como a capoeira e diversas artes africanas, para demonstrar que essa dinâmica de preparação e confronto é uma constante universal, reforçando a validade do xondaro como uma arte marcial completa. O livro "Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política" está disponível para compra .

  • Modernidade e conservadorismo no cinema chinês Pré-1930

    O cinema chinês nasceu de forma curiosa e profundamente conectada às tradições locais. Tanto a Opera quanto o próprio teatro de sombras, foram importantes para consolidar uma narrativa própria, mesmo com a constante influência estrangeira em diversos setores da sociedade.  O primeiro filme produzido na China, " Dingjun Mountain"  ( A Conquista da Montanha Dingjun , 1905), tinha elementos da Ópera de Pequim. Foi até protagonizado pelo famoso ator Tan Xinpei , conhecido como o "Rei da Ópera de Pequim".  Yin Mingzhu Exibido em um teatro no estilo tradicional de casa de chá, o filme era apresentado junto a números de ópera e magia, evidenciando a tentativa inicial de integrar o novo meio cinematográfico ocidental ao teatro tradicional chinês. Yin Mingzhu e a tensão entre modernidade e tradição Nas décadas seguintes, a chegada de figuras como Yin Mingzhu , mencionada como a primeira grande estrela feminina do cinema chinês, apelidada de Miss F.F. ( Foreign Fashion ), consolidou nas telas um imaginário marcado pela modernidade cosmopolita.  Yin era fluente em inglês e adepta de atividades consideradas modernas, como dança, natação e direção de automóveis, e se destacava também pelo estilo inspirado na atriz americana Pearl White. Em 1925, ela estrelou "Back Home from the City" ( Chongfan guxiang ), dirigido por Dan Duyu. A obra funcionava como um “veículo estrela” para a atriz e uma verdadeira vitrine do estilo de vida urbano e ocidentalizado: moda, maquiagem, arquitetura moderna, design de interiores e transporte apareciam como objetos de desejo para um público em transformação.  No entanto, o enredo terminava de forma conservadora e anticlimática , com a personagem Simplicity (Sunü), símbolo da modernidade, e Chastity retornando à segurança do lar rural. Um desfecho que refletia bem a dinâmica moral da década de 1920, quando, apesar do fascínio pelo cosmopolitismo, persistia a valorização dos valores familiares tradicionais. Estética estrangeira e “sinicização” do cinema O cinema chinês pré-1930 , nesse sentido, incorporava amplamente a abordagem hollywoodiana, tanto em narrativa quanto em técnica, buscando viabilidade comercial. Já em 1926, críticos como Hu Zhifan apontavam uma tendência de “feminização e europeização” na produção nacional. Ao mesmo tempo, diretores como Fei Mu , Zhu Shilin e Sun Yu buscavam um “estilo nacional único” , inspirando-se na pintura, no teatro e na estética tradicionais chinesas.  Essa “sinicização” da tecnologia estrangeira revelava um duplo movimento. Por um lado, a absorção de modelos ocidentais, por outro a afirmação de uma identidade cultural própria. O que refletia também a dinâmica política da época, uma intensificação da ação estrangeira no país gerando um crescente movimento nacionalista de defesa da soberania chinesa. Conservadorismo e nacionalismo cinematográfico O gênero do drama familiar dominava as telas, exaltando a estabilidade da família e defendendo códigos éticos tradicionais frente ao radicalismo contemporâneo, especialmente o do Movimento Quatro de Maio . Obras influenciadas pela ficção “borboleta” e pelas peças “civilizadas” favoreciam reformas graduais, mas mantinham ainda um forte apelo comercial. Na segunda metade da década de 1920, a censura do Kuomintang (partido nacionalista) e o uso estratégico da retórica conservadora por grandes estúdios, fortaleceram a ligação entre cinema, conservadorismo e ideologia política.  Críticos como Chen Zhiqing defendiam que um cinema nacional deveria preservar e promover o “espírito nacional”, criticando produções voltadas exclusivamente para elites urbanas. Filmes como "Song of China" (1935), codirigido por Fei Mu e Luo Mingyou, ilustraram essa perspectiva, glorificando valores familiares e alinhando-se ao Movimento Nova Vida do KMT. Assim, o cinema chinês antes da década de 1930 articulava-se como um campo de tensões, incorporando técnicas e narrativas estrangeiras, mas também usando tais técnicas para reafirmar valores tradicionais e promover uma identidade nacional, negociando, na tela, os conflitos entre modernidade e tradição. Esses conflitos, a partir da década de 1930, se tornariam mais polarizados. A invasão japonesa da Manchúria em setembro de 1931 e o bombardeio de Xangai em janeiro de 1932 mudaram drasticamente o cenário cinematográfico, fazendo surgir o gênero que ficou conhecido como " cinema de esquerda ".

  • Como a porcelana moldou o nome "China" no inglês

    O nome "China" no vocabulário inglês moderno não deriva, de forma direta e inquestionável, da dinastia Qin (século III a.C.), como muitas vezes se afirma.  Ao contrário do termo zhongguo (中国), cuja tradução literal como “Estados Centrais” ou “Reino do Meio” foi historicamente flexível, a ligação etimológica entre “Qin” e “China” é mais complexa e cheia de desvios. Há evidências de que a raiz sin ou cin , presente em textos sânscritos, já circulava antes mesmo da ascensão da dinastia Qin, possivelmente derivada de Jin (晋), um poderoso estado hegemônico do século VII a.C., governado por Chonger.  Esse detalhe sugere que a associação fonética entre “China” e “Qin” pode ser mais produto de coincidências linguísticas e de rotas comerciais do que de uma origem única e linear. De "Seres" a "Cathay": múltiplas Chinas na Antiguidade e na Idade Média O mundo greco-romano conhecia duas Chinas distintas : Sinai/Thinai e Seres ( Serica ), ambas associadas à exportação de seda, mas não identificadas como o mesmo território.  O nome Seres (do latim “seda”) ilustra bem esse processo: um produto de luxo acabava nomeando toda uma terra distante. Na Idade Média, a Europa acrescentou outro nome,  Cathay , amplamente difundido pelos relatos de Marco Polo. Curiosamente, Marco Polo raramente menciona algo como Chin ou China . Quando o faz, refere-se possivelmente a Manzi , região costeira meridional. Foi justamente esse “Chin” do sul que passou a figurar nos registros de comerciantes muçulmanos e, posteriormente, portugueses.  Ainda assim, no inglês, o termo teve pouca circulação até que um objeto específico mudasse o jogo . Porcelana: do sul do império às mesas elizabetanas Foi a porcelana fina do sul da China  que consolidou a palavra China no inglês. Quando a louça chegou às mesas da Inglaterra elizabetana, tornou-se símbolo de sofisticação.  Shakespeare, em Measure for Measure , faz alusão à distinção entre tigelas comuns e “China dishes” (louça chinesa), capturando o prestígio do material. Assim, após um longo percurso, o termo china (porcelana) passou a emprestar sua força semântica para China (lugar), ecoando o que já ocorrera no mundo romano, quando seres (seda) nomeou terras distantes.  Marco Polo Mais do que um legado imperial, o batismo linguístico da China em inglês foi moldado pelo comércio, pela cultura material e pela circulação global de objetos de prestígio.

  • Ossos de dragão: o remédio para malária que reescreveu a história da China

    A história é, por vezes, feita de acasos extraordinários. Uma das mais fascinantes curiosidades da história da China ilustra perfeitamente essa máxima, conectando a medicina tradicional a uma das maiores revelações arqueológicas do país.  Tudo começou em 1899, quando Wang Yirong, um estudioso respeitado e chanceler da Academia Imperial de Pequim, adoeceu com malária. Wang era colecionador de bronzes antigos e profundo conhecedor dos primórdios da escrita chinesa. Ao receber um remédio tradicional de uma farmácia local, ele se deparou com um ingrediente peculiar: "ossos de dragão", que deveriam ser triturados e fervidos para aliviar a febre. Para sua surpresa, com seu olhar treinado,  Wang Yirong  reparou que aqueles ossos, naturalmente, eram de animais. Quando ele observou com mais atenção, reparou que tinham gravuras que se assemelhavam às formas arcaicas de escrita presentes em seus bronzes.  Essa descoberta acidental deu início a uma investigação que levou os estudiosos a rastrear a origem dos ossos até escavações em uma aldeia perto de Anyang, na província de Henan. Ali, foi identificado o berço das escritas de adivinhação da pré-história chinesa, muito anteriores a qualquer registro conhecido até então. A importância dos ossos oraculares foi monumental. As inscrições neles contidas não eram apenas caracteres primitivos; eram registros detalhados de adivinhações realizadas para os reis da Dinastia Shang (c. 1600-1046 a.C.). Graças a esses artefatos, foi possível estabelecer uma cronologia completa para as dezessete gerações de reis Shang, confirmando de forma impressionante a precisão da lista de monarcas compilada séculos depois pelo grande historiador Sima Qian.  Ilustração de um médico chinês dando a um paciente doente uma grande tigela contendo remédio. Assim se deu a descoberta de uma das provas mais concretas e fundamentais da antiguidade chinesa, que validou textos históricos e empurrou as origens da civilização para ainda mais longe no tempo, foi resgatada do esquecimento por um estudioso doente e um pacote de "ossos de dragão".

  • Censura na China? O que ninguém te contou sobre a complexa arquitetura jurídica da internet chinesa

    A discussão sobre a internet na China é frequentemente dominada por uma narrativa de censura monolítica, muitas vezes atribuída à vontade arbitrária de um poder centralizado. No entanto, uma análise mais detida do arcabouço jurídico chinês revela um sistema complexo e deliberativo, enraizados tanto na estrutura do Estado quanto em preceitos socioculturais específicos.  O direito à expressão, por exemplo, é explicitamente protegido pela Constituição chinesa  de 1982. O artigo 35º estabelece que os cidadãos desfrutam de "liberdade de expressão, de imprensa, de reunião, de associação, de procissão e de manifestação". Considerado um direito fundamental, este princípio abrange o direito de expressar, de criticar e o direito de saber, sendo complementado pelos artigos 40º (privacidade de correspondência) e 47º (liberdade de criação científica e artística).  Essa garantia constitucional, presente em todas as quatro constituições desde a fundação da RPC em 1949, forma a base sobre a qual toda a legislação subsequente é construída. Contudo, a liberdade de expressão não é concebida como um direito absoluto. O Artigo 51º da mesma Constituição estabelece um princípio fundamental:  "Os cidadãos da República Popular da China, no exercício das suas liberdades e direitos, não podem infringir os interesses do Estado, da sociedade ou da colecção, nem as liberdades e direitos legítimos de outros cidadãos."  Esta cláusula é o pilar que sustenta os pontos de restrições legais aplicadas à comunicação e, especialmente, à internet. Provavelmente também é o que causa incômodo nas leituras com base nas normas ocidentais.  A legislação chinesa proíbe conteúdos que atentem contra os princípios constitucionais, que coloquem em risco a unificação e soberania do país, que divulguem segredos de Estado, que instiguem o separatismo ou que perturbem a solidariedade entre as diversas nacionalidades (minorias étnicas).  Na cultura política chinesa, a segurança, honra e interesses coletivos (nacionais) são tradicionalmente considerados mais importantes do que princípios individualizantes, um ponto crucial que diferencia sua abordagem daquela prevalente em muitas nações ocidentais.  Essa perspectiva justifica a regulação estrita de discursos que possam levar à desordem social, como a disseminação de pornografia, glorificação da violência ou a fabricação de informações terroristas que possam gerar pânico público. No entanto, é importante compreendermos que o Estado chinês não é simples e tampouco é governado por um poder absoluto na figura do presidente. Há um intrincado corpo institucional que decide sobre a legislação do país e que, em alguma medida, se une ao interesse popular em diversas questões. A estrutura legislativa por trás da rede O regime regulatório da internet na China surge de um corpo legislativo complexo e hierárquico. No topo está a Lei Constitucional, com a Assembleia Popular Nacional (APN) atuando como o órgão supremo do poder estatal, responsável por emendar a própria Constituição e promulgar leis básicas. É importante notar que, embora a figura do Presidente seja proeminente na mídia global, o poder decisório é distribuído por coletivos.  A APN e seu Comitê Permanente elegem e supervisionam os mais altos funcionários, incluindo o Presidente, o Primeiro-Ministro e os chefes do judiciário, demonstrando que a governança é um exercício de órgãos colegiados e não uma autocracia personalizada.  Abaixo da Constituição, a Lei Estatutária, também proveniente da APN e de seu Comitê Permanente, estabelece o quadro legal detalhado, como a Lei de Assinatura Eletrônica e a Decisão sobre a Salvaguarda da Segurança da Internet. A complexidade se aprofunda com a Lei Administrativa. O Conselho de Estado, órgão executivo máximo, junto de seus ministérios, como o Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação (MIIT), possui poder inerente para promulgar regulamentos administrativos.  Estima-se que mais de 14 órgãos reguladores e mais de 50 regulamentos e regras administrativas governam o ciberespaço chinês. Este cenário frequentemente resulta em sobreposições ou até conflitos de jurisdição, um indicativo da natureza burocrática e evolutiva do sistema, em vez de um controle centralizado e infalível.  Complementam essa estrutura as interpretações judiciais do Supremo Tribunal Popular, que podem funcionar como lei estatutária, e as leis locais promulgadas por províncias e grandes cidades para atender a necessidades específicas.  A participação pública, por meio de fóruns e audiências, também é um componente do processo legal, que busca deliberar e consolidar as leis antes de sua implementação. Essa intrincada teia legal refuta a ideia de um sistema monolítico e arbitrário, apontando para um esforço contínuo de governança em um domínio em constante mudança. Todo esse emaranhado de regulamentações e poderes não pode ser compreendido simplesmente a partir de um parâmetro legal, tampouco servir de base comparativa com outros modelos espalhados pelo mundo. Se você me acompanha aqui, sabe que defendo as especificidades locais como bases simbólicas que fundamentam as estruturas de qualquer Estado, o que complexifica qualquer comparativo. A China, em termos de um senso comum compartilhado sobre o que é sociedade, tem em princípios coletivos a base de diversos setores sociais, que vão desde um simples jantar em família até as mais complexas estruturas do Estado. O coletivismo como pilar da legislação A ênfase nos interesses do Estado e da sociedade não é apenas uma diretriz legal, mas um reflexo de valores socioculturais profundamente enraizados.  A priorização do coletivismo chinês sobre o individualismo liberal, que molda grande parte do pensamento ocidental, é um fator determinante que já estava presente antes mesmo da Revolução Popular de 1949.  A legislação chinesa reflete uma preocupação explícita com a manutenção da moralidade social e do bem-estar coletivo. A proibição de pornografia, por exemplo, é justificada por seu potencial de "corromper a moral social e gerar comportamentos criminosos". Da mesma forma, a contenção de cultos religiosos no ambiente digital visa proteger a ordem pública e respeitar a liberdade individual. Essa responsabilidade coletiva é incentivada ativamente pelo Estado e corroborada pelo corpo social. Existe, inclusive, uma recompensa a cidadãos por denunciarem atividades ilegais online.  Essa mentalidade se traduz em uma maior confiança na intervenção governamental como principal mecanismo para garantir a ordem e o desenvolvimento, ao mesmo tempo que este se utiliza de mecanismos de consulta popular para garantir o lastro social de suas medidas.  Portanto, mesmo que existam críticas pertinentes vindas de setores internos e externos, compreender a regulação da internet na China exige um olhar que transcenda a lente da censura e analise a interação entre uma estrutura legal formal, um processo legislativo deliberativo e uma cultura que historicamente valoriza princípios confucionistas, como a construção da estabilidade e a harmonia do coletivo. Fonte: Internet Law in China de Guosong Shao, edição de 2012. Alguns detalhes e regulamentos específicos podem ter sido alterados desde a publicação, embora a estrutura legal e os princípios fundamentais descritos provavelmente se mantenham em suas linhas gerais.

  • As sombras ancestrais do (电影) “dianying” chinês

    A origem do termo "filme" no mandarim (dianying, 电影) se conecta o cinema moderno ao tradicional teatro de sombras (皮影戏).  Embora possa ser um conhecimento comum para os chineses, essa relação revela algo interessante que venho constatando em minha pesquisa de doutorado a "tradição" de buscar na histórica os sentidos do presente. A ancestralidade do cinema chinês e a linguagem das sombras  Quando o cinema foi introduzido na China no início do século XX, não havia um termo equivalente no vocabulário tradicional chinês para nomear essa nova forma de arte ocidental. A ausência de um nome específico levou à criação de expressões que buscavam ancorar o novo fenômeno tecnológico em práticas já conhecidas pelo público chinês da época. É nesse contexto que surgem expressões como "dianguang yingxi" (电光影戏) , literalmente “teatro de sombras elétrico” , e sua forma abreviada, "dianying" (电影), hoje a palavra padrão para “filme” em chinês. A escolha de "yingxi" (影戏), no entanto,  não foi acidental . Ela fazia referência direta ao piying (皮影), o teatro de sombras tradicional chinês, também conhecido como 皮影戏 ( piying xi ). Nessa forma ancestral de entretenimento, figuras humanas e animais esculpidas em couro eram manipuladas atrás de uma tela e iluminadas por lamparinas, criando imagens projetadas em movimento.  Essa técnica milenar, profundamente enraizada na cultura performática da China, possui impressionante  semelhança visual e funcional com o princípio básico do cinema moderno , que é a projeção de imagens em uma tela para contar histórias através do movimento e da luz. Dessa forma, a introdução do cinema na China não foi apenas uma importação técnica , mas passou por um processo de “sinização semântica” , incorporando elementos do imaginário cultural local. O termo “dianying” (电影), que significa filme, em termos atuais, acabou por simbolizar essa fusão entre o novo e o ancestral, o elétrico e o artesanal, o estrangeiro e o doméstico. O primeiro filme chinês e a continuidade estética tradicional A convergência entre o cinema e as artes tradicionais chinesas não se limita apenas à linguagem.  O primeiro filme chinês reconhecido oficialmente , Dingjun Mountain (定军山), foi produzido em 1905 em Pequim , e representa um marco simbólico desse processo de adequação cultural. Trata-se de uma gravação de uma performance da ópera de Pequim (京剧), estrelada por Tan Xinpei (谭鑫培), uma das figuras mais icônicas do teatro tradicional da época, chegou até a ser reconhecido como o "Rei da Ópera de Pequim". Ao escolher uma performance de jingju (京剧) como conteúdo inaugural para o novo meio de entretenimento, os primeiros cineastas e exibidores chineses não reafirmavam apenas as raízes culturais nacionais diante de uma mídia ocidental, mas também sinalizavam ao público que o cinema não era algo completamente “outro”, ou seja, era, de certo modo, uma continuidade estética e narrativa daquilo que já conheciam . Atualmente, não é difícil encontrar autores e entusiastas que defendem a ideia de que as origens do cinema chinês estão, em certa medida, ligadas ao 皮影戏 (piying xi). Ainda que não se trate de uma filiação técnica direta, é importante lembrar que cinema não é apenas uma técnica, mas também é narrativa, construção de personagens e como a própria tecnologia se compreende e é utilizada dentro das relações sociais.  Atuação por trás do espetáculo de sombras. O contexto chinês, por já ter uma tecnologia similar (em termos conceituais) e aceita pela sociedade, reproduziu nessa nova tecnologia estrangeira, aspectos dos sentidos simbólicos já compartilhados no próprio contexto sociocultural. Embora a influência estrangeira, em termos narrativos, também tenha exercido grande influência nas primeiras produções da primeira metade do século XX.

  • Como é a regulação da internet na CHINA? Saiba como o país lida com plataformas digitais e proteção da infância

    Infância, algoritmos e valores coletivos na era digital chinesa O debate sobre a proteção da infância nas redes digitais ganhou novo fôlego no Brasil após a denúncia do influenciador Felca, cuja repercussão alcançou o Congresso Nacional e a grande imprensa. Ao expor como algoritmos de recomendação favorecem conteúdos que sexualizam menores, Felca trouxe à tona um ponto cego da arquitetura digital: a ausência de mecanismos robustos de controle, responsabilização e regulação culturalmente sensíveis. Enquanto no Brasil o foco recai sobre o embate entre liberdade de expressão e controle parental, a China apresenta um paradigma diferente, menos centrado no indivíduo e mais estruturado por valores coletivos. O livro, Internet Law in China  mostra que esse contraste não deve ser interpretado como um modelo a ser copiado, mas como um estímulo à reflexão sobre as formas possíveis de regulação digital. Um ecossistema regulatório moldado por valores coletivos.  A China implementou um sistema regulatório abrangente que molda diretamente o acesso e o uso de plataformas digitais por crianças e adolescentes. Esse sistema não depende apenas de leis, mas articula normas jurídicas, licenciamento administrativo, tecnologias de vigilância, obrigações corporativas e mobilização da opinião pública, compondo uma espécie de "ecologia regulatória" com múltiplos atores e níveis de atuação. No centro desse ecossistema está uma concepção de infância alinhada ao bem-estar coletivo e à harmonia social. A produção e circulação de conteúdos pornográficos, por exemplo, são enquadradas como ameaças à ordem moral e ao desenvolvimento das crianças. A legislação vigente desde 2000 prevê punições severas a quem compartilha material de cunho sexual envolvendo menores, com agravantes definidos pelo tipo de conteúdo, a idade dos envolvidos e o número de publicações. Além disso, as Provisões Administrativas sobre Programas Audiovisuais na Internet e o exame prévio de conteúdos televisivos impõem limites à exibição de comportamentos sexuais, vulgaridades e outros conteúdos considerados incompatíveis com os valores morais defendidos pelo Estado chinês. A regulação abrange não apenas pornografia, mas também conteúdos com representações de promiscuidade, homossexualidade, linguagem obscena ou música de teor sexualizado — uma delimitação que reflete mais os contornos "ético-culturais" da sociedade chinesa do que um sistema universal de moralidade. Algoritmos como filtros morais: vigilância e classificação automatizada Diferentemente do Brasil, onde o debate sobre algoritmos ainda caminha lentamente no campo jurídico, a China desenvolveu uma arquitetura técnica sofisticada de classificação e vigilância. Ferramentas como filtragem por palavras-chave, bloqueio seletivo de sites e controle de DNS são aplicadas por roteadores configurados para interromper ou redirecionar acessos a conteúdos considerados inadequados. Desde 2003, o chamado  Projeto Golden Shield  articula recursos como reconhecimento facial, monitoramento de redes, escaneamento de dispositivos e coleta de dados pessoais. Esses mecanismos, combinados, atuam como camadas invisíveis de modulação do comportamento digital. Para crianças e adolescentes, isso significa menos autonomia individual, mas maior conformidade com o projeto de formação moral defendido institucionalmente. A coleta de dados por grandes empresas — como nos casos envolvendo a Tencent QQ e a Qihoo 360 — gerou controvérsias públicas significativas, exigindo posicionamento e intervenções estatais. Isso desmonta o senso comum de que não existe debate público na China sobre tecnologia e infância. Ao contrário, episódios como esses revelam que a sociedade chinesa discute, contesta e influencia a direção das políticas digitais. Busca humana, punição social e o papel da comunidade Um fenômeno emblemático é a chamada human-flesh search (人肉搜索), traduzida como “busca de carne humana” — uma prática em que milhares de internautas colaboram ativamente para identificar e expor indivíduos considerados moralmente condenáveis. Embora controversa, essa prática é vista por alguns setores como expressão da vigilância popular e da supervisão moral da coletividade. Casos notórios revelam tanto o poder como os abusos desse mecanismo. De um lado, ele levou à investigação de autoridades envolvidas em corrupção; de outro, expôs inocentes e violou direitos à privacidade. Essa ambiguidade reflete tensões entre justiça popular e legalidade, e mostra que o debate sobre moralidade, infância e regulação ultrapassa os limites institucionais — está também entranhado na cultura digital cotidiana. Internet, infância e diferenças de paradigma: o que está em jogo? O episódio recente de Felca e a mobilização em torno da “adultização infantil” trazem à tona a urgência de discutir o papel das plataformas e da sociedade na proteção da infância digital. A experiência chinesa não deve ser romantizada nem demonizada, mas compreendida à luz de suas próprias premissas históricas e culturais. Ao contrário de sociedades ocidentais marcadas pela centralidade do indivíduo liberal, a China construiu uma noção de liberdade condicionada à harmonia coletiva. Isso implica uma concepção de infância menos centrada na autonomia individual e mais vinculada à formação moral como responsabilidade do Estado, da escola, da família e da própria sociedade. É nesse ponto que a antropologia oferece sua contribuição: ao evitar julgamentos etnocêntricos e reconhecer que diferentes sociedades produzem diferentes soluções para seus dilemas. O que a China nos mostra não é um modelo a ser seguido, mas um caso exemplar de como a internet pode ser moldada por valores locais, além de como a legislação pode expressar, de forma complexa, os debates internos de um contexto sociocultural. No Brasil, esse olhar comparativo pode nos ajudar a pensar alternativas: quais são os valores que queremos proteger? Como garantir liberdade de expressão sem abrir mão da proteção de crianças e adolescentes? E o mais importante: quem deve ser responsabilizado quando os algoritmos falham? Fonte: Shao, Guosong. Internet Law in China. 1ª ed. 2012. Alguns dispositivos e normas podem ter sido modificados desde sua publicação, mas a estrutura geral e os princípios regulatórios permanecem como base interpretativa.

  • Como assim a China inventou o futebol? Entenda o sonho por trás da Superliga Chinesa de Futebol

    Por trás da semifinal da Copa da China, uma história milenar ressurge com força e significado político Ontem o futebol chinês viveu uma noite decisiva: Henan FC venceu o Chengdu Rongcheng nos pênaltis e garantiu vaga na final da FA Cup, a Copa da China. O jogo atraiu os holofotes não apenas pela tensão esportiva, mas também por aquilo que representa. A consolidação de um campeonato nacional que cresce em estrutura, visibilidade e ambição cultural. Na minha recente viagem à China , não foi uma nem duas pessoas que vinham falar comigo sobre futebol tão logo ficavam sabendo que sou brasileiro. Já aqui no Brasil, o que poucos sabem é que, para além dos gramados atuais, o futebol na China carrega uma história de mais de dois mil anos .  E essa história não está sendo apenas resgatada, ela está sendo politicamente ativada como símbolo de soberania cultural e como peça de um projeto maior, relacionado ao Cuju (蹴鞠). Não, não se pronuncia como Cajú, mas sim algo próximo de "suji" (Cùjū). Mas você sabe o que é Cuju?  Cuju (蹴鞠): o jogo milenar que virou origem Praticado desde a dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), o cuju era um jogo de “chutar a bola” com função ritual, pedagógica e militar. A cidade de Zibo , na província de Shandong, é considerada o berço da prática. Hoje abriga museus, centros de treinamento e programas culturais que celebram essa origem.  Os primeiros livros da China antiga que registram o cuju são rastreados até o período dos Reinos Combatentes (c. 475-221 a.C.), e talvez esta seja a principal prova que fez a FIFA em 2004, reconhecer oficialmente o  cuju  como a forma mais antiga do futebol.  Copa da China e o projeto do “Sonho do Futebol Chinês” A FA Cup (中国足协杯) não é apenas mais uma competição doméstica. Ela representa uma engrenagem estratégica dentro do que o governo chinês chama de "Sonho do Futebol Chinês" , que busca tornar o país uma potência mundial no esporte até meados do século XXI. A profissionalização do futebol chinês, iniciada em 1995, passou por altos e baixos, mas desde 2011 o campeonato voltou com força, incluindo times amadores (desde 2012) e políticas de popularização do esporte. O slogan "Jogo Para Todos" reflete o desejo de massificar o futebol como prática social e como espetáculo midiático , com transmissão, engajamento e formação de torcidas locais. Clubes como o Guangzhou FC , o Shanghai Port e o Shandong Luneng possuem hoje algumas das maiores torcidas do país, sinalizando que o futebol está deixando de ser apenas um produto importado e começando a fazer parte da identidade urbana e regional da China contemporânea. Futebol e nacionalismo cultural: símbolo sem isolamento A ativação do cuju e a valorização da FA Cup não são ações isoladas. Elas se conectam a um discurso maior: o do rejuvenescimento do país , ou seja, a superação do chamado "Século da Humilhação" , período entre a Guerra do Ópio e a fundação da República Popular da China, em que o país foi fragmentado por potências coloniais. Mas diferentemente do nacionalismo excludente ou beligerante de outros contextos, o projeto chinês se apoia em fundamentos que procuram harmonia com o mundo .  Para entender o nacionalismo chinês, é muito importante compreender o sentido de "Minzu Zhuyi" (民族主义) e como ele influenciou o sentido de nacionalismo na China, fazendo com que hoje, a ideia de uma “globalização com características chinesas”  que busca construir um futuro compartilhado, resulte em um país que cresce, mas não necessariamente se afirma pela dominação. Poucos analistas estrangeiros compreendem ou se quer consideram essa diferença, resultando em análises comparativas rasas. Essa ideia específica de nacionalismo, portanto, está presente também no esporte. O futebol, nesse sentido, deixa de ser apenas uma meta de títulos, mas também uma forma de afirmação para o mundo, ressaltando que o país se  modernizou, mas anda junto com tradição . Algo que o Brasil, nos seus termos, ao menos com o futebol, faz há muito tempo também.  Será que vem daí a felicidade que percebi em muitos chineses ao saberem que e eu era brasileiro? Abraços.

  • Antropologia das artes marciais: o que há de comum entre o cinema de luta chinês e as artes marciais indígenas?

    O corpo em combate sempre falou mais do que parece. Seja nos antigos templos chineses como Shaolin e Wudangshan, ou na terra batida de uma aldeia Guarani, o lutador não apenas se prepara para a luta, ele se apresenta ao mundo nos seus termos.  No xondaro Guarani , arte marcial e espiritualidade caminham juntas. No wushu chinês, a coreografia da luta se transformou em imagem. Imagem que virou uma indústria cultural poderosa. Mas o que há de comum entre essas formas tão diferentes de combate? E o que elas nos dizem sobre como culturas diferentes constroem e derrubam relações de poder através da performance? A imagem como arma: quando o corpo fala antes do golpe No caso do cinema chinês, o guerreiro luta até mesmo quando está parado. O silêncio, o olhar e o sopro do vento que antecede o movimento fazem parte do combate. Até mesmo o sentido de combate pode ser relativizado, visto que, uma arte marcial fora do ambiente de campeonatos e academias — produzidos com foco em pontuação e medalhas —, há rituais, regras morais, situações onde outros elementos religiosos são atrelados. No entanto, em boa parte também existe a imagem do corpo em ação diante de um "público". Filmes como O Clã das Adagas Voadoras,   Hero,   O Grande Mestre , assim como toda obra de Bruce Lee, são construídos em cima desse imaginário onde vencer não é apenas derrotar, é impactar de forma visual, sonora e emocionalmente o inimigo. Onde lutar não é necessariamente ganhar pontos, mas reafirmar identidades e valores morais. No livro Xondaro Guarani: Arte Marcial, Performance e Política , que é baseado na minha pesquisa de mestrado em antropologia, percebi algo semelhante na prática Guarani. O corpo do guerreiro xondaro, em performance, é mais do que músculo, ele também possui todos os requisitos prévios de comportamento, como o tom silencioso do lutador e a atuação como exemplo moral para o grupo, — durante a primeira performance marcial —, e os gritos e a circulação em grupo durante a segunda performance, que também são elementos de uma  estética agonística  que antecede a luta física, atuando diretamente sobre a percepção do outro sobre a possibilidade ou não da vitória. Na minha pesquisa eu relato como me foi apresentado, nos termos do que está sendo dito aqui, uma ocupação da prefeitura de São Paulo, onde os  xondaros Guarani  conseguiram desestabilizar a ordem apenas com seus cantos e movimentações em círculo, o “vencer sem tocar” que muitos estilos diferentes também pregam. Todos esses elementos são percebidos em diversos estilos, mas principalmente nas artes marciais chinesas; salvo suas especificidades que marcam características próprias, claro.  As formas prévias diante de uma disputa, ou mesmo o cinema enquanto instrumento produzido para mostrar capacidades — visto que as lutas são coreografadas, premeditadas e atreladas à moralidade do personagem —, são maneiras de "interferir" no outro, ou em quem assiste, promovendo no oponente, um cenário de possibilidade de vitória ou derrota. Entre o espetáculo e a resistência: duas pedagogias do corpo Assim, a performance marcial no cinema chinês criou um modelo global de guerreiro: calmo, centrado, elegante. Mas por trás da tela, essas imagens também são políticas,  um projeto de afirmação identitária e, em termos mais nacionalistas, um orgulho cultural. Já o xondaro atua em um campo de disputa que pode parecer mais real, devido a não fazer parte de uma indústria cinematográfica, mas ele também é acionado como marcador identitário Guarani, inclusive em termos imagéticos em exibições audiovisuais em plataformas como YouTube, onde a imagem do corpo em movimento serve como ferramenta de afirmação identitária, resistência simbólica e política. Diferentes em contexto e em diversos aspectos, mas semelhantes nestes pontos que apresentei, em ambas as tradições o corpo do lutador é treinado para atuar no mundo, usando elementos que estão muito além da força física. Ele é, ao mesmo tempo, ritual, estratégia e linguagem. Além disso, atuam politicamente. Tal como as artes marciais chinesas, para além dos filmes, tiveram um papel durante vários momentos de inflexão política, entre ascensão e queda de dinastias, o xondaro frequentemente é associado à ações políticas de resistência. Falar sobre definições, em termos antropológicos, é um pouco complicado. Xondaro não necessariamente possui aspetos de luta somente, assim como os sentidos da palavra e o que ela representa dentro das relações sociais, pode variar. Mesmo as artes marciais chinesas, que parecem muito definidas no imaginário popular, é alvo de inúmeros debates sobre veracidade diante de mudanças propostas por novos professores, tradição e origem. Cada praticante possui sua verdade sobre o que considera legítimo ou não. Tais aspectos também mostram como a variação entre sentidos acontece. Até mesmo o termo "arte marcial" pode ter muitos sentidos. Por outro lado, toda prática considerada arte marcial, no fundo, talvez seja uma forma de produzir, diante de um evento agonístico, sem palavras, uma interferência no corpo. Uma maneira de moldar o olhar do oponente antes mesmo de tocar. Ou seja, transformar o corpo em presença simbólica ativa, visto que falamos de uma Performance Marcial .  E é nesse espaço entre o gesto e o impacto que o xondaro Guarani e o cinema de luta chinês se encontram como manifestações distintas de uma mesma gramática de performance.

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