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- Suzhou: a beleza dos canais e a antiga rivalidade dos literatos (vídeo)
Quando passei por Suzhou, fiquei impressionado não apenas com a beleza da cidade. Os canais antigos e a atmosfera movimentada, que mistura o antigo e o moderno de forma especial, realmente me encantaram. A cidade é desenvolvida e, caminhando pelas ruas com minha amiga de Changzhou, percebi que ela não fica atrás de Shanghai. Mas, assim como muitas das importantes cidades do sul, Suzhou também guarda uma história incrível, da época em que artistas disputavam protagonismo com outra cidade próxima: Wuxi. Canais de Suzhou. Confira a postagem completa no Substack . CLIQUE AQUI
- O caso do cão Orelha me lembrou os biquinhos-de-lacre
Esses dias chegou até mim o caso do cão Orelha e o lamentável ocorrido me fez lembrar da minha infância. Sim, porque muito tem se questionado a capacidade de uma criança ou adolescente ter ou não consciência do que faz e se, por isso, deva ser responsabilizado. O caso é inegavelmente terrível e, como acredito que todos já sabem do ocorrido, não vou me ater a problematizar o que meio mundo já está fazendo. Diante da enxurrada de informações sobre o tema que chegam por toda parte, me lembrei de quando era criança, com uns 8 ou 10 anos, e tínhamos o hábito de pegar um tipo de passarinho comum no meu bairro de classe média baixa do Rio, o bico-de-lacre, que chamávamos carinhosamente de biquinho-de-lacre. Todos nós, todos beirando a mesma idade, em um momento da infância, passávamos horas esperando nossas armadilhas pegarem os tais passarinhos, admirados por terem um bico vermelho contrastando com o corpo cinza e o peito avermelhado. Somado a um olhar atentamente fofo, como o de praticamente todo passarinho, aquilo despertava uma vontade de obter. Claro, não era para eliminar, mas para ter em gaiolas. Às vezes me assusto com a engenhosidade das crianças e até hoje não sei como desenvolvemos armadilhas tão eficientes. Pegávamos vários e, aos poucos, começamos a compor uma coleção de gaiolas em casa. Aquilo virou uma febre, mas que durou pouco. Me lembro que a fofura despertada pelo pássaro começou a ser contrastada com um sentimento de culpa. Eu não sabia nomear o sentimento como hoje, adulto, mas me lembro que era uma profunda dor pelo que tínhamos feito. Quando passeava pela varanda da minha casa pela manhã, renovava a água e a comida, limpava o fundo e os observava. Todos ali, quietinhos esperando algo e, aos poucos, conforme os dias passavam, eu imaginava como eles estavam se sentindo. Eu os havia retirado do céu e agora estavam ali, como um brinquedo à minha disposição, presos. Esse sentimento hoje compreendo como empatia, compaixão; uma capacidade de se colocar no lugar do outro que me despertou de forma súbita. Talvez tenha sido esse sentimento que faltou aos garotos que mataram o cão Orelha. Uma incapacidade de olhar para o animal e reconhecer nele a própria vida. Poderíamos aqui ficar criando teorias sobre o momento atual, sobre a influência dos pais, sobre o impacto das redes sociais ou mesmo o velho saudosismo de botequim, analisando como antes era melhor do que hoje. Mas a falta de empatia é o problema. A incapacidade de reconhecer humanidade no próximo opera como norma em alguns grupos sociais, e esses garotos certamente refletem um modus operandi naturalizado. Isso, sim, é um problema real — e muitos dos que atuam assim defendem politicamente a palavra "liberdade". E meus biquinhos-de-lacre? Bom, não demorou e um belo dia, também pela manhã, abri todas as gaiolas e os soltei, sentindo no meu coração o frescor de ter retirado do peito deles o peso que estava no meu. Por que fiz aquilo? Não foi por um motivo racional. Talvez tenha sido influenciado pelas mensagens humanísticas no final dos episódios de He-Man. Só sei que os livrei da prisão física, ao mesmo tempo em que me livrei da prisão da culpa. Eu também estava preso e, soltando-os, me libertei.
- Mudei meu nome e perdi tudo.
Hoje resolvi mudar meu nome no LinkedIn e, subitamente, perdi tudo. Tá bom, não necessariamente perdi tudo, mas meu acesso foi restrito por suspeita de fraude. Diante de tantas fraudes que recebemos hoje diariamente no celular, você altera seu perfil e, de repente, vira suspeito. Bom, eu segui as orientações da plataforma e enviei um documento para provar que eu sou eu. Mesmo assim, não recebi nenhuma mensagem de que alguma validação está em processamento; não sei para onde foram meus dados e me mantive perdido. Às vezes me pergunto onde vamos parar com tamanha dependência que a sociedade do século XXI criou das redes sociais. Não me refiro a uma dependência vaidosa, mas de uma concepção de que você PRECISA estar lá, caso contrário, você não "existe". Os recrutadores não vão te achar, os clientes encontrarão outro prestador de serviço e, por fim, sua vida entrará em uma fenda da existência social, te levando direto ao esquecimento negro do ostracismo. Com base nisso, nesse terrorismo virtual que está implícito nos lucros das grandes Big Techs, são inúmeros os influencers que vivem hoje (ou sobrevivem como resistentes ao mesmo ostracismo) de dar dicas para se destacarem nessas mesmas plataformas. Dicas que nunca são óbvias, como se as próprias plataformas conspirassem para que nós, meros dependentes condicionados a elas para existir, não participássemos delas. Uma espécie de acesso condicionado a um segredo digno dos macetes dos jogos de videogame dos anos 90; os que te permitiam, com apenas três vidas, vencer grandes mestres e alcançar o fim do jogo. Mas preciso confessar. Um lado meu se sentiu aliviado pela própria plataforma ter imposto essa desconfiança. Afinal, a própria realidade do que somos há tempos se distanciou daquela que muita gente compartilha em redes como o LinkedIn, onde entulham as postagens começando com: "É com muito orgulho que venho compartilhar essa nova fase...". Quem saberá o sentimento real sobre a nova fase? Minha experiência de vida me ensinou que transições são cheias de sentimentos confusos, mesmo aquelas que nos levam para uma condição melhor de vida. Isso não cabe nas redes, ao menos naquelas onde os algoritmos valorizam os que têm síndromes de "super-heróis". Agora tô aqui. Se antes ela já me parecia um mural de personalidades geniais, de profissionais exuberantes e de performances excepcionais, agora que eu mudei meu nome e perdi tudo, talvez eu até me encontre na realidade da minha rotina; que muitas vezes, ao menos por alguns minutos por dia, era dedicada àquele espaço. Quem sabe amanhã eu descubra que, como os jogos dos anos 90, eu ainda tenha mais duas vidas.
- O dilema do preconceito naturalizado em alguns ambientes acadêmicos
O mundo acadêmico, em sua busca por um rigor metodológico e uma ética de pesquisa, deveria ser um espaço de isenção, onde as pesquisas são avaliadas por resultados e não por estereótipos. No entanto, a realidade muitas vezes contrasta com esse ideal. Observa-se que certos temas e regiões do mundo, como a China, por vezes desencadeiam reações que parecem contradizer os próprios princípios das ciências humanas. O que se manifesta não é apenas um viés velado, mas uma forma de preconceito naturalizado, que se traduz em deboches e caricaturas que seriam inaceitáveis se dirigidos a outros grupos que, no Brasil, são reconhecidamente e historicamente oprimidos. Essa atitude parece revelar em comentários os preconceitos do século XX, que tenho estudado no meu doutorado, como a representação dos chineses como "homens doentes da Ásia", feita pelos ocidentais durante a tentativa de dominação do país. Como se não bastasse, ainda são tratados com uma leveza que os torna ainda mais perigosos. É como se a falta de uma crítica mais aprofundada ou a aversão política ao próprio sistema de governo da China, levasse à adoção de uma caricatura simplista. O preconceito e a dupla medida da crítica A situação se torna ainda mais complexa quando se percebe que os critérios de avaliação aplicados a esses trabalhos parecem ser desproporcionalmente rígidos. Pesquisas sobre temas considerados "sensíveis" ou "polêmicos" parecem ser submetidas a um escrutínio que não se aplica a outros objetos de estudo, como se a simples escolha do tema exigisse uma prova de lealdade ideológica. Essa dupla medida revela uma falha ética, especialmente quando partimos do princípio de que o ambiente acadêmico deveria ser o primeiro a questionar e desconstruir esses padrões. Em última análise, essa dissonância, ou melhor, esse preconceito que navega entre o discurso humanista das aulas e a prática obscura dos corredores, gera uma profunda decepção. Fica a reflexão sobre o paradoxo entre alguns "representantes" de um campo do conhecimento que, ao mesmo tempo em que ensinam sobre direitos humanos e equidade, podem falhar em aplicar esses mesmos princípios quando confrontados com seus próprios vieses.
- Alfred Gell: O Encontro da Arte com a Magia na "Tecnologia do Encanto"
Você já pensou sobre o que nos fascina em uma obra de arte? Talvez não seja apenas sua beleza, mas a percepção de que sua criação parece transcender o trabalho humano comum. É a partir dessa ideia que o antropólogo Alfred Gell estabelece uma conexão profunda entre a arte e a magia em sua teoria da "tecnologia do encanto". Para Gell, a arte é um componente da tecnologia e, em muitas culturas, a habilidade técnica do artista é compreendida como um tipo de magia. A mágica, neste sentido, não se refere a feitiços de contos de fadas, mas a uma explicação para o que parece ser um processo técnico extraordinário. Quando a destreza do artista vai além do que se pode entender, ela é interpretada como um conhecimento oculto ou uma "magia superior da escultura". O objeto de arte, portanto, carregaria o poder do "encanto", não só pela sua forma final, mas pelo mistério de sua criação. Em sociedades onde não existe o conceito de "belas artes" ocidentais, a arte tem uma eficácia social direta, manifestando-se em rituais e trocas. O virtuosismo do artista, nesse sentido, não seria mera habilidade, mas uma forma de criar assimetrias e influenciar o comportamento das pessoas, um poder que é percebido como mágico. Da Canoa Kula à Horticultura Trobriand: A Arte como Ação Mágica Alfred Gell ilustra sua teoria com exemplos etnográficos fascinantes. Nas canoas Kula dos Trobriand, as tábuas de proa ricamente decoradas, em sua concepção, não são apenas adornos; elas são instrumentos técnicos que, por meio de sua beleza e de sua capacidade de "perturbar" quem as observa, influenciam os parceiros de troca a oferecerem bens mais valiosos. A eficácia dessas tábuas, portanto, é interpretada como poder mágico, e a destreza do escultor é diretamente ligada a essa magia. O mesmo princípio se aplica à horticultura dos Trobriand, que Gell descreve como uma "obra de arte coletiva". A magia do horticultor é exercida através de "feitiços" (uma forma de arte verbal) demonstrando que a magia é uma habilidade de performance cultural. Nesses contextos, a magia não é vista como algo separado, mas como o "contorno negativo" da atividade técnica. A ideia de que um resultado pode ser alcançado com menos esforço do que o real é atribuída à magia, tornando a "tecnologia do encanto" visível. Em suma, a antropologia de Gell nos convida a ver a arte de uma maneira mais ampla: não como um objeto passivo a ser apreciado, mas como uma força ativa e mágica, intimamente ligada à produção técnica e com a capacidade de gerar eficácia social. Mas fica a pergunta: será que esse processo só acontece na arte? se ele acontece em outros contextos de interação social, por que alguns são chamados de arte e outros não?
- Sobre cães, condomínios e o ente coletivo chinês
Hoje, uma cena simples me fez parar para pensar. Em meu condomínio, como em tantos outros lugares, há um cachorro que vive solto. Ele late para carros, para pessoas, e não tem um dono visível. Mas quando surge uma reclamação, vários "donos" aparecem para defendê-lo. O curioso é que, apesar da defesa fervorosa, ninguém o leva para casa no frio ou na chuva. Essa dinâmica me levou a uma reflexão, inspirada pelos meus estudos sobre a coletividade na China. Em algumas sociedades, a coletividade não é só um amontoado de pessoas; ela age quase como um terceiro ente. Um corpo de interesse que está acima das partes em conflito. É como se a razão não fosse definida pelo grito mais alto, mas por uma régua comum a todos. Parece que em uma sociedade mais individualista, a solução do conflito fica inteiramente nas mãos das duas partes. É um jogo de poder, onde quem tem mais status ou dinheiro acaba impondo sua "verdade". É um tipo de "poder regulado" que não busca o bem comum, mas a vitória pessoal. No caso do cachorro, a ausência desse "ente coletivo" é clara. Não há um ponto de convergência que diga: a razão aqui é o bem-estar do animal e a harmonia do espaço. O conflito se resume a duas pessoas debatendo, e a "solução" vem de quem grita mais alto. Talvez a verdadeira força de uma comunidade não esteja nas regras escritas, mas, livre de idealizações, na existência de algo maior que o interesse de cada um. O que, obviamente não imprime uma ausência de conflitos, mas uma maneira diferente de resolução.
- No coração de Chongqing: cinema e coletividade no SCO Film Festival 2025
Recentemente teve o início do 2025 SCO Film Festival em Chongqing: mais de 1.500 cineastas e delegados de países membros reunidos para exibir o poder do cinema na China como ponte entre coletivos diversos. Como não estou lá, imaginei a praça iluminada pelos projetores e os olhares atentos de jovens, embaixadores e profissionais do setor. No festival, foram exibidos longas-metragens que exploram temas de pertencimento, identidade e sacrifício, em sintonia com as narrativas nacionais de cada país participante, mas convergindo num roteiro comum: a valorização do 'nós' em contextos distintos. A China, quando convida outras nações a compartilhar suas histórias, me faz pensar em como esse festival funciona como uma expressão da própria noção de coletividade chinesa . Todos presentes, diplomatas, cineastas independentes, estudantes e a comunidade local, se emocionando diante de cenas que refletem suas diferenças, mas, ao mesmo tempo, elementos universais. Por outro lado, como pesquisador que também pensa nas relações étnicas, penso sobre até onde as minorias étnicas chinesas aparecem nesses longas. Será que, ao celebrar o cinema como vetor de cooperação regional, reconhecemos também as vozes internas menos hegemônicas? Quais filmes do festival trazem narrativas de minorias e coletivos periféricos , para entender como esses grupos se situam no grande espetáculo do cinema estatal e transnacional? Muito provavelmente há filmes étnicos nesse meio, mas como a questão étnica na China é compreendida como dada e não como exceção, nem sempre esses elementos são expostos como pontos atrativos de publicidade. Sai dessa leitura com a sensação de estar diante de um mapa em movimento. Plateias vindas de diferentes latitudes, constroem uma rede de significados em torno do 'todo'. Fica a provocação: como o cinema pode ensinar a dançar no mesmo compasso, mesmo quando as origens são diversas?
- O Chinese Film Week em Bruxelas
Hoje acordei pensando no inevitável poder do cinema como elo entre culturas. Li a notícia sobre o Chinese Film Week em Bruxelas, um evento que começou em 28 de junho no China Cultural Centre, com exibição de Endless Journey , e com debates que reuniram diplomatas, cinéfilos e pesquisadores europeus. Esses eventos, para além do que eles são, eventos de gala, me faz refletir em termos antropológicos sobre o que faz uma narrativa policial chinesa gerar ponte com o público europeu? Segundo os organizadores, entre lágrimas e aplausos, o filme revelou “valores universais” e uma lógica de justiça que ultrapassa fronteiras. E talvez seja isso que torna o cinema chinês um material rico para refletir coletivismo, porque ele não apenas mostra laços comunitários, mas exerce essa função simbólica globalmente. O gesto de apresentar uma obra dramática, que trata de justiça e sacrifício, no coração da diplomacia cultural em Bruxelas, representa uma estratégia chinesa de cooperação não só econômica, mas simbólica, por meio do soft power. É uma forma sutil de reforçar coletivismo. Ao valorizar o heroísmo em grupo, contamina a audiência estrangeira com certa lógica de pertencimento, ainda que vista de outro prisma. No meu estudo sobre etnicidades no cinema, essa iniciativa alimenta um olhar mais amplo. A China é um país plural (com suas minorias étnicas e "maiorias", costumes, crenças) que escolhe compartilhar narrativas valendo-se de temas universais para engajar outros coletivos. E o cinema, nesse sentido, dialoga com uma lógica parecida com a que percebo em outros contextos de análises: arte que traduz o próprio ser coletivo e se infiltra em outra comunidade, refletindo no imaginário compartilhado entre diferenças. Como pesquisador, com essa reflexão hoje me senti provocado. Devo olhar cada exibição internacional também como experimento social. E pensar sobre como as reações do público estrangeiro (diplomatas, entusiastas, migrantes) pode revelar tanto sobre percepções da China quanto sobre nossa capacidade humana de nos reconhecer na alteridade. Curioso para saber como Endless Journey será recebido em outras capitais e se haverá tradução desse storytelling coletivo em discussões acadêmicas? Deixo no ar. Abraços.
- Chegando ao topo: o clímax da caminhada pelas Montanhas Wudang (vídeo)
Hoje compartilho o episódio mais importante do meu Vlog de Campo na China: a chegada ao topo das Montanhas Wudang, no lendário Palácio Dourado (Taihe). Essa conquista representa muito mais do que um simples roteiro de viagem, é a realização de um sonho que me acompanha desde a adolescência e que influenciou diretamente meus estudos em antropologia, cultura chinesa e performance. Depois de quatro horas subindo degraus entre paisagens de tirar o fôlego, finalmente cheguei ao auge da experiência. Registrei cada detalhe desse momento, com toda a emoção de quem sempre quis estar ali. Assista ao vídeo completo, veja como foi a chegada e descubra por que esse lugar é tão especial no imaginário chinês (e no meu também!) Se quiser acompanhar os outros episódios da viagem, confira a playlist completa aqu i.
- O BRICS não gira em torno do umbigo liberal. Será que você tá pronto pra ouvir isso?
A recente cúpula do BRICS no Rio de Janeiro reforçou um ponto frequentemente ignorado nas análises geopolíticas tradicionais: a disputa entre duas visões distintas do mundo, uma centrada na cooperação coletiva e outra no individualismo . Essa diferença, ainda que muitas vezes sutil, aparece claramente nas posturas adotadas pela China e pelo Brasil , especialmente durante o governo do presidente Lula . No início deste mês, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, reforçou o compromisso chinês com o fortalecimento da cooperação multilateral entre os países do Sul Global . Ao enfatizar a importância da plataforma BRICS para a promoção do desenvolvimento comum e da governança global equitativa, ela destacou um princípio fundamental da cultura chinesa: o entendimento de que a força de um grupo vem da solidariedade interna e da colaboração mútua. Quem tem contato com chineses e com a cultura chinesa há muito tempo sabe que esse pensamento é algo presente na vida cotidiana, o que reflete naturalmente nas decisões políticas e diplomáticas. A própria expressão 相互帮助 (Xiānghù bāngzhù), que significa literalmente ajuda mútua, é um dos exemplos mais cotidianos e expressivos. Ao contrário do que algumas análises feitas por ocidentais (e por países simpatizantes) podem sugerir, a defesa chinesa de um desenvolvimento coletivo não é simplesmente uma estratégia para obter vantagens unilaterais. É expressão genuína de um elemento sociorelacional mais profundo, que compreende que avanços reais e duradouros só podem ocorrer de forma conjunta e compartilhada. Essa abordagem, no entanto, embora facilmente compreendida como um elemento moral, não carrega necessariamente tais intenções. Chamo atenção aqui para um elemento que está presente na visão de mundo em diversos contextos não ocidentais, mesmo que a expressão da ideia coletiva ocorra respeitando especificidades locais. Ou seja, ela reflete práticas sociais internalizadas e comuns na vida cotidiana chinesa. O presidente Lula tem adotado uma postura semelhante em seu governo, tanto internamente, em políticas públicas que valorizam a inclusão e o desenvolvimento social coletivo, quanto na esfera internacional, promovendo um multilateralismo mais robusto. Sua posição frente ao BRICS reforça essa visão, o que se alinha à China na defesa da solidariedade internacional e na construção de uma ordem mundial baseada na justiça social e no desenvolvimento equitativo. Exemplo disso é a firme posição chinesa de apoio a Cuba frente às sanções unilaterais impostas pelos Estados Unidos. Ao defender que cada país deve seguir um caminho adequado às suas próprias condições e realidades, a China evidencia seu respeito às particularidades nacionais e à soberania dos povos , uma atitude que encontra ressonância direta nas falas e ações do governo brasileiro nos últimos anos. Essa perspectiva também revela a reação de alguns setores influenciados pelo pensamento ocidental , que frequentemente interpretam tais posturas cooperativas como “ameaças” ou estratégias ocultas de dominação. Curiosamente, se assemelha à dinâmica interna do Brasil, no que diz respeito às falas dos grupos mais críticos ao Lula . O que está em jogo aqui não são apenas ideologias políticas, mas visões radicalmente diferentes de mundo que transcendem a ideologia política engessada em direita e esquerda, embora sejam a sustentação de escolhas políticas significativas, expressas nessas ideologias. Enquanto o individualismo liberal ocidental desconfia do altruísmo genuíno nas relações internacionais porque opera em um sentido de que o outro, por natureza, seria seu opositor, a mentalidade coletiva chinesa – e agora também a brasileira sob Lula – enxerga a colaboração não como fraqueza, mas como a única base sólida para um progresso real e duradouro . Vale acentuar que, justamente por não ser uma escolha moral (mesmo quando justificada dessa forma por alguns atores políticos), não existe garantia de que tal visão de mundo esteja já consolidada, sustentada em uma cultura engessada e imutável. Ela precisa ser constantemente reafirmada para que o movimento político ganhe esse aspecto. Tal como há anos, ou melhor, séculos, é feito com a visão de mundo liberal que coloca o " todos contra todos " como uma condição natural da existência humana . Considerando a dinâmica onde a premissa das relações dominantes já se estabeleceu como norma natural, o coletivismo ressurge como uma visão própria de mundo, mas se sustenta na dinâmica relacional quando acionada de forma deliberada. Deixo você com esse vídeo onde uma chinesa jovem foi perguntada sobre as diferenças entre os sonhos dos chineses e dos estadunidenses. Ele expressa bem o que foi argumentado aqui. Nesse cenário, a cúpula do BRICS realizada no Brasil em julho não foi apenas um evento diplomático, mas uma ilustração viva da coexistência de múltiplas visões sobre o papel dos países no mundo. Mais do que economia ou disputas políticas, foi o palco onde duas abordagens culturais profundas emergiram com clareza. Até que ponto estamos preparados para reconhecer e valorizar perspectivas que transcendem nossa própria socialização? Abraços.
- 120 anos sem Hollywood: O que o cinema chinês tem que você nunca viu?
O ano de 2025 é simbólico, pois a China celebra 120 anos de cinema . O mês de julho virou pauta na imprensa asiática depois que o presidente Xi Jinping, em carta aberta a cineastas, reforçou a importância de criar obras que expressem o “espírito da época”, uma espécie de convite para que o cinema chinês siga impulsionando às transformações culturais e políticas do país. Espectadores de cinema assistem ao sucesso de bilheteria de animação chinês "Ne Zha 2" em Shangai, China, em 29 de janeiro de 2025. /VCG (CGTN) Falar das gerações do cinema chinês é, mais do que uma linha do tempo, um mergulho na relação entre política, arte e coletividade. Os primeiros filmes, lá de 1905, ainda tímidos e fortemente influenciados por estilos ocidentais (embora também relacionado fortemente ao tradicional teatro das sombras), traziam um olhar que misturava modernidade importada e cotidiano local. Até o início dos anos 1930, muito desse cinema ainda estava relativamente fora de uma lógica política engajada, mas, curiosamente, os dilemas em torno do coletivo já apareciam nas telas, às vezes de modo indireto, outras vezes como pano de fundo para discussões sobre papeis de gênero , tradição e mudança. Com a chegada dos anos 1930, o cinema chinês passa a ser atravessado pelas divisões políticas internas. É nesse período que se convencionou falar em “cinema de direita” e “cinema de esquerda”. Não se trata, aqui, de importar as categorias como as usamos hoje, mas de entender que essas divisões traduziam os embates e projetos de país daquele momento histórico. O interessante é notar que, mesmo em lados opostos, o tema da coletividade nunca deixava de ser central. Não havia aquela obsessão pelo indivíduo heroico típico de Hollywood ; o foco estava sempre no grupo, na família, na ideia de nação em disputa. Essa dinâmica de absorver influências externas também tinha bastidores. Já no início do século XX, o cinema ocidental era visto como ferramenta estratégica para os interesses das potências que atuavam na China, entre elas, EUA e Japão. Antes mesmos da revolução socialista de 1949, segundo pesquisas, de figuras institucionais dos EUA realizando pesquisas para entender a aceitação do cinema ocidental e encontrar maneiras de consolidar o “american way of life” nas telas chinesas. O cinema era parte da engrenagem geopolítica e, ao mesmo tempo, um espaço de resistência e reinvenção. Após 1949, com a fundação da República Popular da China , o cinema passou por novas inflexões, ora como instrumento oficial de construção do coletivo socialista , ora como campo de disputa simbólica. Da chamada “quinta geração” nos anos 1980, com filmes como Yellow Earth , que revolucionaram a linguagem ao unir paisagem, silêncio e crítica social, até a explosão recente de animações e superproduções épicas como, a coletividade que está imersa em elementos profundos da sociedade chinesa, segue atravessando narrativas, estéticas e projetos com estética contemporânea. Falar das gerações do cinema chinês , é reconhecer que a coletividade nunca deixou de ser questão central, mudando de cor, de tom, de linguagem, mas sempre presente, seja nos grandes épicos, nos dramas urbanos ou nas animações de bilheteria recorde. Depois da chamada “ quinta geração ”, vieram novos movimentos: cineastas da sexta geração , como Jia Zhangke , exploraram o cotidiano urbano, o deslocamento social e as transformações do país, muitas vezes com narrativas mais intimistas, porém sem perder o pano de fundo coletivo. O indivíduo aparece, mas sempre em diálogo com os efeitos das mudanças sociais mais amplas. Nos anos 2000 e 2010, o cinema chinês também se abriu a gêneros populares, superproduções históricas, blockbusters e animações como Ne Zha (2019) e Ne Zha 2 (2025), que trouxeram temas tradicionais para o centro do consumo de massa e reafirmaram o potencial da cultura local de dialogar com o mundo. O sucesso recente de filmes épicos, de guerra ou animações digitais não é apenas resultado de uma indústria poderosa, mas também de uma busca constante de conexão com a identidade coletiva, seja celebrando figuras históricas, recontando mitos ancestrais ou abordando desafios contemporâneos . O convite de Xi Jinping neste aniversário de 120 anos é, no fundo, uma atualização desse mesmo debate. Como transformar o cinema em expressão viva do que pulsa no coletivo chinês? E como as diferentes gerações de cineastas vêm lidando com essa tarefa, seja revisitando o passado, como exploro na minha pesquisa sobre o cinema até 1949 , ou projetando novas possibilidades para o futuro? Qual geração do cinema chinês mais te provoca ou emociona? E o que isso diz sobre o que buscamos, como sociedade, em tela?
- Identidade étnica vai além do que você imagina, principalmente na China.
Em meados de julho de 2025, no condado de Yanbian, província de Sichuan, a comunidade Yi se reuniu para celebrar o tradicional Festival das Tochas, uma festividade que alguns chamam de “Carnaval do fogo” chinês, considerado hoje um patrimônio cultural imaterial. O Festival originou-se da adoração do fogo pelos ancestrais e tem sido seguido por mais de 1.000 anos. Foto da performance de Dorohe por Wang Yulin. Embora festas coletivas façam parte de muitas culturas, o que chama atenção aqui é o modo como essas manifestações são parte viva da identidade desses grupos, um contraponto ao olhar muitas vezes associado a uma China homogênea e hi-tech . Durante o festival, com suas fogueiras comunitárias, danças étnicas, cantos tradicionais, competições populares, percebemos um princípio forte de coletividade ritualística. No entanto, isso não se trata apenas de entretenimento ou uma performance estética, mas uma reafirmação anual de pertencimento étnico, de conexão com membros do grupo e com a terra ancestral. É através dessas cenas, da chama partilhada e de todo ritual coletivo que a comunidade Yi reafirma seu lugar dentro e além da narrativa mais ampla da China contemporânea. Para quem acompanha debates sobre relações étnicas na China, esse evento mostra que minorias não são meramente “peças alegóricas” dentro da identidade nacional, e tampouco existem descoladas da ideia de país. Assim como qualquer agrupamento social (considerado étnico ou não), através de rituais afirma sua própria história e provoca reflexões. No caso de um povo minoritário que sempre está em contraponto a identidades mais normatizadas, o povo Yi (tal como os povos indígenas brasileiros) afirma valores sobre diversidade, identidade e coletividade, primeiro como diferencial dentro de um Estado unitário, segundo como identidade partilhada com a identidade nacional. A partir da minha pesquisa sobre coletividade no cinema chinês até 1949, posso traçar uma conexão interessante. Tanto no filme comum da época quanto nos eventos étnicos, o coletivo sempre se expressa como experiência de sentido e marcador identitário, para além da própria etnicidade enquanto diferença. Isso acontece porque o coletivo é sempre acionado como valor compartilhado que mantém a coesão social na China. No cinema, isso ocorria tanto em filmes considerados conservadores quanto naqueles chamados de "cinema de esquerda". A disputa era pelo sentido de coletivo e não entre indivíduo e sociedade. Nesse sentido, o festival pode ser usado como provocação ao olhar ocidental, tão acostumado a ver a relação entre indivíduo e sociedade como algo "naturalmente" hostil. Nos filmes da primeira metade do século XX, a estranheza pode vir de não encontrar um “herói solitário” no centro da cena, mas narrativas coletivas que ganham sentido e, ao mesmo tempo, reforçam a identificação dentro da teia social. No caso do ritual do povo Yi, a provocação surge da não oposição entre etnicidade e nação, ou seja, na consolidação de uma identidade local que compartilha uma identidade coletiva mais ampla, reconhecida hoje como identidade nacional. É muito importante que enxerguemos tais festejos de forma mais ampla e menos alegórica. Esse olhar, embora muitas vezes parta de um genuíno desejo de valorização, acaba, sem perceber, por engessar esses grupos em um lugar exótico e distante da contemporaneidade, o que não é verdade. Sobretudo na China, onde as pessoas têm consciência de sua origem étnica, mantêm suas práticas e idiomas regionais, ao mesmo tempo em que articulam sua participação nas decisões políticas do país. Mesmo que, na China, isso seja óbvio devido à própria formação da identidade nacional com base em um conceito inclusivo de nação (pesquise por Mingzu Zhuyi, 民族主义), em contextos ocidentais palavras como “nação”, “etnicidade” e “identidade nacional” podem possuir sentidos muito particulares, que não devem ser usados para explicar dinâmicas não ocidentais. Vou deixar aqui a matéria completa sobre o festival, que me inspirou a fazer esta breve reflexão.











