sábado, 23 de agosto de 2025

Além do combate: a experiência de Wudangshan e as artes marciais na China

Quando estive em Wudangshan (Montanha Wudang), uma das coisas que mais me marcou foi ver como o lugar está vivo. Ao caminhar pelas estradas de pedra entre os templos e palácios, não encontrei apenas turistas: vi praticantes de artes marciais treinando, rezando, repetindo gestos de uma tradição antiga.

Nino Rhamos (especialista em China) no Nanyan Palace — Wudangsha, China.
Nanyan Palace — Wudangshan, China. Acervo pessoal

No Palácio Zixiao Gong (紫霄宮 — Zǐxiāo Gōng), em especial, a experiência foi mais forte. Sua beleza arquitetônica somada à presença dos praticantes fez com que a visita se tornasse algo mais do que contemplação. É um espaço ativo, religioso e marcial, em que o visitante só tem acesso a alguns pontos e em determinados horários.

Se você não sabe qual é a importância das montanhas Wudang para o taoísmo, confira aqui o post que fiz com a história completa.

Wudangshan é reconhecida como um dos berços do Wudang Wushu (武当武术), com destaque para o Taijiquan (Tai Chi Chuan). Próximo ao hotel em que fiquei, havia templos onde a figura lendária de Zhang Sanfeng (张三丰) estava presente em murais, estátuas e referências que ligam a montanha diretamente ao nascimento do Taijiquan.

O que vi ali confirma que o legado não é apenas turístico, mas exemplo da característica que muito especialista em China confirma sobre a relação da população com seu legado histórico. É uma tradição que combina prática religiosa taoísta e artes marciais internas. Para mim, a experiência foi incrível, principalmente pela importância que as artes internas taoístas tiveram na minha vida (eu conto sobre essa influência aqui).

As artes de Wudang se distinguem pelo foco na suavidade que esconde a potência, refletindo conceitos como Yin-Yang, os Cinco Elementos e os Oito Diagramas. Diferente da ideia comum de artes marciais como força bruta, aqui o gesto marcial é entendido como caminho de equilíbrio, longevidade e integração com a natureza.

Do ponto de vista antropológico, essa perspectiva amplia o sentido de “arte marcial”. Em Wudang, o treino não é só preparação para enfrentar um adversário, mas um ritual de corpo e espírito, uma pedagogia simbólica que transforma a relação do praticante consigo mesmo e com a comunidade.

Essa visão ressoa em outras tradições, como o Xondaro Guarani, prática indígena que também não se reduz à luta física, mas envolve identidade, espiritualidade e política em movimento. Tanto em Wudang quanto entre os Guarani, a performance marcial pode ser uma estratégia de resistência, de afirmação e até de “vencer sem tocar”, usando a força da imagem, do gesto e da coletividade.

Estar em Wudangshan foi muito interessante, sobretudo porque eu já havia escrito o livro. Lá pude perceber como as artes marciais internas realmente possuem mais aspectos da performance marcial do que outras voltadas para o combate direto (mesmo que ainda guardem sentidos para além do contato físico).

Para quem chega apenas com o imaginário de filmes ou fotos, há a confirmação de que se encontra um espaço ativo, onde religião, filosofia e marcialidade se entrelaçam. No entanto, há também o peso da vida concreta e a surpresa de perceber que o imaginário cinematográfico não pode ser base de sustentação de uma prática que, muitas vezes, é solitária, leva tempo e diz muito mais sobre nós e nossos desafios pessoais do que sobre exibições vazias.

A montanha, assim, continua a ser um centro de espiritualidade e prática marcial. É um estímulo visual para os que chegam com personagens na mente, mas muito além de um cenário turístico: há também os espaços restritos, os “personagens” reais, a vida religiosa que permanece ativa desde a Dinastia Tang (618-907 d.C.), seguindo o legado de Zhenwu (真武).

Aprofundo essa visão sobre arte marcial e performance marcial, entendendo as artes marciais como algo que vai além do combate, no meu livro Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política, onde exploro os paralelos entre práticas indígenas e outras tradições agonísticas.

Este texto faz parte da categoria Diário de campo.

Nino Rhamos

Nino Rhamos é escritor e pesquisador independente. Tem mais de 30 anos de interesse pela China e formação acadêmica em antropologia. Atua desde 2010 com edição de vídeo e, mais recentemente, com tradução textual intercultural e consultoria em temas relacionados à China. No dia a dia, também segue ajudando amigos chineses que querem melhorar o português.

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