Quando caminhei pelas ruas de Xangai, foi impossível não lembrar que ali, muito antes de se tornar a metrópole global que conhecemos hoje, floresceu um dos capítulos mais importantes do cinema mundial. Nos anos 1930, Xangai era chamado de “Hollywood do Oriente”. Mas, diferente da leveza associada ao glamour ocidental, seu cinema estava mergulhado em contradições: censura rígida do governo nacionalista, invasões estrangeiras e a luta por uma identidade nacional em crise.
É nesse contexto que surge o chamado Movimento de Cinema de Esquerda (1932-1937), marcado por cineastas que, apesar da repressão, encontraram formas engenhosas de falar de desigualdade, nacionalismo e resistência.
Driblando a censura com alegorias
O governo do Kuomintang (KMT) controlava rigidamente os conteúdos exibidos. Mensagens diretas contra o colonialismo ou críticas sociais explícitas eram proibidas. A saída encontrada pelos cineastas foi a codificação por metáforas e alegorias:
- A ameaça japonesa surgia disfarçada em histórias de bandidos ou senhores da guerra.
- A desigualdade social aparecia em tramas sobre desastres naturais, como enchentes ou epidemias.
- A crise da nação era representada como famílias em ruínas, em que as divisões internas simbolizavam a própria fragilidade da China.
Dessa forma, ao mesmo tempo em que escapavam da censura, conseguiam transmitir ao público uma leitura crítica e politizada da realidade.
Melodrama como arma política
O gênero dominante do período foi o melodrama. Ele tinha a força de emocionar, de prolongar o sofrimento das personagens e de expor, de maneira quase pedagógica, quem eram os “bons” e quem eram os “maus”.
- Filmes como Plunder of Peach and Plum (1934) retratavam a tragédia de jovens intelectuais diante da corrupção social.
- Em Spring Silkworms (1933), a falência rural simbolizava a crise nacional.
- Wild Rose (1932) trazia um patriotismo camuflado que todos entendiam ser dirigido contra o invasor japonês.
O melodrama simplificava as mensagens, mas justamente por isso conseguia alcançar o público popular, funcionando como um código coletivo de resistência.
O espaço urbano como metáfora
A própria cidade de Xangai tornou-se personagem central. Com seus arranha-céus, cinemas modernos e bairros estrangeiros, contrastava com os becos pobres, cortiços e fábricas. Essa geografia expressava visualmente as contradições da sociedade chinesa: modernidade de fachada e desigualdade estrutural.
Mais que entretenimento
Esse movimento não foi apenas cinema: foi uma forma de educar politicamente o público, de manter viva a consciência nacional em meio à crise. A força do melodrama, da família como metáfora e da cidade como palco de contrastes sociais mostram como o cinema pode ser muito mais do que entretenimento — pode ser memória, denúncia e resistência.
E essa é uma lição que continua atual. Afinal, em qualquer época, contar histórias é também disputar a forma como enxergamos o mundo.
Este texto faz parte da categoria Cinema chinês.
Nenhum comentário:
Postar um comentário