Quando estive em Hangzhou, minha amiga local me mostrou alguns cantos da cidade. Caminhei pelo famoso Lago Oeste, vi os patos nadando e provei pratos típicos que me marcaram muito, principalmente porque foram apresentados por ela.
Hangzhou sempre me passou a sensação de ser um lugar onde o cotidiano guarda histórias profundas, semelhante a outras cidades que visitei, como Suzhou e Changzhou. Mas em Hangzhou, especificamente, senti como se a paisagem fosse uma porta para tempos distantes ao mesmo tempo que a cidade mantinha uma alma artística contemporânea.
Pouca gente sabe, mas Hangzhou já foi refúgio de uma comunidade judaica vinda de Kaifeng.
A história começa no século XII, quando a capital Song do Norte (960 d.C. a 1127 d.C.) foi saqueada em 1127, pondo fim à sua era de esplendor. Kaifeng, que já havia sido considerada a maior cidade do mundo, transformou-se em ruínas, provocando um êxodo em massa.
Depois dessa acontecimento, milhares de refugiados seguiram para o sul e Hangzhou tornou-se a nova capital da dinastia Song do Sul. Entre eles estavam os judeus de Kaifeng, descendentes de grupos vindos da Pérsia e da Ásia Central pela Rota da Seda, que falavam uma língua misturada de hebraico, farsi e chinês. Com eles vieram seus pergaminhos da Torá e suas tradições.
Ao chegarem em Hangzhou, esses judeus se reuniam para relembrar sua antiga cidade, que chamavam de “Jerusalém chinesa”.
Alguns relatos dizem que, diante da perda, “sentaram-se às margens do rio Qiantang e choraram”. No entanto, não estavam sozinhos, pois os muçulmanos de Kaifeng, famílias nobres como os Zhao e os Zheng, e intelectuais como Meng Yuanlao, também se estabeleceram na cidade com suas memórias.
Esse episódio mostra como a queda de uma cidade conseguiu redesenhar a geografia cultural de um período da China imperial. Hangzhou, que no início era considerada um “canto perdido”, depois desse episódio, cresceu rapidamente e tornou-se um centro urbano com mais de 1 milhão de habitantes.
No meio desse processo, acabou abrigando comunidades diversas que reformularam suas identidades em meio ao exílio.
Caminhando hoje pelo Lago Oeste, é difícil imaginar que, séculos atrás, memórias de deslocamentos foram construídas ali, entre perdas e esperanças. Talvez seja isso que faz de Hangzhou um lugar tão singular. Além de sua beleza natural e da poesia que inspirou ao longo da história — que compõe o clima artístico que percebi durante as longas caminhadas que fiz pelas ruas e vielas antigas —, a cidade também guarda certo silêncio das vozes de quem precisou recomeçar.
Talvez Hangzhou seja mesmo uma cidade propícia a bons recomeços. Pretendo voltar em breve.
Este texto faz parte da categoria China contemporânea.
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