Mostrando postagens com marcador Antropologia & performance. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Antropologia & performance. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Antropologia das artes marciais: o que há de comum entre o cinema de luta chinês e as artes marciais indígenas?

O corpo em combate sempre falou mais do que parece. Seja nos antigos templos chineses como Shaolin e Wudangshan, ou na terra batida de uma aldeia Guarani, o lutador não apenas se prepara para a luta, ele se apresenta ao mundo nos seus termos. 

No xondaro Guarani, arte marcial e espiritualidade caminham juntas. No wushu chinês, a coreografia da luta se transformou em imagem. Imagem que virou uma indústria cultural poderosa. Mas o que há de comum entre essas formas tão diferentes de combate? E o que elas nos dizem sobre como culturas diferentes constroem e derrubam relações de poder através da performance?

domingo, 10 de agosto de 2025

Do Wu-Shu ao Xondaro Guarani: um diálogo entre artes marciais

A compreensão das artes marciais vai além da técnica de combate. Essa é a premissa central de uma trajetória de pesquisa que uniu a experiência corporal pessoal e a antropologia com foco em estudos étnicos. Com a publicação de "Xondaro Guarani: Arte marcial, performance e política", busquei desvendar o xondaro não apenas como uma prática corporal, mas como uma expressão profunda dos sentidos por trás de uma prática corporal agonística.

Nino Rhamos: Do Wu-Shu ao Xondaro Guarani. Um diálogo entre artes marciais
Mestre Fu Song com Bagua Dao e praticantes de Xondaro do Jaraguá, São Paulo - Brasil

Porém, não há como negar a profunda influência que tive por anos de experiência de convivência com professores e mestres de artes marciais chinesas, em ambientes informais. 

quinta-feira, 24 de julho de 2025

O que é etnografia multissituada?

Hoje vou postar algo mais técnico, que talvez apenas aqueles imersos no ambiente antropológico vão se interessar. Mas, como este lugar é também para falar sobre pesquisa, abordar métodos faz parte do escopo. 

Nino Rhamos: o que é etnografia multissituada?

Para quem não está familiarizado com os debates mais antropológicos, talvez seja interessante perceber o universo por trás das falas de um cientista social que o diferencia do simples achismo sobre comportamento humano.

Falar sobre etnografia multissituada envolve meu trabalho de pesquisa, e resolvi escrever este post porque, embora não seja algo novo, muitos colegas estudantes de graduação ainda têm dúvidas sobre os elementos mais básicos desse método e como ele se diferencia dos métodos tradicionais de pesquisa antropológica.

domingo, 29 de junho de 2025

Converse com o livro “Xondaro Guarani: Arte Marcial, Performance e Política”

Se você ainda não assistiu? 

Está disponível no canal o episódio de apresentação do livro Xondaro Guarani: Arte marcial, Performance e Política, fruto da minha pesquisa sobre performance marcial e cultura indígena.

O livro explora a performance marcial como expressão cultural e política, analisando as dinâmicas entre praticante e adversário e a agência do corpo em movimento.

A obra é recomendada para quem se interessa por antropologia, cultura indígena, artes marciais e estudos sobre performance.

Escute o mini podcast:

A pesquisa de campo foi realizada nas aldeias Pyau (SP) e Sapukai (RJ), revelando como a tradição marcial, a vida coletiva e a resistência política se expressam nos gestos, festividades e rituais do povo Guarani.

NOVIDADE!!

Converse com o livro!

Agora você pode interagir com o livro de um jeito inédito!

Com o Notebook LM, basta escrever uma pergunta ou tema na caixa abaixo para receber respostas baseadas no conteúdo completo do livro Xondaro Guarani: Arte marcial, Performance e Política.

Pergunte sobre conceitos, capítulos, práticas culturais ou curiosidades. A ferramenta encontra e responde usando todo o texto da obra.

É um jeito novo de explorar o conteúdo, estudar e tirar dúvidas diretamente com o livro!

Acesse aquihttps://l1nk.dev/lVypQ

Confira o episódio pelo YouTube: https://acesse.one/jHeHE

Para saber mais sobre meus projetos e publicações, acesse:
https://www.ninorhamos.com/publications-and-research

Este texto faz parte da categoria Antropologia & performance.

terça-feira, 27 de maio de 2025

Conheça a Etnia Chinesa Dong [Vídeo]

Você sabia que, na China, existem 56 grupos étnicos e todos eles preservam suas práticas culturais?

Sabia que, mesmo a etnia Han sendo maioria, a China se diferencia por todos se reconhecerem como portadores de uma ancestralidade étnica?

A Photo of Dong ethnic group children after school, taken by Zhu Kangle in 1956. 
[Photo/ China Photographers Association]

Para ilustrar isso, hoje compartilho com vocês um vídeo maravilhoso, de uma menina da etnia Dong apresentando a festa de Ano Novo, suas comidas típicas e danças.

As legendas em português foram feitas por mim, com a ajuda de uma amiga querida, estudante de português e também pertencente à etnia Dong.

Este vídeo serve para refletir que, embora a imagem da China seja frequentemente associada à tecnologia, ao desenvolvimento e a soluções inovadoras, os grupos étnicos existem com muita força e são representados como famílias dentro de uma família maior.

Essa concepção é muito interessante porque ilustra o que mais tenho abordado na minha tese: a relação entre indivíduo e coletividade, entre a diferença e o normativo, destacando como essas concepções não são, no contexto chinês, excludentes.

É muito comum se falar da sociedade chinesa em termos culturais, como “cultura chinesa”, como se todos fossem um só. No entanto, esse conceito é um tanto superficial. 

Embora possa fazer sentido em um primeiro momento (como acontece quando diferenciamos um país de outro), em termos antropológicos ele é problemático, pois cria uma noção homogênea, como se uma população de mais de um bilhão de pessoas reproduzisse o mesmo comportamento sociocultural.


hashtag
Na verdade, o que existe é uma relação específica entre o que é diferente e o ponto de encontro das semelhanças.

A ideia de família pode ser um bom exemplo: ela expressa tanto a família sanguínea quanto a ideia de grupo étnico ou mesmo de país, ou seja, um lugar onde as diferenças coexistem sobre o mesmo eixo identitário, sem que suas identidades locais percam força.

No filme, repare como ele se inicia com uma “negociação” entre passado (na figura da avó) e presente (a menina), em busca de um pretendente, ao mesmo tempo, em que o termo “família” aparece não apenas como um núcleo, mas como representante de todos que estão ali e pertencem ao mesmo grupo étnico.

Os chineses falam de cultura chinesa, mas todos sabem que essa “cultura” é múltipla em termos linguísticos, fenotípicos e de práticas cotidianas. Resta a nós compreendermos que a homogeneidade imaginada, na verdade, é uma escala de diversidade que compartilha o mesmo sentido de país.

Esse filme representa muito bem isso.

Este texto faz parte da categoria Antropologia & performance.

quarta-feira, 27 de setembro de 2023

XONDARO GUARANI:UMA PERFORMANCE MARCIAL INDÍGENA

(Article)

Intratextos
v. 12 n. 1 (2021): Dossiê do XVII Seminário Discente do PPCIS (2° volume) 

Wallace Ramos de Figueiredo (Nino Rhamos)

Submitted: 2021
Published: 2023

Download: PDF

RESUMO

Este artigo aborda as características que definem as artes marciais como práticas corporais que transformam a subjetividade do praticante e interferem em sua concepção do self e em sua atuação no círculo social. O estudo utiliza como exemplo o xondaro, uma prática performática dos Guarani que combina dança e luta. A partir da análise de discurso do documentário Xondaro Mbaraete, da teoria de Goffman sobrea interação e o paradigma da corporeidade de Csordas, foi abordada a ideia de  performance marcial, fundamentada nos elementos que fazem do xondaro um exercício de transformação da subjetividade do praticante e ressignificação do Outro. O artigo também se baseia em pesquisas anteriores sobre a prática xondaro e em experiências de campo na aldeia Guarani Tekoa Pyau em São Paulo.

Palavras-chave: artes marciais; transformação da subjetividade; práticas corporais

ABSTRACT

This paper explores the defining characteristics of martial arts as bodily practices that transform the subjectivity of fighters and affect their perception of self and performance in social contexts, within the field of anthropology.  Specifically, the study examines 'xondaro,' a performative practice of the Guarani that involves a combination of dance and combat.  By analyzing the discourse in the documentary 'Xondaro Mbaraete,' utilizing Goffman’s theory of interaction and Csordas’ paradigm of embodiment, the paper explores how xondaro isused to transform the fighter’s subjectivity and re-signify the Other. The paper also draws upon previous research on the xondaro practice, as well as the field experiences in the Guarani Tekoa Pyau village located in São Paulo.

Keywords: martial arts; transformation of subjectivity; body practices.

INTRODUÇÃO

Artes marciais, no seu sentido mais “original”, são práticas corporais que possuem determinadas características específicas, atreladas principalmente às diversas formas de transformação da subjetividade do praticante que vão interferir na concepção do self e em maneiras de atuação no círculo social; ou como na definição de Cynarski (2015, p. 34), ela é uma categoria histórica de métodos perfeitos de lutas de combate, com ou sem armas, que possui uma esfera transcendente, seja de um elemento espiritual ou relacionado a um desenvolvimento pessoal, diferentemente das artes de luta – fighting arts.

Segundo sua definição, são quatro os pontos fundamentais que servem para entendermos os limites que diferenciam uma arte marcial de outras práticas de combate: uma filosofia original, ou algo parecido como um código de ética; uma relação com a conduta do praticante; uma relação próxima com os sistemas religiosos; uma ênfase na cultura física atrelada ao desenvolvimento da personalidade e por fim, uma prática que se refere à existência de um local específico para a atividade, momentos específicos, assim como cerimônias ligadas a uma espécie de rito de passagem, tanto para o crescimento pessoal quanto para uma mudança de posicionamento na hierarquia social (CYNARSKI, 2012; CYNARSKI, WOJCIECH; YU, JONG-HOON; WARCHO, 2015).

Assim, nesse artigo busco observar alguns elementos do xondaro que o caracteriza com o que eu chamo de performance marcial e com sua especificidade em lidar com o aspecto agonístico da prática. Portanto, na primeira parte apresentarei uma descrição sobre o que é o xondaro; em seguida abordo a ideia de performance marcial fundamentada na teoria de Goffman sobre a interação. Por fim apresento os elementos que fazem do xondaro 3 um exercício de transformação da subjetividade do praticante e ressignificação do Outro, utilizando o paradigma da corporeidade de Csordas.

Como método utilizarei a análise de discurso do filme documentário Xondaro Mbaraete – A Força do Xondaro, produzido através do projeto Pesquisadores Guarani no Processo de Transmissão de Saberes e Preservação do Patrimônio Cultural Guarani, realizado entre os anos de 2009 e 2011 por meio da parceria entre o Centro de Trabalho Indígena (CTI), a Comissão Guarani Yvyrupa (CGY), a Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvi-mento (AEDID) e o Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) (PESQUISADORES GUARANI, 2013, p. 6); relacionando minha argumentação com pesquisas anteriores sobre a prática. Vale complementar que utilizo também minhas experiências de campo entre 2018 e o primeiro semestre de 2019 na aldeia Guarani4 Tekoa Pyau em São Paulo.

O CORPO XONDARO

O corpo no “senso comum” é tratado como uma forma dada onde o self habita. Porem, apesar das infinitas possibilidades de formas de expressão dentro do universo humano, existem outras concepções. Mauss (MAUSS, 2006) diz que antes de qualquer outro, ele – o corpo – “é o primeiro e o mais natural objeto técnico, e, ao mesmo tempo, meio técnico do homem”, fazendo referência à técnica como um ato tradicional eficaz que não se diferencia de um ato mágico, religioso e simbólico. Ao narrar a cerimônia da caça ao opossum5 (MAUSS, 2003, p. 406) ele deixa clara a relação entre os procedimentos mágicos e as técnicas de caça, ou seja, “a crença na eficácia não apenas física, mas oral, ritual de certos atos. (. . . ) O momento psicológico capaz de associar-se a um ato que é antes de tudo uma proeza de resistência biológica.”(MAUSS, 2006, p.407). Rodriques (1979, p. 62) explica bem o poder do meio em que vivemos de imprimir, ou melhor, de marcar nesse corpo, toda uma estrutura de simbolismos e valores; fazendo deste, não um “objeto” existente em si, que surge como algo sui generis para interagir no meio, mas como um “objeto” fruto deste meio. Nesse sentido pensar o corpo também é pensar todo o impacto que diversas transformações sociais exercem neste corpo. É compreender que o corpo também pode ser entendido a partir das relações sociais construídas. Por outro lado, seria superficial pensar no corpo como uma “massa de modelagem inanimada”. Para Gertz (2015, p. 35), as alterações que a estrutura biológica do corpo humano sofreu até os dias atuais não ocorreram por simples acaso histórico, tendo as práticas culturais influenciado neste desenvolvimento.

Quando Ortner (2006, p. 54) coloca a intencionalidade ativa como tendo um papel forte na caracterização da agência, mesmo que não necessariamente esta possa acontecer de forma consciente; outro ponto se apresenta para a reflexão sobre o corpo, pois muitos agenciamentos possuem o corpo como meio de atuação; e nesse sentido, o corpo não mais passa a ser entendido como uma espécie de refém do meio social, mas também como um ator transformador.

Tanto na comunicação verbal quanto na não verbal, a expressão corporal possui um papel fundamental, pois um universo de significados abrange tanto um quanto outro, comunicando de diferentes maneiras, subjetividades particulares ou coletivas. Essas formas de comunicação que me refiro, seguem o mesmo sentido em que Artaud(2004, p. 40) define como uma “forma singular de experiência intelectual”, onde seria necessário abdicar tanto do texto quanto da palavra como ponto central da comunicação, dando espaço para que outros elementos ganhem posição neste processo6. Considerando todos os elementos dessa “metafísica em atividade” (Ibid.), uma compreensão sobre as atividades relacionadas ao corpo, assim como todos os processos derivados dele – gestos, expressões, sons, dentre outros – começa a ganhar outra perspectiva, muito mais aprofundada e significativa. Pensar essa relação corporal na prática do xondaro nos obriga a entendê-lo minimamente, antes de qualquer análise.

Xondaro basicamente representa uma prática para guerrear, porém, os próprios Guarani não possuem uma definição literal, pois a compreensão real viria da experiência, da proximidade com os praticantes, do convívio cotidiano, assim como mostra os pesquisadores Guarani7(2013, p. 28). Ao falar sobre os cursos de formação que foram realizados em aldeias de São Paulo, Bregalta(2017, p. 57) fala da importância para o praticante de xondaro da relação com avôs, avós e conhecedores, no que diz respeito à escuta aos mais velhos para o fortalecimento da cultura.

Praticado em forma de dança por crianças, mulheres e homens8 – sendo muito comum inclusive a utilização do termo dança xondaro – o xondaro se faz com a participação de músicos que tocam instrumentos como o violão (mbaraka), rabeca (rave’i), chocalho (mbarakamir˜ı) e tambor (ang’apu) (PESQUISADORES GUARANI, 2013, p. 30). Mas apesar da relação que existe com os instrumentos musicais, é importante destacar que ambos, tanto a dança quanto os músicos, exercem uma influência constante no dinamismo da prática (BREGALDA, 2017, p. 107), o que nos impede de confundir a palavra dança do termo dança xondaro, com o mesmo sentido da palavra dança em outros contextos não Guarani9. Os instrumentos possuem uma preparação específica para produzir um tipo de som característico (BREGALDA, 2017, p.80). Os tocadores são específicos para cada instrumento, e quando começam a tocar logo os xondaro10 vão se organizando em forma de roda lentamente, e dando gritos de guerra à medida que aumentam a força dos passos (Ibid).

O mestre xondaro (ruvixa11) pode ter um instrumento12 que faz uma espécie de condução, ao mesmo tempo em que cria obstáculos por onde os praticantes precisam passar (PESQUISA- DORES GUARANI, 2013, p. 30). A dança pode ser dividida, para melhor entendimento, entre dois momentos, o primeiro seria o momento em que os praticantes seguem o ruvixa e precisam, em certa medida, imitá-lo (L. KESSE, 2017, p. 83); em seguida há o momento em que o ruvixa interrompe sua dança em círculos e se posiciona de maneira a criar obstáculos para eles, por meio de rasteiras ou ataques (L. KESSE, 2017, p. 84). Existem algumas formas utilizadas para chamarem outros para o grupo, o líder pode gritar: “mamo xerovai rã?” (“onde está meu adversário?”), e quem disser “Apy” (“Aqui”) se coloca no círculo para dançar (PESQUISADORES GUARANI, 2013, p. 34). O mestre pode também simplesmente apontar para alguém e pedir para entrar na roda, pode provocar quem ele quer que seja o adversário, em seguida ele ataca da forma que desejar, sendo preciso o praticante xondaro ter agilidade para escapar. Dessa forma eles são treinados (Ibid.).
       
A relação entre os praticantes xondaro e a aldeia, se da de forma que cada um possui um papel definido, assim como uma posição e função específica na comunidade. Aspectos comportamentais atrelados a valores morais e funções práticas surgem como uma espécie de poder regulador do grupo, mas que está distribuído em dois tipos de xondaro, o xondaro porã e o xondaro poxy (PESQUISADORES GUARANI, 2013, p. 34). O xondaro porã possui uma função mais ligada a uma ajuda no dia a dia da comunidade, ele precisa estar atento a tudo que ela precisa e fazer atividades como: trazer lenha, caça, pesca, dentre outras; ele pode também dar conselhos aos mais novos sobre a conduta correta com os mais velhos, ensinar respeito e qualquer outra educação, no que corresponde à formação moral dos mais novos (Ibid.). O xondaro poxy já possui uma função mais relacionada ao conflito em si, aos problemas da aldeia, evitando conflitos como brigas, violência contra mulheres e etc. Ele tem o aval para interferir e solucionar todas essas questões (Ibid). Enquanto o xondaro porã é mais ativo, conversa com todo mundo independente das diferenças, o xondaro poxy é mais quieto, mais reservado (PESQUISADORES GUARANI, 2013, p. 35).
        
A espiritualidade é apontada como definidora da origem da prática xondaro. Uma narrativa que se aproxima da origem mística sobre o surgimento do xondaro é encontrada no livro A Força do Xondaro (2013, p. 16) e também nos meus relatos de campo, onde diz que o xondaro “é uma das formas de se estar em contato com Nhanderu kuery”. Tal relação do xondaro com nhanderu kuery, também foi apontada por Bregalda (2017, p. 87).

A PERFORMANCE MARCIAL

Pensar em uma prática marcial como uma prática performática, é antes tudo pensar na relação em que essa prática tem com diversos elementos que dão sentido a ela, tanto sua interação e significado dentro do grupo, quanto o espaço onde se pratica e as relações envolvida. Tudo que estiver relacionado a ela possui uma importância significativa para o entendimento do próprio evento.

Langdon (2006, p. 17), quando aborda o paradigma da performance, apresenta cinco qualidades inter-relacionadas que formam um eixo entre os diversos usos do termo. O estudo sobre a performance marcial que apresento neste trabalho segue próximo da linha do que a autora chama de um Engajamento corporal, sensorial e emocional, mais precisamente, buscando problematizar análises dicotômicas que envolvem o corpo e outros aspectos subjetivos. A citar:

Engajamento corporal, sensorial e emocional: Como é característico na antropologia contemporânea, tanto quanto em outros campos intelectuais atuais, o paradigma do corpo e “embodiment” (corporificação) (Csordas, 1990) também faz parte das análises de performance, como demonstram particularmente bem as pesquisas sobre a eficácia terapêutica da performance, uma discussão que visa entender a possibilidade de transformação fenomenológica no nível mais profundo do corpo, rejeitando uma divisão cartesiana de experiência, que separa o racional do emocional e do corporal (Ibid.:).

Outro exemplo da importância dessa relação com elementos aparentemente “fora” do evento, é apresentado por Goffman (2002, p. 29) quando explica as representações que ocorrem nos aspectos cênicos13 durante a interação. Ele cita que

Primeiro, há o cenário, compreendendo a mobília, a decoração, a disposição física e outros elementos do plano de fundo que vão constituir o cenário e os suportes do palco para o desenrolar da ação humana executada diante, dentro ou acima dele. O cenário tende a permanecer na mesma posição, geograficamente falando, de modo que aqueles que usam determinado cenário como parte de sua representação não possam começar a atuação até que se tenha colocado e devam terminar a representação ou deixa-lo. Somente em circunstâncias excepcionais o cenário acompanha os atores.

Sobre a relação com a plateia, e seu aspecto intrínseco ao significado simbólico do evento performático, Goffman (2002, p. 89) ainda cita:

Se tratamos uma interação como um diálogo entre duas equipes, às vezes será conveniente chamar uma delas de atores e a outra de plateia ou observadores, deixando de lado momentaneamente a ideia de que a plateia também estará apresentando uma representação de equipe.

Considerando a abordagem dos dois autores sobre os aspectos performáticos, diversos elementos corporais e sonoros são ativados durante o evento marcial, para que ele ganhe o sentido esperado. Isso ocorre tanto como um processo de comunicação através de uma linguagem não necessariamente verbal – como falei anteriormente –, quanto no sentido que Langdon (2006, p. 8) cita: “um ato de comunicação, mas como categoria distingue-se de outros atos de fala pela sua função expressiva ou poética”. Porém, no caso do evento performático estudado aqui, por se tratar de uma performance marcial, existe uma característica fundamental a se considerar, que é a possibilidade de “aplicação” dos movimentos do evento, em uma situação futura de “risco”; ou melhor, em outro evento performático, com uma futura plateia. Isso faz com que a performance marcial aconteça em dois momentos. O primeiro seria a prática cotidiana, onde o evento performático acontece dentro de uma rotina “sem conflitos”, em um ambiente controlado. Nesse momento é trabalhado tanto a preparação para o momento da disputa (o momento de luta), como a relação com os aspectos espirituais e as regras de conduta que se tornam características da personalidade do praticante. O outro momento, seria o momento da disputa, do “risco”, da aplicação real dos elementos trabalhados anteriormente.

Os dois momentos são importantes e merecem toda atenção, diria até que eles não existem desassociados, mas um sempre considerando o outro como motivador de ação. Portanto, uma das especificidades da performance marcial é a existência de dois eventos performáticos associados, um motivando o outro; a outra, é o fato de envolver a relação com um Outro muito bem definido enquanto “inimigo”. Em outros eventos performáticos, mesmo que associados, esse Outro ganha significados diferentes, como, por exemplo, nos ensaios de uma peça de teatro e o dia da apresentação. Enquanto na performance marcial existe uma inspiração agonística relacionada à motivação da prática, no teatro a companhia normalmente não deseja destruir a plateia.

Considerando os argumentos de Goffman (2002, p. 29) sobre a representação que acontece na interação com o Outro, ou seja, com a plateia, onde ele diz que nesse momento é utilizado um “equipamento expressivo de um tipo padronizado ou inconscientemente empregado pelo indivíduo durante sua representação”; minha investigação, portanto, precisa, antes de qualquer coisa, buscar entender este equipamento que Goffman se refere, entender o que acontece no momento de uma prática de arte marcial onde a plateia já está determinada como um ator fixo; que em certa medida, é a razão desta mesma prática existir, seja em qualquer dos dois momentos que citei. Preciso investigar de que maneira o praticante entende esse Outro, de que forma seu significado surge em um contexto que vai determinar o objetivo da prática e a performance em si. 

Com isso, meu interesse se volta então para os pontos característicos da prática que revelam em que medida a relação com o Outro é alterada; ou melhor, em que medida o habitus14, como um princípio inconsciente e coletivamente inculcado (CSORDAS, 2008, p. 107), pode ser transformado. O objetivo é compreender os elementos que atuam em um estado próximo do pré-objetivo de Marlon-Ponty (CSORDAS, 2008, p. 105).

O RETORNO AO PRÉ-OBJETIVO

Aqui busco apresentar o resultado de minha investigação sobre o xondaro, considerando os argumentos apresentados nas partes anteriores. Conforme o conjunto do material analisado, pude perceber diversos elementos característicos dessa prática que o tornam distanciada da referência que normalmente se tem de uma arte marcial. Paiva (2015, p. 19) apresenta uma dessas referências que, de certa forma, esta plasmada no imaginário comum quando se escuta falar sobre alguma prática de combate quando ele diz que “boa parte dessas atividades passou a ter características de jogos com regras, que atraíam o público por seu caráter espetacular, como foram, por exemplo, os jogos disputados pelos gladiadores em Roma”. Falar de tais práticas dessa forma, com uma certeza sobre a maneira com que elas aconteciam nos primórdios é um tanto generalizante. Existem diversas práticas de combate espalhadas por vários cantos do mundo, e que surgiram em épocas completamente diferentes e em sociedades com características diferentes; portanto esse tipo de abordagem acaba por deixar de lado diversas especificidades inerentes a cada prática, e faz com que seja comum pensar em uma explicação bem objetiva para uma prática que tem como fundamento, uma relação de disputa e poder com sua plateia; porém o que pude perceber no xondaro é que a forma com que o praticante entende e atribui significado a esse Outro é muito mais determinante para o momento da disputa, do que um trabalho de treinamento corporal, no sentido em que Paiva apresenta. Não que tenha sido abolido o aspecto marcial, muito pelo contrário, a definição de um inimigo, a subjetividade envolvida nos processos de objetificação que possibilitaram que este Outro exista como alguém que precisa ser “derrotado”, é o elemento fundamental para que, como “tática de combate” – utilizei esse termo por falta de um que descrevesse melhor –, o xondaro utilize recursos que busquem a ressignificação15 deste Outro, ao invés de um reforço na objetificação já consolidada, onde a lógica seria de eliminar o inimigo sem interferir no seu significado. Ou seja, o xondaro pode ser entendido como um tipo de treinamento que visa o praticante atingir a leveza16 que eles falam, modificando a forma com que a luta acontece. É como se surgisse de um “novo Outro” possibilitando a leveza.

Uma questão importante para podermos dar continuidade aos elementos que fazem do xondaro uma estratégia específica de lidar com o “inimigo”, ou seja, com as características que levam a esse processo de retorno ao pré-objetivo de Marlon-Ponty (CSORDAS, 2008, p. 105); é que não podemos confundir esse retorno com uma pura relativização. Quando Csordas argumenta sobre o paradigma da corporeidade, ele está se referindo a um processo que é anterior ao processo de objetificação e não uma forma de atribuir a um objeto um novo significado narrativo. A relativização não passa pelo âmbito da percepção corporal, o que seria o ponto anterior ao processo de objetificação, mas se mantém em uma mudança no âmbito racional, considerando novos aspectos, antes ignorados, sobre tal assunto ou pessoa; o que poderia resultar em uma mudança no julgamento de valor, ainda compreendido através de uma “racionalidade” específica. Ter consciência dessa diferença é fundamental para compreendermos de que maneira os exercícios do xondaro atuam no processo de retorno ao pré-objetivo, tendo como elementos, aspectos não discursivos, do âmbito da sensação, da percepção; sua principal característica. Esse ponto sobre a percepção como elemento pré- objetivo, é demonstrado por Csordas (CSORDAS, 2008, p. 106) no trecho:

Merleau-Ponty quer que nosso ponto de partida seja a experiência de perceber em toda a sua riqueza e indeterminação, pois, de fato, não temos objetos anteriores à percepção. Pelo contrário, “nossa percepção termina nos objetos”, o que equivale a dizer que os objetos são um produto secundário do pensamento reflexivo; no nível da percepção, não existem objetos, nós simplesmente estamos no mundo. Merleau-Ponty quer, então, perguntar onde a percepção começa (se ela termina nos objetos), e a resposta é no corpo. Ele quer recuar do mundo objetivo e começar com o corpo no mundo. Isso também deveria ser possível para o estudo do sujeito concebido nos termos de Hallowell, como um objeto entre outros.

Nesse sentido é que entendo o xondaro como uma prática que busca sempre a tentativa de “reconstrução” do mundo já objetificado, enquanto se incentiva por estímulos sensoriais, a percepção do indivíduo; evitando, por outro lado, uma lógica sistemática de movimentos ou discursos mais elaborados – o que estaria próximo de uma aula de defesa pessoal onde uma espécie de sistema é transmitido ao aluno. É como se através do xondaro sempre se buscasse o lugar anterior aos “objetos”, o indeterminado de Marleau-Ponty, possibilitando assim uma nova objetificação do Outro, uma alteração das estruturas objetivas que geram práticas, o habitus (CSORDAS, 2008, p. 110); ou a leveza almejada pelo xondaro quando se retorna a esse novo “Outro”.

Um dos exercícios praticados pelos xondaro que considero importante para esse trabalho, e que estimulam o recuo do mundo objetivo citado por Csordas no trecho acima, está relacionado a um tipo de elemento subjetivo, “o caminho do coração” (BREGALDA, 2017, p. 236). O termo aparece possui um caráter definidor de um tipo de verdade sempre atribuída à tomada de decisão em uma situação. Os Pesquisadores Guarani (2013, p. 55) quando falam dos elementos que motivam a prática do xondaro, citam o coração como elemento determinante, assim como um reforço a ideia que apresentei anteriormente sobre um tipo de comunicação que está além da palavra. Nesse sentido, Bregalda (2017, p. 25) vai dizer:

[. . . ] sentir dentro de si, é uma forma de agradecimento sem usar a fala, isso mostra que nós não usamos só a fala e sim mostramos o que sentimos no coração. Essa é uma forma de comunicação que há entre nós, uma forma de expressar o que sentimos.

Ao tratar do corpo como lugar onde se dá uma aprendizagem sensível, Bregalda expõe sua experiência de campo com os Mbya Guarani, e constatou a ênfase no que “traduzem como coração – como a morada do nhe’e (alma-palavra) – e não concebem separadamente o pensar e o sentir, embora tenha percebido uma ênfase neste último em diversos momentos”.

Nesse sentido, o termo coração pode ser entendido como um retorno aos aspectos relacionados à percepção, a partir do momento em que Csordas (2008, p. 102) atribui como tendo sua origem no corpo, enquanto sujeito da cultura, o retorno ao sensível estaria relacionado às práticas corporais não sistematizadas em regras, técnicas ou formas padrão. O “sentir o coração” é a referência principal para poder atingir um estado anterior à fala, e pode ser entendido como uma sugestão de qual é o sentido subjetivo “certo” para o praticante seguir. É como se o praticante precisasse, em um primeiro momento, “seguir seu coração” para atingir o pré-objetivo, o indeterminado e assim compreender de uma forma diferente o mundo objetificado. Esse movimento que carrega a intenção do praticante para elementos subjetivos, por si, exige uma abstenção de algum sistema lógico, seja ele linguístico ou técnico corporal. O conceito de nhe’e citado por Bregalda (2017, p. 25) está relacionado a este movimento, pois apesar da alma-palavra existir como unidade, se o mundo já está objetificado, o esforço viria do movimento contrário, para o que seria a alma, ou no sentido em que Csordas fala do indeterminado de Ponty, o corpo sensível.

Já nos primeiros momentos do filme Xondaro Mbaraete – A Força do Xondaro, uma das falas se refere a como praticante Pedro Vicente Karai, da Aldeia Tenode Porã de São Paulo, percebeu a prática na infância. Sua declaração mostra que ele observava os outros dançando e entendeu que deveria participar quando sentiu no coração. Em suas palavras:

[. . . ] senti dentro do meu coração. Só de ficar presenciando senti a vontade de ser igual, de querer fazer tudo aquilo também. Os mais velhos não falavam: levanta você também, vem dançar. Não falaram assim para mim. Eu que fui sozinho no meio dos mais velhos, e não sabia de nada no começo. (2”28)

Por essa fala, podemos perceber o valor que os praticantes dão ao caráter espontâneo, quando até mesmo a escolha de quem vai praticar se dá por ele mesmo, em algum momento do processo de socialização na infância. 

Outro ponto relevante que demonstra o retorno ao pré-objetivo é a importância da música no momento da prática do xondaro, porém o papel da música não é de condutor do ritmo simplesmente, mas de definidor do nível de entrega sensorial que os praticantes têm no momento.

Segundo Antonio Vogado, da Aldeia Koenju, em São Miguel das Missões, no Rio Grande do Sul:

Quando o ritmo permanece lento, a gente não consegue alcançar o auge da dança, e nós falamos: acelere mais!. Isso significa que a música vai se adequando ao nosso ritmo da dança, e a gente consegue alcançar um bom estado de dança. Dançamos bem certinho. Se não for dessa forma a dança não fica equilibrada. E como a gente fala, não ficamos animados com um ritmo que permanece lento. Quando a música está no ritmo certo, nosso coração se fortalece, e a partir disso a gente consegue alcançar a essência da dança. Caso contrário, não acontece. Não basta estar motivados, o ritmo precisa estar certo. Então a gente vai dançar direitinho. (4”28)

É esse “estado de dança”, que me refiro quando digo que o nível de entrega sensorial está associado ao ritmo tocado, e não é só o músico que determina a condução, ele acontece em conjunto com os próprios praticantes. Nesse sentido, há uma diferenciação de um tipo de dança onde a música já está estabelecida e o dançarino segue sua determinação rítmica. É o próprio mestre ruvixa que determinam se a música está sendo suficiente para atingir um nível de diminuição do estado mais racional, para poder aflorar estados corporais mais voltados à percepção, ao estado pré-objetivo. Assim como no depoimento do Pedro Vicente, a palavra coração mais uma vez é utilizada como o ponto de referência do ideal atingido. Nesse sentido, os instrumentos musicais possuem uma função importante, não só pelos aspectos característicos do som (no que se trata de escalas musicais utilizadas e afinações próprias), mas todo processo de preparação para se tornarem instrumentos próprios do ritual (BREGALDA, 2017, p. 81). Porém, esse estado de dança é atingido não apenas pela relação com a música, toda uma ambiência é oferecida quando o xondaro é praticado dentro da casa de reza (opy), assim como Bregalda (2017, p. 112) cita em seu trabalho:

Lembro-me da sensação de entrar na opy e ser envolvida pela película de fumaça que tudo envolve no seu interior e que diversas vezes faziam arder e lacrimejar os olhos, quase impossibilitando de os manter abertos. O cheiro da fumaça e do fumo também vai gradualmente se tornando familiar aos sentidos, a pele se impregnando dele e da atmosfera que se cria no interior da casa. A determinada altura, os cheiros e gostos que estão no ar são aqueles mesmos que estão na pele, e vice-versa, assim como a textura, umidade e temperatura da terra e dos pés descalços que se estranham e depois confundem.

O mestre xondaro ruvixa responsável por conduzir a roda, em muitos momentos está utilizando o popygua, sendo duas varetas presas uma na outra por uma pequena corda em uma das pontas, utilizadas para fazer um som muito característico, pequenos estalos quando se chocam. Sua utilização muitas vezes é feita próxima ao chão, como se simulasse alguma ameaça vinda da terra, e os praticantes que estão no círculo em estado de dança precisam se esquivar. O significado dessas varetas está muito além da simples instrumentalização. Bregalda (2017, p. 75) cita o popygua como sendo utilizado tanto durante as danças como durante as falas e curas. Em momentos que antecedem as falas ou no próprio ritual em que nenhuma outra ação está se desdobrando no centro da opy e que o silêncio ou apenas o burburinho das pessoas preenche o espaço, também é possível escutar o som do popygua.

No trecho, podemos perceber sua relação com a linguagem, ou a substituição de uma linguagem falada por elementos sonoros que provocam estímulos sensoriais, transformando aspectos subjetivos do praticante, relacionados à percepção. Segundo o próprio depoimento do Antonio Vogado no filme: “ajuda a estar bem espiritualmente”, dando mais “disposição pra dançar o xondaro”. Ele completa:

O Popygua é da nossa cultura, eu sempre tenho comigo. Quando eu vou longe da aldeia, eu nunca deixo ele. Vou falar porque não deixo ele. A tarde, quando entramos nacasa de reza, estalamos o Popygya para fazer com que as crianças se sentem. Às vezes, no final do dia, não estamos bem espiritualmente. Se alguém chega à casa de reza se sentindo fraco espiritualmente, pega o cachimbo, acende ele e estala o Popygua. Fazendo assim, os espíritos maus não nos incomodam. É um inimigo deles. Isso é muito bom pra nós, devemos saber usá-lo bem. Eu uso ele com muita fé. Quando vou deitar, estalo ele pra dormir bem. Assim devemos usar ele. Através dele eu ganho confiança. Ele me da força espiritual e coragem. Ele é meu ajudante espiritual. (19”19)

Podemos perceber na sua fala alguns pontos que demonstram bem o caráter sensorial despertado na utilização do popygua ou na recomposição a um estado de espírito anterior às dinâmicas da vida objetiva, do habitus (quando ele diz na citação anterior que no final do dia pode ser utilizado caso não estejam bem espiritualmente). Todos esses momentos em que o popygua é utilizado, podem ser interpretados como uma forma de se retornar ao estado pré-objetivo, a um nível em que a percepção é mais forte do que a objetificação do mundo já consolidada. Nesse sentido, o popygua funciona como uma espécie de gatilho para esse estado anterior, um estado de percepção, sensorial; tanto nos momentos fora da performance xondaro, onde o mestre o utiliza para si, quanto dentro da performance, onde o utiliza para despertar no praticante o mesmo estado. Essa função do popygua pode ser percebida no sentido em que Bregalda (2017, p. 77) o cita como algo que está relacionado a aspectos que os aproximam de uma extensão do corpo, servindo também para comunicação com os deuses, responsável pelo estado de leveza e concentração.

Assim como nos mitos de criação, em que o bastão-insígnia é tomado como emblema do poder de Nhanderu, a partir do qual ele desdobrará outras criações, este e os demais objetos rituais utilizados pelos Mbya também mobilizam capacidades agentivas e de comunicação, que os aproximam das divindades e ativam em seus corpos estados de concentração, disposição, leveza, alegria e força. Nesse sentido os instrumentos, cantos, danças, adornos e demais objetos não apenas se constituem em meios de comunicação com as divindades, mas o próprio corpo é o lugar através do qual se experencia e presentifica um devir divino. Este corpo complexo envolve os objetos como extensão dele próprio, os movimentos engendrados na relação com os objetos, com os demais corpos participantes do ritual no espaço tempo da opy, onde se fazem presentes e se fazem sentir os nhee kuery descidos das moradias divinas, onde a presença, o conhecimento e as capacidades divinas se fazem sentir corporeamente (BREGALDA, 2017, p. 77). Nessa relação de ligação com o próprio corpo, o efeito provocado pelo som do popygua se remete ao significado do próprio colapso entre corpo-mente de Csordas, fazendo dele um instrumento fundamental que contribui para o retorno ao pré-objetivo durante a prática.

Por fim apresento uma análise mais sobre a forma com que o xondaro é mostrado no documentário, e menos dos discursos. Muitas das imagens da prática acontecem dentro de uma casa, que, baseado nos depoimentos do próprio documentário e dos meus relatos de campo, a casa de reza. Existem outras imagens da prática feita em ambientes completamente diferentes, como uma manifestação de rua e grandes áreas ao ar livre dentro da aldeia, portanto, não é uma regra. Nos locais fechados, o ambiente é escuro, os integrantes (ao som da música) estão completamente entregues à performance, dançando em movimento circular constante. Em um momento o condutor seleciona um deles para compor uma dupla no centro da roda, onde acontece uma espécie de treinamento. Todo esse processo ocorre sem diálogos. Eles não são chamados pelo nome e tampouco é feito um pedido formal para compor a dupla; os únicos sons que acontecem são gritos ou frases mais soltas que interagem no nível da percepção, do sensorial, do pré-objetivo.

Com a dupla formada, o condutor faz movimentos que parecem aleatórios, porém não no sentido de um aleatório feito sem propósito; pelo contrário, o aleatório se revela com a intenção de se fugir de uma sistematicidade de movimentos e tentar se aproximar, ou mesmo estimular, o lado perceptivo do outro praticante. Nesse sentido, fica clara a diferença entre as práticas de artes marciais mais comuns, que estão sempre associadas a uma técnica específica, e o xondaro. Não que eu acredite que ambas estejam desprovidas desses dois aspectos, tanto o xondaro quanto qualquer outra prática corporal, em algum nível possui um caráter técnico com o sensorial; o que quero dizer é que o xondaro não possui só a técnica no formato que conhecemos, mas que ele pode abdicar dela para retornar ao inimigo em um estado diferente. Enquanto algumas práticas marciais buscam cada vez mais uma consolidação da objetificação, aumentando o caráter sistemático, apelando muitas vezes para as ciências ditas duras como a física para se apresentarem como artes mais legítimas ou modernas; o xondaro se apresenta com o movimento contrário, estimulando esse retorno como um estado a se alcançar.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Busquei aqui uma breve investigação sobre os aspectos da prática xondaro que em alguma medida se relacionam com o paradigma da corporeidade apresentado por Csordas, e utilizei como fonte de análise alguns trabalhos anteriores sobre o tema e o filme documentário A Força do Xondaro. Não me preocupei em analisar a categoria arte marcial, mas compreendo que esta não é uma categoria nativa e acredito ter ficado claro que em nenhum momento tive a intensão de generalizar a prática, ou reduzi-la a um estereótipo; utilizei o termo para definir o sentido de performance marcial que expus. Um ponto importante, que já mencionei no trabalho e que gostaria de reforçar, é que eu não poderia falar em quebra de um paradigma da corporeidade, ou mesmo do colapso entre as noções de corpo e mente, apresentando os exercícios do xondaro como algo que busca uma espécie de anulação da razão, do corpo enquanto objeto ou do habitus propriamente; ou mesmo como uma transcendência do mundo objetificado. Nesse sentido é importante a compreensão de que esses dois movimentos – a intenção de se voltar a um estado de percepção, a um nível apenas sensorial; e o retorno ao mundo objetificado, ao habitus propriamente – acontecem em um mesmo momento, e não em substituição de um pelo outro. Assim, tentar definir as fronteiras entre onde começa um e acaba o outro, é ainda estar preso à dualidade que o próprio paradigma de Csordas contesta. A ideia é que, na prática do xondaro há uma intenção, um esforço de se encontrar um retorno ao pré-objetivo, que acontece por exercícios que estimulam a percepção, o lado sensorial, em detrimento de lidar com objetos consolidados já no próprio habitus.

Muito ainda precisa ser estudado e a análise que apresento aqui tampouco pode ser entendida como característica única do xondaro, que é praticado em diversas aldeias; sobretudo considerando que as fontes analisadas são datadas, assim como o fato de que há uma construção narrativa em qualquer produto audiovisual. É possível que outros estilos de artes marciais possam trabalhar aspectos semelhantes, assim como obter resultados diversos. De qualquer forma, o que chama atenção no xondaro analisado neste material é justamente a capacidade que ainda existe de não se impor um tipo de sistematicidade que atende apenas ao mundo objetivo, como valor a ser alcançado, fazendo com que exista a todo instante uma certa liberdade de atuação em detrimento de uma exigência sobre os aspectos perceptivos da prática. No entanto, reforço que isso também não exclui a possibilidade de existir, em algum nível, aspectos corporais que caracterizam a própria prática do xondaro. Mesmo que de forma reduzida, alguma definição técnica precisa existir para que a própria prática exista de forma ordenada, com nome e características que a distingue de outras práticas.


NOTAS

1. Este artigo corresponde a parte dos estudos realizados para a elaboração da dissertação de mestrado: XONDARO GUARANI: A performance marcial indígena como estratégia política imagética
2. Programa de Pós-graduação em Ciências Sociais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – ninorhamos@hotmail.com
3. Xondaro resumidamente é uma prática performática característica dos Guarani, que se assemelha tanto a uma dança quanto a uma luta.
4. Segundo o site “Povos Indígenas no Brasil” relacionado ao “Instituto Sócio Ambiental”, o povo Guarani, vive em locais que compreendem o território do Brasil, Bolívia, Paraguai e Argentina, e eles também são conhecidos como Chiripá, Kainguá, Monteses, Baticola, Apyteré, Tembekuá, dentre outros. Dentre os que vivem no Brasil atualmente podemos destacar os Mbya; os Pãi-Tavyterã, conhecidos no Brasil como Kaiowá e os Avá Guarani.
5. Mauss (2006, p. 406) narra uma fórmula de ritual de caça feita por uma sociedade australiana ancestral, onde o conseguiam correr atrás de cangurus, emas e cães selvagens até deixa-los exaustos.
6. Não me refiro aqui a uma comunicação corporal unicamente como uma espécie de linguagem que se pressupõe dotada de significado. Uso o termo comunicação de forma mais ampla, no mesmo sentido em que Alfred Gell define os objetos de arte como objetos que, no contexto das relações sociais, possuem “agência, intenção, causalidade, resultado e transformação” (ALFRED GELL, 2018, p. 31).
7. Os estudos sobre o xondaro contidos no livro “A Força do Xondaro” utilizado aqui como material de pesquisa, foram realizados em aldeias situadas nas regiões Sul e Sudeste do Brasil para compor a primeira fase do INRC (Inventário Nacional de Referências Culturais Guarani) (PESQUISADORES GUARANI, 2013, p. 7
8. Há variações entre gêneros que praticam o xondaro conforme a aldeia estudada. Em algumas, a prática é feita por homens e mulheres, em outras as mulheres fazem uma espécie de dança de acompanhamento, mas os homens ficam com os exercícios bélicos da prática.
9. Essa diferenciação entre o termo dança que pode simbolizar uma “diversão” e o mesmo termo no contexto da prática xondaro, também constatei na experiência de campo, ele não se refere propriamente a um momento de descontração, mas sim em uma forma de se agir e atingir os objetivos da luta.
10. Xondaro também pode ser entendido como o título de quem pratica o xondaro.
11. Termo utilizado para designar o mestre que conduz os praticantes no momento da dança.
12. Esse instrumento é chamado de popygua ou yvyra raimbe, uma espécie de bastão de madeira.
13. Goffman (2002) utiliza da metáfora do teatro para explicar sua teoria, por isso o termo aspectos cênicos.
14. Csordas utiliza tanto o conceito de habitus de Bourdieu quanto o de Pré-Objetivo de Marlon Ponty para explicar o que seria o paradigma da corporeidade, como uma espécie de colapso entre os conceitos de corpo e mente, tidos como elementos separados, mas que, na sua concepção, estão colapsados (CSORDAS, 2008).
15. É importante ressaltar que esta ressignificação não tem nenhuma conotação do que pudéssemos entender como positiva ou negativa, como se antes existisse um sentimento bélico e após, não; mas sim com a maneira que a interação em forma de luta vai acontecer. A dissertação de mestrado A Esquiva do Xondaro (2017) mostra bem como essa leveza acontece na prática. Em suas palavras, os que alcançam a leveza passariam a possuir “extrema leveza corporal, podendo esquivar até da bala, superar qualquer inimigo e não se cansar nunca – sempre com disposição total”.
16. Bregalda (2017, p. 113)cita a leveza como objetivo principal. Eles “dançam para tornar seus corpos leves, para alcançar a fortaleza e a alegria.” [. . . ] o que teria levado, já referido, Mbya antigamente a alcançar o estado de perfeição – aguyge, superando a morte e a putrefação do corpo”.

BIBLIOGRAFIA

ALFRED GELL. Arte e Agência. Ubu Editor ed. [s.l: s.n.]
BREGALDA, D. J. Cosmocoreografias: Poéticas e Políticas do Mover. 2017. Universidade do Estado do Rio de Janeiro, 2017.
CLIFFORD GEERTZ. A Interpretação das Culturas. LTC ed. [s.l: s.n.]
CSORDAS, T. Corporeidade como um Paradigma para a Antropologia. Em: Corpo/Significado/Cura.
[s.l: s.n.]p. 464.
CYNARSKI, W. Values of martial arts in the light of the anthropology of martial arts. Journal of
Combat Sports and Martial Arts, v. 3, p. 1–4, 2012.
CYNARSKI, WOJCIECH; YU, JONG-HOON; WARCHO, Krzysztofl. Martial arts in psycho-
physical culture. “IDO MOVEMENT FOR CULTURE. Journal of Martial Arts Anthropology”,
2015.
ESTHER JEAN LANGDON. Performance e sua Diversidade como Paradigma Analítico: A
Contribuição da Abordagem de Bauman e Briggs. Ilha Revista de Antropologia, v. 8, n. 1,2, p.
162–183, 2006.
GOFFMAN, E. A Representação do Eu Na Vida Cotidiana. Vozes ed. [s.l: s.n.]
L. KESSE. A esquiva do xondaro movimento e ação política entre os Guarani Mbya. 2017.
LEANDRO PAIVA. Olhar Clínico nas Lutas, Artes Marciais e Modalidades de Combate. OMP
Editor ed. [s.l: s.n.]
MAUSS, M. Sociologia e Antropologia. Vozes ed. [s.l: s.n.]
ORTNER, S. Poder e Projeto - Reflexões sobre agência. (ABA - Associação Brasileira de
Antropologia, Ed.) Em: 25a Reunião Brasileira de Antropologia, Goiânia. Anais. . . Goiânia:
2006.
PESQUISADORES GUARANI. Xondaro Mbaraete - A Força do Xondaro. Centro de ed. [s.l:
s.n.]
QUILICI, C. Sydow. Antonin Artaud : teatro e ritual. [s.l.] FAPESP, 2004.
RODRIGUES, J. C. Tabu do Corpo. Achiamé ed. [s.l: s.n.]

Este texto faz parte da categoria Antropologia & performance.

terça-feira, 21 de dezembro de 2021

O espetáculo do constrangimento: individualismo e a trajetória do herói nos lutadores de MMA no filme O Espetáculo da Dor

(Article)


Proa: Revista de Antropologia e Arte
v. 11 n. 2 (2021)


Wallace Ramos de Figueiredo (Nino Rhamos)

Published: 2021-12-18

Download: PDF


Resumo 

Este artigo analisa a performance dos lutadores de MMA no documentário The Hurt Business (O Espetáculo da Dor). O texto apresenta a construção da identidade do lutador através do conceito de individualismo pensado por Gilberto Velho, e utiliza tanto a Jornada do Herói de Joseph Campbell quanto a ideia de constrangimento de Goffman para mostrar o sentido das construções narrativas após a derrota, fomentando no lutador motivos para uma busca incessante pela vitória.

Palavras-chave: Individualismo; Trajetória do herói; Arte marcial; O Espetáculo da Dor.

1 O espetáculo

O filme intitulado O Espetáculo da Dor, foi veiculado pela plataforma de streaming Ne-tflix e produzido em 2016 com 111 minutos de duração. Em sua sinopse afirma exibir “a história de diferentes astros das artes marciais e a sua batalha na indústria das lutas” no contexto dos campeonatos Mixed Marcial Arts (MMA).

O  MMA  diz  respeito  a  uma  de  luta  de  ringue,  um  esporte  de  contato,  que  se  pro-põe uma mistura de diversos estilos diferentes de luta corporal sem armas, em um só evento, permitindo golpes em pé ou no chão, respeitando um limite de tempo e uma forma de pontuação específica. Participam, dentre outros estilos menos comuns, o Jiu Jitsu, Boxe, Wrestling, Muay Thay e Karate. Muitas das vezes a competição MMA está associada ao termo Ultimate Fighting Championship (UFC), sendo a marca da empresa que organiza as lutas.

Criada em 1993, a UFC é uma organização profissional de artes marciais mistas (MMA) e  as  lutas  são  transmitidas1 para mais de 165 países e territórios. Segundo o site da empresa, a marca pertence ao grupo Endeavor2, que atua em escala global, e produz atividades que envolvem esportes, moda e entretenimento.

De  maneira  geral  o  termo  arte  marcial  é  muito  associado  ao  campo  desportivo  re-presentando diversas formas de esportes de contato, assim como nos filmes de artes marciais que movimentam a indústria cinematográfica mundial. Muitos lutadores divergem sobre o objetivo e quais práticas representam “a verdadeira” arte marcial (PAI-VA, 2015), de qualquer forma ela está sempre associada a qualquer luta corporal que contenha uma técnica.

Dentre os autores que têm se dedicado ao estudo das artes marciais considerando seus campos de análise, temos o David E. Jones (2002), Wojciech J. Cynarski (2012) e Klens Bigman (2016); e cada um apresenta leituras sobre o contexto dessas práticas. No entanto, este trabalho não se propõe analisar o termo “arte marcial”, mas entender que os lutadores, no contexto do filme, se identificam como artistas marciais. Isso faz com que cheguemos mais próximo do significado do termo dentro desse contexto.

O filme se dedica em um momento a contar a história do MMA, e a narrativa não dife-re da legitimação da prática através de narrativas sobre a sua história, sendo comuns aquelas que marcam a origem em tempos remotos; como conta Bas Rutten3 no filme, quando diz que o MMA surgiu em 648 a.C. com o Pancrácio4, portanto tendo como origem a Grécia antiga. Pensar no documentário como uma expressão completa do universo do MMA, como expressão fiel da realidade, pode ser um equívoco. Apesar da sua intenção de documentar uma realidade, existe a construção de uma história, onde a escolha de diversas ferramentas técnicas de produção acaba por caracterizar uma narrativa específica. Isso nos impossibilita a tomada desse material como expressão pura do que é o universo real dos lutadores. Seguindo na mesma direção de Ramos (2008), quando pensou as construções narrativas de um documentário, Paul Henley (2016, p. 59) explica a ne-cessidade de haver uma narrativa no documentário para que não haja uma sequência confusa de imagens: “[S]e um filme não tem uma estrutura narrativa, ou se ele é muito difícil de interpretar, há então o risco de que o filme vá se deparar com uma sequência de vinhetas incompreensíveis e o público em breve ficará desinteressado”.

Bill Nichols (2010, p. 30) também pensou a importância de se considerar a sua construção narrativa quando diz que
[...] os documentários podem representar o mundo da mesma forma que um advogado  representa  os  interesses  de  um  cliente:  colocam  diante  de  nós  a  defesa de um determinado ponto de vista ou uma determinada interpretação das provas. Nesse sentido, os documentários não defendem simplesmente os outros, representando-os de maneira que eles próprios não poderiam; os documentários intervêm mais ativamente, afirmam qual é a natureza de um assunto, para conquistar consentimento ou influenciar opiniões.
Seguindo a mesma linha, mas estendendo a ideia para outros formatos de filmes, Odin (2003, p. 160) mostra como os vídeos familiares desempenham um papel social. Há uma escolha das cenas que devem ser exibidas, fazendo com os filmes apresentem características semelhantes. Ele diz:
Geralmente, o filme de família não mostra os problemas ou as reflexões íntimas de cada um. Ele só nos mostra os acontecimentos felizes: nascimento, casamento, férias à beira-mar ou no campo, passeios com amigos, viagens, etc.; suas imagens são fundamentalmente eufóricas.
Isso invalida o filme? Não, na verdade, apresenta as representações produzidas pelos participantes ou mesmo aquelas comuns ao campo5, construídas com a intenção de transmitir determinada ideia àqueles, como mais um elemento a ser considerado; ou seja, a forma com que a narrativa é construída, as informações que são escolhidas, mas também aquelas deixadas de fora, diz muito sobre o universo que está sendo estuda-do. De certa forma os lutadores aceitaram que as suas imagens fossem “construídas” de tal maneira, como uma expressão fiel da imagem que desejam transmitir. Esse argumento se alinha com o sentido em que Joo Ho Kin (2003, p. 230) trata as imagens fotográficas, como fazendo parte de um “projeto de memória, de um modo de ver a si próprio numa rede de pseudo presenças que expressam a imagem biográfica que se deseja deixar como legado”. Rose Satiko Gitirana Hikijino (2012, p. 99) no livro Imagem da Violência, também chama atenção para a forma com que a mídia ensina ao públi-co o que deve ser temido quando escolhe quais crimes devem ser apresentados com frequência.

Portanto, a ideia aqui não é analisar somente a forma com que a derrota no ringue aparece nas narrativas do filme, mas ter como premissa das análises o fato que há possivelmente uma intenção de que essa imagem seja absorvida como expressão da “realidade”. Há uma intenção – mesmo nos momentos de intenso sofrimento – de que todos nós fiquemos convencidos que este é o universo dos lutadores, justificando as emoções que envolvem a prática e todas as suas expressões; desde momentos de violência justificada, dores diversas, alegrias pelas vitórias e sequelas, tanto físicas quanto psicológicas. Isso ocorre no mesmo sentido em que Goffman (2011, p. 96), ao analisar o constrangimento, diz que este “tem a ver com a figura que o indivíduo representa diante dos outros considerados presentes naquele momento”.

2 A construção do herói

Quando Marcel Mauss (1980) pesquisou sobre a representação dos sentimentos como algo que surge não apenas na manifestação individual, mas principalmente como ex-pressões que acontecem em um contexto coletivo, sobretudo no sentido de uma es-pécie de fala simbólica, ele abria uma porta para entendermos de forma significativa – no sentido antropológico – as manifestações emotivas. Neste texto clássico de 1921, intitulado como A expressão obrigatória dos sentimentos, onde ele estudou as manifestações dos sentimentos no ritual funerário de grupos primitivos australianos, cita:“Os gritos são como frases e palavras. É preciso emiti-los, mas é preciso só porque todo o grupo os entende. É mais do que uma manifestação dos próprios sentimentos, é um modo de manifesta-los aos outros, pois assim é preciso fazer.” (MAUSS, 1980, p. 153).

Portanto, a análise aqui busca apresentar elementos semelhantes; ou seja, ten-tar entender de que forma no universo personalista das lutas de MMA, onde expressões de emoções que acontecem após a derrota no ringue servem de base para uma narrativa que diz respeito a categorias de emoções compreendidas e esperadas pelo círculo social que envolve a produção das lutas.

O individualismo no filme, que gera um olhar personalista dos lutadores, tam-bém é muito marcante. A ideia do homem da modernidade citada por Margaret Archer (2012) pode ser vista como um objetivo a ser perseguido no discurso dos entrevista-dos. Archer vai analisar o perfil de dois modelos de homem conceituados por teóricos como formas de interpretar o comportamento humano: o homem da modernidade e o ser da sociedade. Para Archer, ao contrário do ser da sociedade, que seria mais precisamente o homem de Durkheim6, completamente dependente do “poder que as forças sociais têm de talhar e de moldar” aspectos que ultrapassam inclusive a concepção de self; o homem da modernidade seria praticamente seu oposto, aqueles capazes de “[...] dominar seu ambiente e, assim, de controlar seus próprios destinos, como se fosse ‘a medida de todas as coisas’. Além de situar-se fora da natureza, como se fosse seu próprio senhor” (ARCHER, 2012, p. 53).

Para Archer essas duas formas de análises são insuficientes quando utilizadas como única  maneira  de  entender  o  comportamento  humano;  porém,  sem  negar  esta  afirmação, vejo que os elementos que caracterizam o homem da modernidade7 aparecem nos discursos. Não que eles sejam uma espécie de prova da existência e eficiência desse modelo, muito pelo contrário, os conflitos que aparecem nos relatos mostram a  contradição  entre  a  sua  idealização  e  a  “realidade”;  assim  como  mostram  também  que estes são os valores utilizados de pilares motivacionais, tanto do próprio espetáculo quanto do desejo de muitos lutadores de continuar lutando. Aquele que atinge a vitória em uma luta, ou mais ainda, o auge de sua carreira como lutador, é justamente aquele que conseguiu representar com perfeição o homem da modernidade de Archer.

Quando  Jon  Jones8  (também  conhecido  como  Bones)  conta  a  história  de  como  ele  atingiu um momento importante da carreira, começa dando atenção para a amizade com Rashad Evans9, comentando que este tinha sido sua fonte de inspiração. Em se-guida  ele  mostra  que  logo  surgiu  como  prioridade  a  necessidade  de  superá-lo,  por  isso, assim que Rashad se feriu, Bones não hesitou em aproveitar a oportunidade ale-gando que esperar ele se recuperar, como foi proposto pelo próprio Rashad, iria contra a forma como a vida é. Ele diz: “Não é assim que a vida funciona (se referindo à possibilidade de esperar a recuperação do antigo amigo). Foi a minha oportunidade. Minha oportunidade de ser grande, e eu fui”. Tempos depois Rishad o desafiou, e Bones venceu – “acabei com ele”. Apesar de ter sido chamado de traidor, ele se justifica dizendo: “Eu era só um garoto seguindo o meu coração e os meus sonhos.”

Precisamos ter cuidado quando tratamos tanto a questão do individualismo do ser da modernidade, quanto o ser da sociedade de Durkheim, para que um não seja tomado pelo outro de forma que os agenciamentos dos indivíduos fiquem de fora de uma análise  mais  aprofundada10. Portanto, faço a análise do filme sem apagar a agência, mas vendo os valores do individualismo como comportamento tido por ideal para os lutadores. Esse cuidado é o mesmo que Archer (2012) vai ter na diferenciação dos dois modelos, como citei anteriormente; e que Sherry Ortner (2006) vai ter quando explica a importância de não se confundir agência, com os aspectos do individualismo anglo-americano.

O individualismo que aparece no filme pode ser entendido como uma relação, sobre-tudo na sociedade estadunidense, entre os aspectos sociais produzidos pelas grandes metrópoles e a necessidade de expressão desses aspectos no campeonato. A indús-tria  de  lutas,  através  de  seu  interesse  comercial,  estimula  tais  valores  nos  lutadores,  fazendo com que o ethos capitalista11 do acúmulo seja uma das justificativas para se enxergarem como verdadeiros heróis solitários em busca de um final heroico para suas carreiras, estimulando uma postura diante das dinâmicas da vida que se assemelha à luta de ringue. Tal atmosfera se torna presente em todos os espaços compartilhados por eles.

Gilberto  Velho  apresenta  alguns  pontos  interessantes  para  pensar  esse  universo  das  lutas de MMA quando analisa o individualismo e seu surgimento como ideologia associada à urbanização:
O relacionamento pessoal direto ‘face to face’, seria típico de pequenos gru-pos,  comunidades,  aldeias,  etc.  enquanto  na  cidade,  especialmente  na  me-trópole, encontraríamos a distância, a impessoalidade e o anonimato. Assim haveria um contraste entre a predominância da vida grupal, comunitária, com forte presença de laços familiares e de parentescos e um individualismo que chegaria na vida metropolitana a formas agonísticas, com perda ou desagre-gação de rede de parentesco e reciprocidade. Assim os indivíduos tenderiam a se organizar em famílias nuclearesou ficar cada vez mais isolados, estabele-cendo relações mais impessoais e distantes. (VELHO, 2000, p. 16)
As formas agonísticas, citadas por Velho, de alguma maneira se relacionam com aspec-tos da agressividade esperada nas lutas e no comportamento dos lutadores durante o evento. Uma agressividade que nem sempre se mostra só em forma de discurso, mas também nas posturas corporais, vestimentas e relações com familiares e amigos. Com a quebra da relação “face to face”, a partir do surgimento das grandes metrópoles, a impressão que temos é haver um aumento da expectativa do encontro no ringue.

Entretanto, mesmo que se constate o individualismo presente como valor, o que cons-trói a ideia de Eu do lutador ainda não está completa. Por si o individualismo resolve a análise dos comportamentos no filme; pois, se podemos entender que aquele que sai vitorioso de uma luta é aquele que vai representar melhor os valores do homem da modernidade de Archer, o elemento mais interessante é entendermos os motivos que geram a justificativa da derrota, e narrativas são construídas para ressignificá-la. A ideia de fachada de Goffman (2011) e sua análise sobre as formas com que o constrangi-mento acontece a partir da perda da fachada nos auxilia, portanto, a entender de que maneira os lutadores se esforçam para reconstruir o papel do vencedor, do homem da modernidade, quando esse foi perdido devido à derrota.

Há também uma diferença entre a forma com que o individualismo acontece em ho-mens e mulheres. A fala da lutadora Sarah MacMann12 ilustra bem. Sarah aponta como causa  principal  de  sua  entrada  no  mercado  de  lutas  um  acontecimento  trágico  que  ocorreu com o irmão, mas conta em seguida a relação de gênero bem marcante que existe entre os lutadores. Sua permanência no campo das lutas de MMA foi difícil por-que o padrão de lutador excluía as mulheres desse universo. Em sua fala ela diz:
[...] aos 14 anos decidi que queria fazer algum esporte. Eu quis lutar porque parecia o esporte mais natural. Mas na Carolina do Sul não aceitavam isso. Mulheres deveriam cozinhar e limpar para os homens, não lutar com eles. Era uma época diferente. Eu sempre fui meio cabeça-dura. Quando diziam que eu não poderia fazer algo, principalmente por ser mulher, eu dizia: ‘Sem chance. Eu vou fazer isso. Você não pode me dizer o que posso ou não fazer, do que sou ou não capaz’.
As falas  da Michelle  Waterson13 e  Angela  Lee14 seguem  a mesma  linha, e  mostram como a entrada no universo das lutas foi entendida como instrumento de afirmação de gênero em um campo ainda machista, expresso nos comentários de alguns lutadores quando perguntados sobre a participação feminina. Michelle diz: “as artes marciais me ajudaram muito. Comecei a lutar desde pequena e isso moldou a minha autoestima. A luta me deu uma voz.”; e Angela diz em seguida: “[N]ós lutadoras temos uma voz, podemos  ser  ouvidas.  Cada  vez  que  entramos  no  ringue  ganhamos  mais  respeito.  Acho que isso nos coloca na posição de ser a voz das mulheres do mundo todo que não têm a oportunidade de ser ouvidas”.

Apesar de todos esses desdobramentos do individualismo, ele não é o único que está em relação com a identidade do lutador. Ele se “se perceber” enquanto homem da modernidade não explica todo estímulo para se atingir o auge da carreira, a necessidade da vitória a qualquer custo. Por si, o individualismo poderia existir mesmo em momentos de derrota, mesmo que o lutador desistisse do universo das lutas e escolhesse projetá-lo  em  outra  atividade.  Há  algo  ainda  que,  associado  a  esse  individualismo,  mantém a motivação para perseguir o ponto máximo da carreira. Existe um modelo a ser atingido, um tipo ideal perseguido durante sua trajetória, e esse modelo se assemelha a jornada do herói (CAMPBELL, 1949). O conceito de monomito15  pode  ser  visto indiretamente como elemento marcante na maioria das falas quando produzem narrativas sobre suas histórias.

Apresento abaixo uma breve relação entre as etapas da trajetória do herói e possíveis momentos da trajetória dos lutadores, usando como base a síntese dos doze passos de Campbell apresentados por Ricón (2004), inspirados no livro de Christofer Vogler (1997), A Jornada do Escritor. Segundo Ricón, eles se adéquam melhor às narrativas contemporâneas (cinema e TV).

1 - O mundo comum: “A maioria das histórias leva o personagem principal para fora do seu mundo comum, cotidiano, em direção a um mundo especial, novo e estranho” (RICÓN, 2004, p. 2). O momento em que o lutador nem pensou em entrar no circuito. Ele está, para o contexto das lutas, completamente anônimo.

2 - O chamado à aventura: “Ao herói é apresentado um chamado à aventura, um desafio de grande risco. Uma vez apresentado esse chamado, o herói não pode mais permanecer indefinidamente em seu mundo comum” (Ibid. p.2). É quando o próprio aspirante a lutador passa a conhecer o universo das lutas e vê a possibilidade de se tornar um herói.

3 - A recusa do chamado: “É normal qualquer herói sentir medo após ser chamado à aventura. (...) Quando o herói recusa, é necessário que em algum momento surja alguma influência para que ele vença esse medo” (Ibid. p.2). Aqui, as referências são os diálogos sobre a relação familiar. São as pessoas que, no entorno, ajudam o herói a vencer qualquer receio que possa surgir quando ele se vê diante da trajetória. Pode estar relacionado também com qualquer acontecimento que o dê incentivo a seguir.

4 - O encontro com o mentor: pode ser o próprio treinador, a escola de treino, um local onde ele se qualifica e recebe apoio para sua jornada.

5 - A travessia do primeiro limiar: “Finalmente o herói se compromete com sua aven-tura e entra plenamente no mundo especial ao efetuar a travessia do primeiro limiar” (RICÓN, 2004, p. 3). É o momento em que ele faz sua primeira luta importante e se coloca de fato no circuito.

6 - Testes, aliados e inimigos: “No momento em que o herói entra no mundo especial, encontra novos desafios, testes, faz aliados e luta contra inimigos” (Ibid. p.3). Após a primeira luta ele se estabelece no circuito, conhece pessoas e passa a ser considerado um lutador profissional.

7 -  Aproximação da caverna oculta: “Aqui o herói chega à fronteira de um lugar peri-goso onde está o objeto de sua busca.” (Ibid. p.3). Esta etapa é representada por novos desafios, lutadores mais robustos, também profissionais. Ele começa a vislumbrar o auge da carreira.

8 - A aprovação suprema: “A provação suprema é o momento crítico nas histórias. O herói enfrenta a possibilidade de morte” (Ibid.p.3). Ela pode ser relacionada a uma luta importante como uma batalha por um cinturão, contra alguém mais forte ou qualquer outro desafio inédito. Ele acontece em cada luta profissional considerada um marco na carreira. É nesse momento que, havendo derrota, nasce o constrangimento de Goffman que falarei mais a frente. É como se o lutador ficasse preso nesta etapa da trajetória do herói, precisando superá-la, e se ocorrer algum problema físico ou psicológico que o impeça de prosseguir obrigando-o a decretar o fim da carreira, nasce uma espécie de trauma e ele entra em crise pela superação dessa fase. 

9 - A recompensa: “Após sobreviver à morte, derrotar o dragão e salvar a princesa, o herói e o espectador têm motivos para celebrar” (Ibid. p.3). Essa etapa acontece com a vitória da luta anterior seguida por eventuais comemorações, aquisições de bens ma-teriais, acesso a círculos sociais diferenciados, etc. A trajetória do herói segue seu fluxo.

10 -  Caminho de volta:   “O   caminho   de   volta   é   onde   começa   o   terceiro   ato da história. O herói ainda está no mundo especial e corre perigo.” (Ibid. p.3). Após a vi-tória anterior e sua recompensa, ele ainda não se aposentou e surgem outros desafios. Ele ainda não chegou ao auge. Nota-se que nesta etapa há sempre o retorno à etapa anterior, enquanto ele, desafiado, precisa manter a identidade do herói da trajetória imaginada.

11 - Ressurreição: “O herói deve “renascer” e, assim, purificar-se antes de voltar ao mundo comum. Isso até pode ser um segundo momento de vida e morte, ainda mais intenso que a provação suprema. Essa etapa é uma espécie de exame final do herói, para ver se realmente aprendeu as lições” (Ibid. p.3). Representada na trajetória do lu-tador como a última luta da carreira, antes da aposentadoria.

12 - Retorno com o elixir: “O herói retorna ao mundo comum, mas toda a jornada não tem o menor sentido se ele não trouxer consigo um elixir” (RICÓN, 2004, p. 4). O Elixir na trajetória dos lutadores pode ser representado por toda experiência, sua história de vida. Ele volta para o mundo comum, mas com algo a mais que é todo seu histórico de campeão. Ele vira referência no circuito e a trajetória do herói está cumprida.

Apesar de a trajetória do herói ser uma narrativa que normalmente é reproduzida em filmes, séries, quadrinhos, etc., utilizá-la para uma análise de histórias que se pressu-põem “reais” pode parecer uma tentativa de adequar a própria “realidade” a um “es-quema já pronto”; porém, no mesmo sentido em que falei no início sobre as narrativas cinematográficas, é interessante considerar que a diferença entre a realidade dos luta-dores fora do filme e a forma como suas trajetórias são apresentadas neste, passa por um processo de adequação pela própria natureza da construção cinematográfica. Os documentários não representam uma cópia fiel do que seria a “realidade”, como diz Bill Nichols (2010, p. 47), ele
[...] não é uma reprodução da realidade, é uma representação do mundo em que vivemos. Representa uma determinada visão de mundo, uma visão com , talvez  nunca tenhamos  , mesmo  que os  aspectos do  mundo nela representados nos sejam familiares.
E Gonçalves (2016, p. 19) vai dizer:
Questiona-se a linguagem do documentário de modo a expor suas entranhas, desvelando o que está por trás de uma imagem pretensamente científica. Ao se colocar em suspensão o que parecia ser simples técnica de filmagem (travelling, panorâmica, som direto, música), tomadas como registros de verdade ou verossimilhança, desconstrói-se esta ‘naturalidade’ das imagens no documentário.
A ideia aqui não é mostrar se os lutadores cumprem ou não a trajetória do herói, mas expor que ambas, tanto a história de vida dos entrevistados quanto a própria construção cinematográfica, se esforçam para reproduzi-la. A necessidade de construir a ideia de um “personagem” que segue as etapas da trajetória do herói aparece nos discursos e é nesse sentido que ela se transforma em um tipo ideal a ser seguido, por fazer parte da identidade do lutador, servindo também para que eles não saiam dos circuitos de lutas, buscando sempre uma vitória atrás da outra; e entrando em um conflito com essa  identidade  quando  a  derrota  se  apresenta  com  impeditivo  do  retorno  aos  ringues. O filme, portanto, além de ser um produto de entretenimento, ganha um caráter didático para os próprios lutadores e para os simpatizantes que pretendem se iniciar na carreira.

Quando Gilberto Velho (2000) fala sobre as características do individualismo, é interessante perceber que uma delas não é vista no perfil dos lutadores que alcançaram o auge, que é o fato de não serem necessariamente anônimos. O que se torna uma diferença entre o individualismo, no sentido de uma concepção atribuída a indivíduos comuns de uma coletividade, e o individualismo associado ao perfil do herói esportivo analisado aqui. Se o primeiro, segundo Gilberto Velho, possui características como distância, impessoalidade e anonimato; o segundo tem a divulgação de seus feitos com o universo que compõe as lutas (público, produtores, canais de televisão e patrocinadores) como algo completamente inerente à sua atividade; semelhante à análise que Fausto Amaro (2013) faz do herói esportivo a partir das representações no filme “Heleno”.

No entanto, o anonimato16 aparece quando a trajetória do herói está no início, apontado nos lutadores que ainda se encontram nas lutas clandestinas que aconteceriam em áreas de reserva indígena17, imaginando-se que este seguirá um caminho semelhante à de todos os competidores que atingiram o auge da carreira e representam o exemplo maior da possibilidade de realização; portanto, esse anonimato existe no contexto do universo das lutas oficiais que é o lugar onde a trajetória do herói acontece. Nesse sentido que a necessidade de vitória – a saída do anonimato – passa então a ser a necessidade de seguir e manter a trajetória do herói, onde valores do ethos individualista, seguindo as características do homem da modernidade de Archer (2012), aparecem como a base de realização dessa trajetória, fazendo com que o herói exista em função unicamente dela18.

A vitória maior passa não mais a ser apenas a conquista do dinheiro, o reconhecimento público, ou um embate pessoal com outro lutador. Todos esses elementos são importantes,  mas  é  na  realização  da  trajetória  que  está  o  seu  maior  objetivo;  assim  como  na crença dos valores individualistas que alimenta a ideia de que a trajetória do herói sempre será possível. Mesmo que o herói atue em nome do bem-estar comum (VALLE; TELLES, 2014), o que poderia sugerir um abandono de si em função dos “outros”, para que ele se estabeleça enquanto herói, com sua capacidade de estar acima dos padrões comuns19, portanto com poderes de romper com as forças sociais que colocam limites (como se fosse ele fosse capaz de superar o Homem de Durkheim), ele precisa do individualismo enquanto base de sustentação da sua personalidade. É esse indivíduo, uma espécie de mônada que se enxerga como o herói da trajetória do herói de Campbell (1949), que chamo de Eu lutador do filme.

3 O fim do herói

Nesta parte do texto vou me aproximar um pouco do olhar de Goffman para entender como sua ideia de constrangimento surge em uma situação de derrota do lutador. O ponto de partida é o encontro face a face, onde Goffman (2011, p. 91) vai dizer que este  acontece  “quando  os  indivíduos  reconhecem  que  se  moveram  para  a  presença  imediata  uns  dos  outros  e  termina  com  uma  retirada  aceitável  da  participação  mútua”. Como para Goffman (2011) o constrangimento surge com a ruptura da interação provocada por interferências que perturbam o encontro face a face; ao observar a luta, percebe-se que ela é um encontro face a face forçado20, porém com o objetivo específico de resultar no constrangimento de um dos lutadores. Se em um encontro qualquer entre dois indivíduos esse resultado não está previsto, na luta analisada aqui ele é muito claro. Nesse sentido, seguindo os passos de Goffman podemos entender que o incidente constrangedor é causado por quem vence a luta, e é constrangedor não apenas para aquele que perdeu, mas para todos que o apoiaram e que estavam no momento da luta, ou o acompanham em momentos posteriores e conhecem a trajetória do lutador derrotado desde o seu surgimento. Michael Chandler21 após contar a história de como ele se esforçou para se tornar lutador, e como trava uma luta solitária para manter o peso exigido pela categoria, diz:
Perder é difícil. Tive um treino duro, estratégico, e me cerquei de pessoas certas, as pessoas que me ajudariam, e eu nunca me vi perdendo. Eu venci as minhas 12 primeiras lutas, [...]. Entrei nesse esporte para ser campeão, subir na plataforma e ser visto, então não imaginava como seria possível perder ali. Mas aconteceu. Eu praticamente voltei dos mortos.
Há também diferenças nas formas de se expressar o constrangimento, seja ele na forma de um orgasmo abrupto, ou através de um desconforto contínuo, mais leve (GOF-FMAN, 2011). Se o orgasmo abrupto pode ser visto no momento da derrota no ringue, o desconforto contínuo pode ser visto na expressão constante daquele que não con-segue voltar e completar sua trajetória. Esse aspecto aparece na fala de praticamente todos os lutadores que por algum motivo não podem mais lutar.

Assim, pontos críticos também são reconhecidos no filme, ou seja, momentos em que
[...] o indivíduo alvoroçado desiste de tentar ocultar ou minimizar seu desconforto: ele cai no choro ou em paroxismos de riso, tem um acesso de cólera, ou é acometido por uma fúria cega, desmaia, corre para a saída mais próxima, ou se torna completamente imóvel, como se estivesse em pânico (GOFFMAN, 2011).
Tais características  aparecem na  fala do  lutador Gary  Goodridge22, no  momento da  entrevista que ele conta as sequelas físicas e emocionais deixadas por uma luta, e cita como consequências o esquecimento, fala alterada e agressão. Seu discurso sobre o momento em que perde alguns sentidos após uma luta é semelhante à descrição de Goffman:
Meu treinador disse que não podia ir porque não tinha dinheiro, mas mandou eu ligar pra ele assim que acabasse a luta. Depois da luta, eu só me lembro de ter insistido que precisava ligar para Norman. Meu cérebro não fez mais nada. Eu não sabia onde estava, o que estava fazendo. Só lembro de ter dito que  precisava  ligar  para  ele,  então  disse  para  todo  mundo.  Disse  para  todo  mundo que podia me ouvir. Pegamos o telefone e eu liguei para ele. Ele perguntou: ‘você está bem?’. Eu disse: ‘Não sei’. Ele perguntou: ‘Você venceu?’. Eu disse: ‘Venci o que?’. ‘Você lutou. Venceu?’. Ele mandou outra pessoa falar ao telefone. E... Desculpem... [fala emocionada] Eu pus outra pessoa na linha, e ele decidiu que... Ele disse que... Ele mandou o cara me levar para o hospital. Desculpem, eu fico emocionado porque... Esse cara... Isso foi quando ele... Ninguém ao meu redor sabia que eu estava alterado.
Nitidamente Gary narra o momento em que não se importava mais se todos perceberiam seu desconforto, mesmo dizendo que ninguém sabia que ele estava alterado, sua história mostra o momento de pânico que envolveu a situação. A ligação para o treinador surge como a saída mais próxima citada por Goffman, assim como o fato de seu cérebro não fazer mais nada, soar como a imobilidade também citada.

4 O teste de provocações

Outro ponto interessante para análise é o teste de provocações que os lutadores passam  nos  momentos  de  “divulgação”  da  luta.  O  teste  consiste  em  um  evento  aberto  ao público em que os dois lutadores se encontram e trocam provocações, insultos e promessas de que alcançarão a vitória sobre seu oponente. Seus rostos ficam bem próximos, ambos os lutadores performando a possibilidade de uma agressão. Tal evento acaba despertando no público uma atmosfera de que a qualquer momento um ataque corporal  poderá  acontecer  fora  do  local  apropriado.  O  teste  costuma  acontecer  de  “forma simulada” sendo esperado que nada saia do controle, pois a indústria de lutas do MMA mantém todo um conjunto de performances23 aguardadas pelo público, estimulando que cada luta pareça um momento único no imaginário dos fãs. No entanto, como mostra bem a fala do narrador do filme quando conta o encontro entre Jones e Cormier, incidentes agressivos e determinantes para a luta, surgiram fazendo com que ela se tornasse “pessoal”, pois no momento do teste um deles rompeu com a “regra” de apenas provocar, agredindo fisicamente seu oponente. O fato de ele ter reagido, mostra que se tornou “pessoal”. Isso é apresentado no filme como uma exceção, sugerindo que o objetivo subentendido e legítimo, não é esse. É nesse sentido que o teste se  torna  “simulado”,  podendo  o  lutador  ganhar  a  fama  de  violento  e  descontrolado  caso  ele  escolha  lutar  com  o  outro  fora  do  momento  e  do  espaço  apropriado.  Goffman (2011) vai falar de algo semelhante ao teste de provocações, que são momentos em  que  “o  jovem  passa  até  desenvolver  uma  capacidade  de  manter  a  compostura”.  Provar que pode manter a compostura, portanto, pode ser entendido como um dos objetivos (senão o principal) desse teste que acontece antes das lutas; considerando o mais forte ou o mais resistente lutador, aquele que conseguiu não ser atingido pelas provocações, ou nos termos de Goffman, manter o aprumo, garantindo que os papeis continuem intactos.

5 O futuro do herói

Por fim, existe ainda um elemento importante na análise do filme que precisa ser colo-cado. Diz respeito a uma projeção do Eu-lutador no futuro. Com o constrangimento da derrota, ele gera uma expectativa de realização da trajetória do herói. Goffman (2011, p. 108) vai dizer que “apesar de não conseguir apresentar um Eu sustentável e coerente nesta ocasião, ele pelo menos está perturbado pelo fato e pode se provar digno em outro momento”.No filme, este elemento aparece principalmente como uma das formas de se resolver o constrangimento, e de fazer uma manutenção do ethos individualista com a expecta-tiva de se cumprir a jornada do herói, dando sentido ao Eu-lutador; ao mesmo tempo que cria um estado de confusão para aqueles que estão impossibilitados de voltar a lutar. Gary Goodridge relata:
Você sempre quer lutar mais, mesmo que já tenha cansado e já tenha quase morrido. Seus pés ardendo, suas mãos imobilizadas. ‘Não, estou bem, não vou parar.’ Lutadores sempre dizem isso porque estão atrás do arco-íris, achando que o Sol vai brilhar. Se durar mais um segundo, você acha que pode vencer. Eu não conseguia parar.
A história de Michael Gaymon (também conhecido como The Joker) é um bom exemplo de como a quebra da expectativa de futuro surge como a quebra da maneira de controlar o constrangimento do presente. Gaymon dedicou a vida ao MMA, e mesmo tendo participado de 22 lutas profissionais, com 39 anos ele nunca chegou ao auge da carreira; o que gerou estados de depressão constantes e comportamentos suicidas. A expectativa de futuro foi interrompida devido a diversas lesões no rosto, o que provocou sua retirada do mercado de lutas. A todo instante suas falas no documentário expressam  um  estado  psicológico  alterado,  onde  ele  mesmo  se  coloca  da  seguinte  maneira: “Estou tentando ser mais otimista por fora. Por dentro, por dentro está uma droga.” Diante da preocupação sobre sua condição financeira, o fato de não poder lutar  aparece  como  principal  motivo  do  seu  estado.  Uma  situação  que  nos  sugere  a  análise de Z. Bauman (2007, p. 31) sobre os efeitos de uma sociedade de consumidores que inclui na dualidade sujeito-objeto a dualidade consumidor-mercadoria, onde o tensionamento existente na relação entre os dois “é oferecida à percepção como inadequação, inconsistência ou imperfeição de uma mercadoria mal escolhida”. Nesse sentido, a quebra das expectativas faz de Gaymon uma mercadoria defeituosa ou imperfeita. Nos termos de Bauman, conforme as estratégias exigidas pelo consumismo dirigido para o mercado, torna-se necessária sua troca imediata.

A fala final do filme, – que é construída com imagens que reforçam o imaginário individualista,  mostrando  lutadores  se  exercitando  de  forma  solitária  e  com  um  fundo  musical  que  sugere  introspecção,  inspiração  e  heroísmo  –  dita  por  Michael  Gaymon  também é interessante:
Para os que arriscam o corpo e a mente em nome do orgulho da glória e do entretenimento, não importa se a jornada é estável, ou se o corpo e a mente os deixam na mão. Eles sempre estão lutando. Para esses homens e mulheres, nenhuma derrota os faz desistir. Nenhum juiz pode parar a luta, nenhum córner pode mostrar o caminho. Precisam achar a força para continuar dentro deles próprios. E por isso acompanhamos suas histórias tão atentamente. Suas vitórias magníficas e derrotas devastadoras. Por um momento podemos abandonar nossas preocupações e testemunhar o triunfo de outros.
A indignação que surge nos lutadores não está relacionada à derrota do ringue, mas ao  que  essa  derrota  provoca  no  Eu-lutador,  construído  em  bases  onde  o  indivíduo  deve agir sozinho, vencer sempre e cumprir sua trajetória de forma a se tornar a gran-de confirmação de que ela é real, que ela deve acontecer de fato. Na trajetória do herói não existe a possibilidade da derrota; portanto, o constrangimento da derrota provoca indignação porque nega a existência do Eu-lutador. Derrotado, seja por outro lutador, pelas condições físicas ou psicológicas, ele teve sua trajetória interrompida.

6 Considerações finais

Este artigo apresentou um breve apanhado de elementos que aparecem no filme O Espetáculo da Dor, analisando impressões da realidade vivida pelos lutadores. Inicialmente foi exposto um pouco sobre o contexto do filme e das lutas de MMA, em seguida falei da importância de não tratarmos as informações do filme como verdades irrefutáveis, mas como aspectos de um campo que deseja ser visto e interpretado daquela maneira. Em seguida foi elaborada a construção do Eu-lutador, unindo os valores do individualismo de Gilberto Velho à concepção da trajetória do herói de Campbell. A explicação de Velho ajudou a entender o surgimento do individualismo a partir do contexto das grandes metrópoles. Assim, Eu-lutador é um termo que utilizo aqui para sintetizar uma construção narrativa e um olhar que o lutador tem da própria trajetória. Esse olhar sobre si é constante no filme e a quebra da expectativa de realização des-se Eu-lutador, no momento da derrota do ringue, é que provoca o constrangimento. Desde o momento que esse Eu é projetado na forma de compreender o universo das lutas, oferecendo assim um motivo ao lutador para continuar participando dos campeonatos, ele precisa existir a qualquer custo, o que faz das vitórias alcançadas no ringue um motivo secundário, mas necessário para manter esse Eu vivo. Ou seja, a vitória no ringue  é  necessária  para  consolidar  a  verdadeira  vitória,  a  realização  da  expectativa  “com perfeição”, a realização da própria trajetória do herói.

Todo  esse  dilema,  essa  busca  dos  lutadores  de  apresentarem  suas  histórias  dentro  da perspectiva do Eu-lutador, aparece como questão principal na narrativa do documentário. A partir do momento que essa perspectiva é tida como leitura padrão das histórias de vida apresentadas no universo das lutas, o que o documentário faz é tentar nos convencer, através da exposição de emoções específicas como raiva, medo, decepção, etc., de como cada lutador realiza tal trajetória, mostrando os que conseguiram e aqueles que ainda estão por tentar realiza- la. Nesse sentido, a fala final do filme citada anteriormente é bem emblemática, ela mostra que os lutadores não consideram a desistência, sempre precisam da vitória; ou seja, eles sempre precisam realizar sua trajetória para estarem realizados como vencedores.
Os aspectos do individualismo no Eu-lutador, que surgem como justificativas para a manutenção da trajetória do herói, certamente não relatam com profundidade outros desafios que seriam “irrelevantes” do ponto de vista dessa trajetória; ou seja, desafios onde  a  resolução  não  passa  por  questões  individuais,  mas  sim  estruturais  da  sociedade. O filme, por exemplo, aborda a questão de gênero de forma tímida e coloca o problema como sendo apenas do universo feminino. Questões como diferença de raça e classe social nem mesmo são colocadas como uma variável importante na história de vida dos lutadores. A representação do evento é feita apenas dentro dos Estados Unidos, mesmo os organizadores definindo-o como um esporte globalizado. Os lutadores  de  outra  nacionalidade,  no  documentário,  são  tratados  como  estadunidenses,  apagando qualquer contextualização que ponha em risco os valores do Eu- lutador; ou seja, qualquer problema que ponha em risco o individualismo que sustenta as narrativas da trajetória do herói, é ocultado. Nesse sentido, eu chamo atenção para o que foi dito no início do artigo, sobre a escolha das narrativas apresentadas no documentário. Elas acontecem de tal forma que, muitas das vezes, o mais relevante de se observar não é apenas o que foi dito e como foi dito, mas, sobretudo, o que ficou de fora no momento da construção do roteiro, fazendo com que os dramas apresentados sejam os dramas “permitidos” porque corroboram com a imagem do Eu-lutador e sua trajetória, a trajetória entendida como legítima. Tudo isso em detrimento de outros dramas, que poderiam até mesmo subverter a lógica dos valores compartilhados pelos que produzem e participam do evento; desconstruindo assim o motivo principal que faz com que os lutadores continuem buscando sua realização nas lutas de forma incessante.

Notas

1 O filme ficou em exibição pela plataforma de streaming Netflix até fevereiro de 2020. A Netflix é atualmente no Brasil uma das mais populares plataformas de streaming. Atuando desde 2010, ela possui custo relativamente aces-sível (em torno de 25,90 reais) para aqueles que têm acesso à internet de banda larga.

2 Endeavor é uma empresa do tipo holding, ou seja, sua atividade principal é deter participação acionária em uma ou mais empresas. De forma majoritária ela detém direitos sobre marcas, imóveis, direitos autorais, etc. Em 2021 a empresa se tornou de capital aberto e agora participa da bolsa de valores.

3 Sebastiaan “Bas” Rutten é um ex-lutador de artes marciais mistas e Kickboxer. Ele foi campeão do peso-pesado do UFC e ganhou o título King of Pancrase em 1993, 1995 e 1996.

4 Pancrácio foi uma antiga arte marcial e um antigo esporte de combate sem armas, que segundo a mitologia grega teve início com os heróis Héracles e Teseu.

5 A ideia de campo que utilizo aqui é no mesmo sentido que Bourdieu (1996, p. 256), como um espaço simbólico específico para orientar relações próprias, pautadas por regras específicas e um consenso mínimo sobre essas re-gras, com graus de codificação que determinam como o “jogo” deve funcionar e quem poderá participar.

6 A ideia do homem de Durkheim é compreendida a partir da sua concepção de fato social, consistindo em “representações e ações” produzidas por muitas pessoas, e não individualmente. Ver: As Regras do Método Sociológico (DURKHEIM. , 2007) e Sociologia e Filosofia (DURKHEIM, 1970).

7 Archer (2012) atribui ao iluminismo a base para o surgimento do homem da modernidade, por isso a base da sociedade estadunidense.

8 Jonathan Dwight Jones, mais conhecido como Jon Jones, é um lutador de MMA estadunidense, bicampeão meio- pesado do UFC em 2018 e 2011.

9 Rashad Evans é um lutador de MMA, hoje ex-campeão do UFC da categoria meiopesado. Sua última vitória foi contra Chael Sonnen em 2013.

10 Segundo Alfred Gell (2018, p. 47) “a agência social pode ser exercida em relação às ‘coisas’, assim como pelas ‘coisas’”, portanto na produção do filme tanto quanto na participação, há uma agência envolvida que, apesar de não ser o foco de estudo aqui, não deve ser desconsiderada durante a leitura.

11 Ver Max Weber (2007) em A ética protestante e o espírito do capitalismo.

12 Sara McMann é uma estadunidense ex-lutadora de wrestling no estilo-livre - medalhista nos jogos olímpicos, campeonato mundial e jogos panamericanos - e atualmente é lutadora de MMA.

13 Michelle E. Waterson é uma lutadora estadunidense de artes marciais mistas que atualmente compete no peso- palha do Ultimate Fighting Championship.

14 Angela Lee é uma lutadora de artes marciais mistas singapurense nascida no Canadá. Em 2015 estreou no MMA profissional pelo ONE Fighting Championship onde é a atual detentora do cinturão peso átomo.

15 Monomito é um conceito de jornada cíclica presente em mitos, conforme o antropólogo Joseph Campbell. O termo aparece pela primeira vez em 1949, no livro The Hero with a Thousand Faces (CAMPBELL, 1949). Ver também (BRANDÃO, 1987).

16 É comum na lógica da trajetória do herói, ou monomito (CAMPBELL, 1949), o começo da história em lugares simples onde existe o anonimato completo do personagem. No entanto, nada indica que tais lutas sejam, além de clandestinas, anônimas. Esse anonimato está na fala do entrevistado, está em como ele se vê quando atua em lutas clandestinas, ele é anônimo dentro da lógica da trajetória do herói.

17 No filme não há nenhuma especificidade sobre o termo “reserva indígena”. A utilização no texto, portanto, foi para chamar atenção à sua referenciação como um ambiente clandestino.

18 O fato de o herói existir unicamente dela não elimina o aspecto sociológico de que a sua trajetória só é entendida como valor somente quando reconhecida pela sociedade.

19 Dentre as etapas apresentadas por Andrea Nero (2014), quando estudou a influência do cinema no aprendizado utilizando a jornada do herói de Campbell e o filme O Equilibrista (PETIT, 2009), a etapa seis seguindo a linha de (MARTINEZ, 2008) sugere que a personagem é o único capaz de superar os desafios da trajetória, é o momento em que “você percebe que só depende de você mesmo” (NERO, 2014, p. 7); e quando, na análise do filme propriamente, ela aponta na etapa nove a absorção de “poderes” adquiridos depois de um contato com a morte, “onde o homem comum desaparece pelo meio de uma morte simbólica para o surgimento do herói” (NERO, 2014, p. 10).

20 O termo “Forçado” não significa que os lutadores foram obrigados, mas representa uma disputa programada, num ambiente onde o encontro não acontece de forma tão fácil (VELHO, 2000).

21 Michael Chandler Jr. é um lutador estadunidense de artes marciais mistas e atualmente possui 22 vitórias, sendo a mais recente contra Dan Hooker em 2021.


22 Gary Goodridge Henry, apelidado de “Big Daddy” é um antigo e famoso lutador de pesos pesados de Kickboxing e MMA de dupla nacionalidade: nasceu em Trinidad e Tobago e naturalizou-se Canadense. Este esteve presente nos primeiros eventos do UFC e do extinto Pride e participou em muitos torneios do K-1 World Grand Prix.

23 A palavra “performance” deve ser compreendida no seu sentido antropológico, considerando as definições de autores bases do campo como o Richard Bauman (1978), Victor Turner (1987), Judith Butler (2003), Erving Goffman (2011) e Richard Schechner (2013); nesse, levando considerando estudos sobre arte verbal; dentre outros. Dentre as performances construídas pela indústria do MMA, além do duelo citado, os momentos anteriores à luta são cons-truídos com a fala do narrador buscando estimular a emoção do público com a apresentação dos lutadores, os pró-prios entram no ambiente onde será realizado a luta de forma a exibir seus dotes, com músicas e poses para fotos, além do processo de preparo do lutador (como a aplicação de vaselina no rosto e no queixo, seguido de formas de verificação de irregularidades). Tudo isso acontece enquanto performances são exibidas na transmissão televisiva. São apresentadas imagens em tom cinematográfico de momentos do treino dos lutadores, complementadas pelos narradores falando constantemente sobre suas trajetórias; tudo até o exato momento em que a luta inicia.

REFERÊNCIAS

AMARO, Fausto. Heleno: o que o herói pode nos dizer de sua cultura? Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação,  XXXVI  Congresso  Brasileiro  de  Ciências da Comunicação, Manaus, p. 1-15. set. 2013. Disponível em: https://www.academia.edu/4878679/Heleno_o_que_o_herói_pode_nos_dizer_de_sua_cultura. 

ARCHER, Margaret. Realismo e o problema da agência. Estudos de  Sociologia.  Revista do  Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPE., v.2, n.6, p. 51-75, 2012. Disponível em: https://periodicos.ufpe.br/revistas/revsocio/article/view/235467. 

BAUMAN, Richard. Verbal Art as Performance. Anthro Source. p. 290-311, 1974. Disponível em: <https://anthrosource.onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1525/aa.1975.77.2.02a00030>.

AMDUR, Ellis; FINCH, David; KLENS-BIGMAN, Deborah. Women  and  Asian  Martial  Tradi-tions.Via Media Publishing, 2016.BOURDIEU, Pierre. As regras da arte. São Paulo: Cia. das Letras, 1996. 

BRANDÃO, Junito de Souza. Mitologia Grega. Petrópolis: Editora Vozes, 1987.BUTLER, Judith. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 2003.

CAMPBELL, Joseph. The Hero with a Thousand Faces. California: Pensamento Cultrix, 1949.

CYNARSKI, Wojciech. Values of martial arts in the light of the anthropology of martial arts. Journal of Combat Sports and Martial Arts, v.3, p. 1-4, 2012.

DURKHEIM, Émile. Sociologia e Filosofia. Rio de Janeiro: Editora Forense-Universitária LTDA, 1970.DURKHEIM, Émile. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes Editora, 2007.GELL, Alfred. Arte e Agência. São Paulo: Ubu Editora, 2018.

GOFFMAN, Erving. Ritual de Interação: Ensaios sobre o comportamento face a face. Petrópo-lis: Editora Vozes, 2011.

GONÇALVES, Marco Antonio. Prefácio: imagem e experiência. In. BARBOSA, Andrea; CUNHA, Edgar Teodoro da; HIKIJI, Rose Satiko Gitirana; 

NOVAES, Sylvia Caiuby (org). A experiência da Imagem na Etnografia: São Paulo: Terceiro Nome, 2016.

HENLEY, Paul. A verdade velada do documentário etnográfico? In. BARBOSA, Andrea; CUNHA, Edgar Teodoro da; HIKIJI, Rose Satiko Gitirana; NOVAES, Sylvia Caiuby (org). A experiência da Imagem na Etnografia: São Paulo: Terceiro Nome, 2016.

HIKIJI, Rose Satiko Gitirana. Imagem-Violência: Etnografia de um cinema provocador. São Paulo: Editora: Terceiro Nome, 2012.JONES, David E. Combat, Ritual, and Performance: Anthropology of the Martial Arts. Santa Barbara - CA / US: ABC-CLIO, 2002.KIM, Joon Ho. A fotografia como projeto de memória. Caderno de antropologia e imagem IFCH/UERJ, Rio de Janeiro, v.17, p. 227-247, 2003.

MARTINEZ, Monica. Jornada do Herói: A esturutra narrativa mítica na construção das histórias de vida em jornalismo. São Paulo: Annablume, 2008.

MAUSS, Marcel. A Expressão Obrigatória dos Sentimentos. Em P. e. Sociais, Psicanálise e Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1980.NERO, Andrea. A relação entre audiovisual e ensino: exemplificando a jornada do herói por meio  do  cinema,  10º Interprogramas de Mestrado Faculdade Cásper Líbero. São Paulo, 2014.  Disponível  em:  <https://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2015/01/Andrea-Nero-UNISO.pdf>.

NICHOLS, Bill. Introdução ao documentário. Campinas: Papirus Editora, 2010O EQUILIBRISTA. Direção: James Marsh. Produção: Philippe Petit. Intérpretes: David Forman. [S.l.]: Simon Chinn. 2009.The Hurt Busines (O Espetáculo da Dor). Director: 

VLAD YUDIN. Produçed by: Edwin Mejia Vlad Yudin. [S.l.]: [s.n.]. 2016.

ORTNER, Sherry. Poderes e projetos. Conferências e diálogos: Saberes e práticas antropologicas. 25ª Reunião Brasileira de Antropologia, Goiânia, p. 45-80, 2006. 

PAIVA, Leandro.  Olhar clínico nas lutas, artes marciais e modalidades de combate. Petró-polis: OMP, 2015.

ODIN, Roger. (2003). As produções familiares de cinema e vídeo na era do vídeo e da televisão. Caderno de antropologia e imagem IFCH/UERJ, Rio de Janeiro, v.17, p. 159-172, 2003.RAMOS, Fernão Pessoa. Mas afinal... o que é documentário? São Paulo: Senac, 2008.

RICÓN, Luiz Eduardo. A Jornada do Herói Mitológico. II Simpósio RPG & Educação, p. 1-4, 2004.

SCHECHNER, Richard. Performances Studies: an Introduction. Londres: Routledge, 2013. 

TURNER, Victor. The Anthropology of Performance. New York: PAJ Publications, 1988.UFC. (s.d.). Acesso  em 5 de Ago de 2019. Disponível em: <https://www.ufc.com.br/history-ufc>.VALLE, Cléa Fernandes Ramos; 

TELLES, Verônica. O Mito do Conceito do Herói. Revista Eletrô-nica do ISAT, v.2, n.1, p. 1-6, dez. 2014.

VELHO, G. Individualismo, anonimato e violência na metrópole. Horizontes Antropológicos, ano 6, n.13, p 15-29, jun. 2000.Vlad Yudin, E. M. (Produtor), & YUDIN, V. (Diretor). (2016). O Espetáculo da Dor [Filme Cine-matográfico].

VOGLER,  Christofer.  A  Jornada  do  Escritor:  estrutura  mítica  para  escritores.  Rio  de  Janeiro:  Ampersand, 1997.

WEBER,  Max.  A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.São Paulo: Schwarcz LTDA, 2007.


Este texto faz parte da categoria Antropologia & performance.

As mais lidas da última semana