sábado, 30 de agosto de 2025

Fu Xi e Nüwa: mitologia, ordem social e a criação da humanidade na China

Quando falamos em mitologia chinesa, é comum pensar em narrativas cosmogônicas que explicam a origem do universo. Mas, muito antes de Pangu ser registrado como criador do mundo, já havia um casal mítico com papel central: Fu Xi (伏羲) e Nüwa (女娲).

Nino Rhamos especialista em China com mais de 30 anos de interesse pelo país, estuda cultura chinesa e cinema na China.
Representação antiga de Fuxi e Nüwa

Na tradição chinesa, eles são lembrados como irmãos e, em algumas versões, marido e mulher, responsáveis por criar a humanidade e estabelecer as primeiras bases da vida social.

A criação da humanidade

Nüwa é frequentemente descrita como a divindade que moldou os primeiros seres humanos a partir do barro amarelo da terra, dando origem às pessoas. Já Fu Xi é lembrado como aquele que ensinou práticas fundamentais para a sobrevivência, como a pesca, a caça e o uso de redes.

Juntos, simbolizam a passagem de um mundo sem forma para uma ordem social organizada.

A ordem social e os rituais

Os textos da dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.), como o Bai Hu Tong, registram Fu Xi como o primeiro a “estabelecer as leis da humanidade”, em um tempo em que não havia regras sociais nem princípios morais claros.

O casal é frequentemente representado em estelas da época com corpos humanos e caudas de serpente entrelaçadas, evocando a fusão de forças complementares, como o céu e terra, homem e mulher, natureza e sociedade.

Nino Rhamos especialista em China com mais de 30 anos de interesse pelo país, estuda cultura chinesa e cinema na China.

Na dinastia Song (séculos X–XIII), Fu Xi e Nüwa já eram cultuados em rituais imperiais, tradição que atravessou séculos e só terminou com o fim do império no século XX. O filósofo Zhu Xi (século XIII) retomou a importância cósmica dessas figuras, conectando-as ao legado cultural desde Fu Xi até o lendário Imperador Amarelo (Huang Di).

Significado antropológico

Mais do que personagens de lendas, Fu Xi e Nüwa representam a origem da humanidade enquanto ordem coletiva. Eles não aparecem apenas como criadores de indivíduos, mas como fundadores da sociabilidade humana, do parentesco, dos rituais e do direito.

Do ponto de vista antropológico, esse mito reforça o caráter comunitário da civilização chinesa, a vida em grupo e o respeito à ordem social antecederiam o indivíduo. A união entre Fu Xi e Nüwa simboliza justamente essa ideia de que a existência humana é inseparável da coletividade, da harmonia cósmica e das leis que regulam a convivência entre polos.

Este texto faz parte da categoria China contemporânea.

Nino Rhamos

Nino Rhamos é escritor e pesquisador independente. Tem mais de 30 anos de interesse pela China e formação acadêmica em antropologia. Atua desde 2010 com edição de vídeo e, mais recentemente, com tradução textual intercultural e consultoria em temas relacionados à China. No dia a dia, também segue ajudando amigos chineses que querem melhorar o português.

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