Quando falamos em mitologia chinesa, é comum pensar em narrativas cosmogônicas que explicam a origem do universo. Mas, muito antes de Pangu ser registrado como criador do mundo, já havia um casal mítico com papel central: Fu Xi (伏羲) e Nüwa (女娲).
Representação antiga de Fuxi e Nüwa |
Na tradição chinesa, eles são lembrados como irmãos e, em algumas versões, marido e mulher, responsáveis por criar a humanidade e estabelecer as primeiras bases da vida social.
A criação da humanidade
Nüwa é frequentemente descrita como a divindade que moldou os primeiros seres humanos a partir do barro amarelo da terra, dando origem às pessoas. Já Fu Xi é lembrado como aquele que ensinou práticas fundamentais para a sobrevivência, como a pesca, a caça e o uso de redes.
Juntos, simbolizam a passagem de um mundo sem forma para uma ordem social organizada.
A ordem social e os rituais
Os textos da dinastia Han (206 a.C.–220 d.C.), como o Bai Hu Tong, registram Fu Xi como o primeiro a “estabelecer as leis da humanidade”, em um tempo em que não havia regras sociais nem princípios morais claros.
O casal é frequentemente representado em estelas da época com corpos humanos e caudas de serpente entrelaçadas, evocando a fusão de forças complementares, como o céu e terra, homem e mulher, natureza e sociedade.
Na dinastia Song (séculos X–XIII), Fu Xi e Nüwa já eram cultuados em rituais imperiais, tradição que atravessou séculos e só terminou com o fim do império no século XX. O filósofo Zhu Xi (século XIII) retomou a importância cósmica dessas figuras, conectando-as ao legado cultural desde Fu Xi até o lendário Imperador Amarelo (Huang Di).
Significado antropológico
Mais do que personagens de lendas, Fu Xi e Nüwa representam a origem da humanidade enquanto ordem coletiva. Eles não aparecem apenas como criadores de indivíduos, mas como fundadores da sociabilidade humana, do parentesco, dos rituais e do direito.
Do ponto de vista antropológico, esse mito reforça o caráter comunitário da civilização chinesa, a vida em grupo e o respeito à ordem social antecederiam o indivíduo. A união entre Fu Xi e Nüwa simboliza justamente essa ideia de que a existência humana é inseparável da coletividade, da harmonia cósmica e das leis que regulam a convivência entre polos.
Este texto faz parte da categoria China contemporânea.
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