sexta-feira, 29 de agosto de 2025

Alta tecnologia na China: o segredo por trás da busca por crianças desaparecidas

Na China, as ferramentas digitais de busca por pessoas desapareceram dos limites do “cartaz na rua” para se tornarem plataformas integradas entre Estado, empresas e cidadãos. Desde iniciativas pioneiras, como o site Tianwang Disappeared Persons, até grandes programas oficiais como o Reunion System (lançado em 2016 pelo Ministério da Segurança Pública), a prática de usar a internet para encontrar crianças desaparecidas e até reunir famílias inteiras, tem se consolidado como política pública e ação social.


Grandes empresas de tecnologia, como Baidu e Tencent, atuaram lado a lado com órgãos estatais. Sistemas de alerta via WeChat e QQ, funções de geolocalização no Amap e até o uso de blockchain e reconhecimento facial para ampliar a eficácia. Essas plataformas já ajudaram a localizar centenas de crianças e idosos em todo o país.

Exemplos de iniciativas de busca online na China

  • Officer Cao’s Person Finder Group (2013) – Criado pelo policial Cao Jinsheng, em Xi’an, que começou usando o Weibo e o WeChat para encontrar uma jovem com amnésia. O grupo passou a responder consultas online e já ajudou a localizar mais de 600 idosos e crianças desaparecidas.
  • Baidu People Search – A gigante de tecnologia criou uma plataforma aberta, especialmente útil após desastres como o terremoto de Ya’an em 2013. A ferramenta permitia que familiares postassem informações de desaparecidos e buscassem registros compartilhados em tempo real.
  • Reunion System (2016) – Plataforma oficial do Ministério da Segurança Pública para publicar informações sobre crianças desaparecidas. Tornou-se o canal mais reconhecido do país para esses casos, recebendo atualizações diretas da polícia e conectando-se a aplicativos parceiros.
  • QQ Alert: Reunion After Years (2015) – Programa da Tencent baseado no app QQ, desenhado para aproveitar as “72 horas de ouro” na busca de crianças vítimas de tráfico. O sistema disparava alertas para usuários em áreas próximas ao desaparecimento.
  • Blockchain e Filantropia (2017) – A Tencent TrustSQL lançou uma rede de blockchain para rastrear desaparecidos, conectando ONGs e sites especializados. A ideia era integrar dados de diferentes instituições e evitar perdas de informação.
  • Amap (AutoNavi) – Aplicativo de mapas que incluiu funções de filantropia. Usuários podiam visualizar campanhas de busca por crianças próximas às suas rotas diárias, reforçando a lógica de mobilização coletiva.

O ponto que chama atenção, porém, não é apenas o avanço técnico. É a maneira como essas ferramentas se ancoram em uma lógica coletivista, em que a cooperação entre agentes distintos — Estado, empresas, cidadãos — se torna natural e necessária. Não se trata de negar que outras sociedades também desenvolvem respostas eficientes em casos de desaparecimento; mas quando a centralidade das decisões permanece no interesse individual ou no retorno imediato de lucro, a capacidade de integração tende a ser menor.

Pensando em uma perspectiva antropológica, o “Online Person Finder” chinês pode ser mais do que tecnologia, mas uma forma de expressão da própria sociedade, onde os valores de coletividade e integração se manifestam em redes digitais. 

O gesto de compartilhar um alerta, contar com a contribuição ativa das pessoas comuns, integrar dados entre plataformas ou dedicar recursos corporativos a uma causa comum se inscreve num ideal cultural em que o bem-estar coletivo é parte constitutiva da vida social.

Este texto faz parte da categoria China contemporânea.

Nino Rhamos

Nino Rhamos é escritor e pesquisador independente. Tem mais de 30 anos de interesse pela China e formação acadêmica em antropologia. Atua desde 2010 com edição de vídeo e, mais recentemente, com tradução textual intercultural e consultoria em temas relacionados à China. No dia a dia, também segue ajudando amigos chineses que querem melhorar o português.

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