quarta-feira, 20 de agosto de 2025

Antropologia das artes marciais: o que há de comum entre o cinema de luta chinês e as artes marciais indígenas?

O corpo em combate sempre falou mais do que parece. Seja nos antigos templos chineses como Shaolin e Wudangshan, ou na terra batida de uma aldeia Guarani, o lutador não apenas se prepara para a luta, ele se apresenta ao mundo nos seus termos. 

No xondaro Guarani, arte marcial e espiritualidade caminham juntas. No wushu chinês, a coreografia da luta se transformou em imagem. Imagem que virou uma indústria cultural poderosa. Mas o que há de comum entre essas formas tão diferentes de combate? E o que elas nos dizem sobre como culturas diferentes constroem e derrubam relações de poder através da performance?

A imagem como arma: quando o corpo fala antes do golpe

No caso do cinema chinês, o guerreiro luta até mesmo quando está parado. O silêncio, o olhar e o sopro do vento que antecede o movimento fazem parte do combate. Até mesmo o sentido de combate pode ser relativizado, visto que, uma arte marcial fora do ambiente de campeonatos e academias — produzidos com foco em pontuação e medalhas —, há rituais, regras morais, situações onde outros elementos religiosos são atrelados. No entanto, em boa parte também existe a imagem do corpo em ação diante de um "público".

Filmes como O Clã das Adagas Voadoras, Hero, O Grande Mestre, assim como toda obra de Bruce Lee, são construídos em cima desse imaginário onde vencer não é apenas derrotar, é impactar de forma visual, sonora e emocionalmente o inimigo. Onde lutar não é necessariamente ganhar pontos, mas reafirmar identidades e valores morais.

Cena do filme O Clã das Adagas Voadoras
Cena do filme O Clã das Adagas Voadoras

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No livro Xondaro Guarani: Arte Marcial, Performance e Política, que é baseado na minha pesquisa de mestrado em antropologia, percebi algo semelhante na prática Guarani. O corpo do guerreiro xondaro, em performance, é mais do que músculo, ele também possui todos os requisitos prévios de comportamento, como o tom silencioso do lutador e a atuação como exemplo moral para o grupo, —durante a primeira performance marcial —, e os gritos e a circulação em grupo durante a segunda performance, que também são elementos de uma estética agonística que antecede a luta física, atuando diretamente sobre a percepção do outro sobre a possibilidade ou não da vitória.

Na minha pesquisa eu relato como me foi apresentado, nos termos do que está sendo dito aqui, uma ocupação da prefeitura de São Paulo, onde os xondaros Guarani conseguiram desestabilizar a ordem apenas com seus cantos e movimentações em círculo, o “vencer sem tocar” que muitos estilos diferentes também pregam.

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Todos esses elementos são percebidos em diversos estilos, mas principalmente nas artes marciais chinesas; salvo suas especificidades que marcam características próprias, claro. 

Ator Donnie Yen em set de filmagem
Ator Donnie Yen no set de filmagem 

As formas prévias diante de uma disputa, ou mesmo o cinema enquanto instrumento produzido para mostrar capacidades — visto que as lutas são coreografadas, premeditadas e atreladas à moralidade do personagem —, são maneiras de "interferir" no outro, ou em quem assiste, promovendo no oponente, um cenário de possibilidade de vitória ou derrota.

Entre o espetáculo e a resistência: duas pedagogias do corpo

Assim, a performance marcial no cinema chinês criou um modelo global de guerreiro: calmo, centrado, elegante. Mas por trás da tela, essas imagens também são políticas,  um projeto de afirmação identitária e, em termos mais nacionalistas, um orgulho cultural.

Já o xondaro atua em um campo de disputa que pode parecer mais real, devido a não fazer parte de uma indústria cinematográfica, mas ele também é acionado como marcador identitário Guarani, inclusive em termos imagéticos em exibições audiovisuais em plataformas como YouTube, onde a imagem do corpo em movimento serve como ferramenta de afirmação identitária, resistência simbólica e política.

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Diferentes em contexto e em diversos aspectos, mas semelhantes nestes pontos que apresentei, em ambas as tradições o corpo do lutador é treinado para atuar no mundo, usando elementos que estão muito além da força física. Ele é, ao mesmo tempo, ritual, estratégia e linguagem. Além disso, atuam politicamente. Tal como as artes marciais chinesas, para além dos filmes, tiveram um papel durante vários momentos de inflexão política, entre ascensão e queda de dinastias, o xondaro frequentemente é associado à ações políticas de resistência.

Praticantes de xondaro em performance marcial indígena. Arte marcial indígena
Praticantes de xondaro

Falar sobre definições, em termos antropológicos, é um pouco complicado. Xondaro não necessariamente possui aspetos de luta somente, assim como os sentidos da palavra e o que ela representa dentro das relações sociais, pode variar. Mesmo as artes marciais chinesas, que parecem muito definidas no imaginário popular, é alvo de inúmeros debates sobre veracidade diante de mudanças propostas por novos professores, tradição e origem. Cada praticante possui sua verdade sobre o que considera legítimo ou não. Tais aspectos também mostram como a variação entre sentidos acontece. Até mesmo o termo "arte marcial" pode ter muitos sentidos.


Por outro lado, toda prática considerada arte marcial, no fundo, talvez seja uma forma de produzir, diante de um evento agonístico, sem palavras, uma interferência no corpo. Uma maneira de moldar o olhar do oponente antes mesmo de tocar. Ou seja, transformar o corpo em presença simbólica ativa, visto que falamos de uma Performance Marcial

E é nesse espaço entre o gesto e o impacto que o xondaro Guarani e o cinema de luta chinês se encontram como manifestações distintas de uma mesma gramática de performance.

Este texto faz parte da categoria Antropologia & performance.

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