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  • O dilema do preconceito naturalizado em alguns ambientes acadêmicos

    O mundo acadêmico, em sua busca por um rigor metodológico e uma ética de pesquisa, deveria ser um espaço de isenção, onde as pesquisas são avaliadas por resultados e não por estereótipos. No entanto, a realidade muitas vezes contrasta com esse ideal. Observa-se que certos temas e regiões do mundo, como a China, por vezes desencadeiam reações que parecem contradizer os próprios princípios das ciências humanas. O que se manifesta não é apenas um viés velado, mas uma forma de preconceito naturalizado, que se traduz em deboches e caricaturas que seriam inaceitáveis se dirigidos a outros grupos que, no Brasil, são reconhecidamente e historicamente oprimidos. Essa atitude parece revelar em comentários os preconceitos do século XX, que tenho estudado no meu doutorado, como a representação dos chineses como "homens doentes da Ásia", feita pelos ocidentais durante a tentativa de dominação do país. Como se não bastasse, ainda são tratados com uma leveza que os torna ainda mais perigosos. É como se a falta de uma crítica mais aprofundada ou a aversão política ao próprio sistema de governo da China, levasse à adoção de uma caricatura simplista. O preconceito e a dupla medida da crítica A situação se torna ainda mais complexa quando se percebe que os critérios de avaliação aplicados a esses trabalhos parecem ser desproporcionalmente rígidos. Pesquisas sobre temas considerados "sensíveis" ou "polêmicos" parecem ser submetidas a um escrutínio que não se aplica a outros objetos de estudo, como se a simples escolha do tema exigisse uma prova de lealdade ideológica. Essa dupla medida revela uma falha ética, especialmente quando partimos do princípio de que o ambiente acadêmico deveria ser o primeiro a questionar e desconstruir esses padrões. Em última análise, essa dissonância, ou melhor, esse preconceito que navega entre o discurso humanista das aulas e a prática obscura dos corredores, gera uma profunda decepção. Fica a reflexão sobre o paradoxo entre alguns "representantes" de um campo do conhecimento que, ao mesmo tempo em que ensinam sobre direitos humanos e equidade, podem falhar em aplicar esses mesmos princípios quando confrontados com seus próprios vieses.

  • Alfred Gell: O Encontro da Arte com a Magia na "Tecnologia do Encanto"

    Você já pensou sobre o que nos fascina em uma obra de arte? Talvez não seja apenas sua beleza, mas a percepção de que sua criação parece transcender o trabalho humano comum. É a partir dessa ideia que o antropólogo Alfred Gell estabelece uma conexão profunda entre a arte e a magia em sua teoria da "tecnologia do encanto". Para Gell, a arte é um componente da tecnologia e, em muitas culturas, a habilidade técnica do artista é compreendida como um tipo de magia. A mágica, neste sentido, não se refere a feitiços de contos de fadas, mas a uma explicação para o que parece ser um processo técnico extraordinário. Quando a destreza do artista vai além do que se pode entender, ela é interpretada como um conhecimento oculto ou uma "magia superior da escultura". O objeto de arte, portanto, carregaria o poder do "encanto", não só pela sua forma final, mas pelo mistério de sua criação. Em sociedades onde não existe o conceito de "belas artes" ocidentais, a arte tem uma eficácia social direta, manifestando-se em rituais e trocas. O virtuosismo do artista, nesse sentido, não seria mera habilidade, mas uma forma de criar assimetrias e influenciar o comportamento das pessoas, um poder que é percebido como mágico. Da Canoa Kula à Horticultura Trobriand: A Arte como Ação Mágica Alfred Gell ilustra sua teoria com exemplos etnográficos fascinantes. Nas canoas Kula dos Trobriand, as tábuas de proa ricamente decoradas, em sua concepção, não são apenas adornos; elas são instrumentos técnicos que, por meio de sua beleza e de sua capacidade de "perturbar" quem as observa, influenciam os parceiros de troca a oferecerem bens mais valiosos. A eficácia dessas tábuas, portanto, é interpretada como poder mágico, e a destreza do escultor é diretamente ligada a essa magia. O mesmo princípio se aplica à horticultura dos Trobriand, que Gell descreve como uma "obra de arte coletiva". A magia do horticultor é exercida através de "feitiços" (uma forma de arte verbal) demonstrando que a magia é uma habilidade de performance cultural. Nesses contextos, a magia não é vista como algo separado, mas como o "contorno negativo" da atividade técnica. A ideia de que um resultado pode ser alcançado com menos esforço do que o real é atribuída à magia, tornando a "tecnologia do encanto" visível. Em suma, a antropologia de Gell nos convida a ver a arte de uma maneira mais ampla: não como um objeto passivo a ser apreciado, mas como uma força ativa e mágica, intimamente ligada à produção técnica e com a capacidade de gerar eficácia social. Mas fica a pergunta: será que esse processo só acontece na arte? se ele acontece em outros contextos de interação social, por que alguns são chamados de arte e outros não?

  • Sobre cães, condomínios e o ente coletivo chinês

    Hoje, uma cena simples me fez parar para pensar. Em meu condomínio, como em tantos outros lugares, há um cachorro que vive solto. Ele late para carros, para pessoas, e não tem um dono visível. Mas quando surge uma reclamação, vários "donos" aparecem para defendê-lo. O curioso é que, apesar da defesa fervorosa, ninguém o leva para casa no frio ou na chuva. Essa dinâmica me levou a uma reflexão, inspirada pelos meus estudos sobre a coletividade na China. Em algumas sociedades, a coletividade não é só um amontoado de pessoas; ela age quase como um terceiro ente. Um corpo de interesse que está acima das partes em conflito. É como se a razão não fosse definida pelo grito mais alto, mas por uma régua comum a todos. Parece que em uma sociedade mais individualista, a solução do conflito fica inteiramente nas mãos das duas partes. É um jogo de poder, onde quem tem mais status ou dinheiro acaba impondo sua "verdade". É um tipo de "poder regulado" que não busca o bem comum, mas a vitória pessoal. No caso do cachorro, a ausência desse "ente coletivo" é clara. Não há um ponto de convergência que diga: a razão aqui é o bem-estar do animal e a harmonia do espaço. O conflito se resume a duas pessoas debatendo, e a "solução" vem de quem grita mais alto. Talvez a verdadeira força de uma comunidade não esteja nas regras escritas, mas, livre de idealizações, na existência de algo maior que o interesse de cada um. O que, obviamente não imprime uma ausência de conflitos, mas uma maneira diferente de resolução.

  • No coração de Chongqing: cinema e coletividade no SCO Film Festival 2025

    Recentemente teve o início do 2025 SCO Film Festival em Chongqing: mais de 1.500 cineastas e delegados de países membros reunidos para exibir o poder do cinema na China como ponte entre coletivos diversos.  Como não estou lá, imaginei a praça iluminada pelos projetores e os olhares atentos de jovens, embaixadores e profissionais do setor. No festival, foram exibidos longas-metragens que exploram temas de pertencimento, identidade e sacrifício, em sintonia com as narrativas nacionais de cada país participante, mas convergindo num roteiro comum: a valorização do 'nós' em contextos distintos. A China, quando convida outras nações a compartilhar suas histórias, me faz pensar em como esse festival funciona como uma expressão da própria noção de coletividade chinesa . Todos presentes, diplomatas, cineastas independentes, estudantes e a comunidade local, se emocionando diante de cenas que refletem suas diferenças, mas, ao mesmo tempo, elementos universais. Por outro lado, como pesquisador que também pensa nas relações étnicas, penso sobre até onde as minorias étnicas chinesas aparecem nesses longas. Será que, ao celebrar o cinema como vetor de cooperação regional, reconhecemos também as vozes internas menos hegemônicas? Quais filmes do festival trazem narrativas de minorias e coletivos periféricos , para entender como esses grupos se situam no grande espetáculo do cinema estatal e transnacional? Muito provavelmente há filmes étnicos nesse meio, mas como a questão étnica na China é compreendida como dada e não como exceção, nem sempre esses elementos são expostos como pontos atrativos de publicidade. Sai dessa leitura com a sensação de estar diante de um mapa em movimento. Plateias vindas de diferentes latitudes, constroem uma rede de significados em torno do 'todo'.  Fica a provocação: como o cinema pode ensinar a dançar no mesmo compasso, mesmo quando as origens são diversas?

  • O Chinese Film Week em Bruxelas

    Hoje acordei pensando no inevitável poder do cinema como elo entre culturas.  Li a notícia sobre o Chinese Film Week em Bruxelas, um evento que começou em 28 de junho no China Cultural Centre, com exibição de Endless Journey , e com debates que reuniram diplomatas, cinéfilos e pesquisadores europeus. Esses eventos, para além do que eles são, eventos de gala, me faz refletir em termos antropológicos sobre o que faz uma narrativa policial chinesa gerar ponte com o público europeu? Segundo os organizadores, entre lágrimas e aplausos, o filme revelou “valores universais” e uma lógica de justiça que ultrapassa fronteiras. E talvez seja isso que torna o cinema chinês um material rico para refletir coletivismo, porque ele não apenas mostra laços comunitários, mas exerce essa função simbólica globalmente. O gesto de apresentar uma obra dramática, que trata de justiça e sacrifício, no coração da diplomacia cultural em Bruxelas, representa uma estratégia chinesa de cooperação não só econômica, mas simbólica, por meio do soft power. É uma forma sutil de reforçar coletivismo. Ao valorizar o heroísmo em grupo, contamina a audiência estrangeira com certa lógica de pertencimento, ainda que vista de outro prisma. No meu estudo sobre etnicidades no cinema, essa iniciativa alimenta um olhar mais amplo. A China é um país plural (com suas minorias étnicas e "maiorias", costumes, crenças) que escolhe compartilhar narrativas valendo-se de temas universais para engajar outros coletivos. E o cinema, nesse sentido, dialoga com uma lógica parecida com a que percebo em outros contextos de análises: arte que traduz o próprio ser coletivo e se infiltra em outra comunidade, refletindo no imaginário compartilhado entre diferenças. Como pesquisador, com essa reflexão hoje me senti provocado. Devo olhar cada exibição internacional também como experimento social. E pensar sobre como as reações do público estrangeiro (diplomatas, entusiastas, migrantes) pode revelar tanto sobre percepções da China quanto sobre nossa capacidade humana de nos reconhecer na alteridade. Curioso para saber como Endless Journey será recebido em outras capitais e se haverá tradução desse storytelling coletivo em discussões acadêmicas?  Deixo no ar. Abraços.

  • Chegando ao topo: o clímax da caminhada pelas Montanhas Wudang (vídeo)

    Hoje compartilho o episódio mais importante do meu Vlog de Campo na China: a chegada ao topo das Montanhas Wudang, no lendário Palácio Dourado (Taihe). Essa conquista representa muito mais do que um simples roteiro de viagem, é a realização de um sonho que me acompanha desde a adolescência e que influenciou diretamente meus estudos em antropologia, cultura chinesa e performance. Depois de quatro horas subindo degraus entre paisagens de tirar o fôlego, finalmente cheguei ao auge da experiência. Registrei cada detalhe desse momento, com toda a emoção de quem sempre quis estar ali. Assista ao vídeo completo, veja como foi a chegada e descubra por que esse lugar é tão especial no imaginário chinês (e no meu também!) Se quiser acompanhar os outros episódios da viagem, confira a playlist completa aqu i.

  • O BRICS não gira em torno do umbigo liberal. Será que você tá pronto pra ouvir isso?

    A recente cúpula do BRICS no Rio de Janeiro reforçou um ponto frequentemente ignorado nas análises geopolíticas tradicionais: a disputa entre duas visões distintas do mundo, uma centrada na cooperação coletiva e outra no individualismo . Essa diferença, ainda que muitas vezes sutil, aparece claramente nas posturas adotadas pela China e pelo Brasil , especialmente durante o governo do presidente Lula . No início deste mês, a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, reforçou o compromisso chinês com o fortalecimento da cooperação multilateral entre os países do Sul Global . Ao enfatizar a importância da plataforma BRICS para a promoção do desenvolvimento comum e da governança global equitativa, ela destacou um princípio fundamental da cultura chinesa: o entendimento de que a força de um grupo vem da solidariedade interna e da colaboração mútua. Quem tem contato com chineses e com a cultura chinesa há muito tempo sabe que esse pensamento é algo presente na vida cotidiana, o que reflete naturalmente nas decisões políticas e diplomáticas. A própria expressão 相互帮助 (Xiānghù bāngzhù), que significa literalmente ajuda mútua, é um dos exemplos mais cotidianos e expressivos.  Ao contrário do que algumas análises feitas por ocidentais (e por países simpatizantes) podem sugerir, a defesa chinesa de um desenvolvimento coletivo não é simplesmente uma estratégia para obter vantagens unilaterais. É expressão genuína de um elemento sociorelacional mais profundo, que compreende que avanços reais e duradouros só podem ocorrer de forma conjunta e compartilhada. Essa abordagem, no entanto, embora facilmente compreendida como um elemento moral, não carrega necessariamente tais intenções. Chamo atenção aqui para um elemento que está presente na visão de mundo em diversos contextos não ocidentais, mesmo que a expressão da ideia coletiva ocorra respeitando especificidades locais. Ou seja, ela reflete práticas sociais internalizadas e comuns na vida cotidiana chinesa. O presidente Lula tem adotado uma postura semelhante em seu governo, tanto internamente, em políticas públicas que valorizam a inclusão e o desenvolvimento social coletivo, quanto na esfera internacional, promovendo um multilateralismo mais robusto. Sua posição frente ao BRICS reforça essa visão, o que se alinha à China na defesa da solidariedade internacional e na construção de uma ordem mundial baseada na justiça social e no desenvolvimento equitativo. Exemplo disso é a firme posição chinesa de apoio a Cuba frente às sanções unilaterais impostas pelos Estados Unidos. Ao defender que cada país deve seguir um caminho adequado às suas próprias condições e realidades, a China evidencia seu respeito às particularidades nacionais e à soberania dos povos , uma atitude que encontra ressonância direta nas falas e ações do governo brasileiro nos últimos anos. Essa perspectiva também revela a reação de alguns setores influenciados pelo pensamento ocidental , que frequentemente interpretam tais posturas cooperativas como “ameaças” ou estratégias ocultas de dominação. Curiosamente, se assemelha à dinâmica interna do Brasil, no que diz respeito às falas dos grupos mais críticos ao Lula . O que está em jogo aqui não são apenas ideologias políticas, mas visões radicalmente diferentes de mundo que transcendem a ideologia política engessada em direita e esquerda, embora sejam a sustentação de escolhas políticas significativas, expressas nessas ideologias. Enquanto o individualismo liberal ocidental desconfia do altruísmo genuíno nas relações internacionais porque opera em um sentido de que o outro, por natureza, seria seu opositor, a mentalidade coletiva chinesa – e agora também a brasileira sob Lula – enxerga a colaboração não como fraqueza, mas como a única base sólida para um progresso real e duradouro . Vale acentuar que, justamente por não ser uma escolha moral (mesmo quando justificada dessa forma por alguns atores políticos), não existe garantia de que tal visão de mundo esteja já consolidada, sustentada em uma cultura engessada e imutável. Ela precisa ser constantemente reafirmada para que o movimento político ganhe esse aspecto. Tal como há anos, ou melhor, séculos, é feito com a visão de mundo liberal que coloca o " todos contra todos " como uma condição natural da existência humana . Considerando a dinâmica onde a premissa das relações dominantes já se estabeleceu como norma natural, o coletivismo ressurge como uma visão própria de mundo, mas se sustenta na dinâmica relacional quando acionada de forma deliberada. Deixo você com esse vídeo onde uma chinesa jovem foi perguntada sobre as diferenças entre os sonhos dos chineses e dos estadunidenses. Ele expressa bem o que foi argumentado aqui. Nesse cenário, a  cúpula do BRICS  realizada no Brasil em julho não foi apenas um evento diplomático, mas uma ilustração viva da coexistência de múltiplas visões sobre o papel dos países no mundo. Mais do que economia ou disputas políticas, foi o palco onde duas abordagens culturais profundas emergiram com clareza. Até que ponto estamos preparados para reconhecer e valorizar perspectivas que transcendem nossa própria socialização? Abraços.

  • 120 anos sem Hollywood: O que o cinema chinês tem que você nunca viu?

    O ano de 2025 é simbólico, pois a China celebra 120 anos de cinema . O mês de julho virou pauta na imprensa asiática depois que o presidente Xi Jinping, em carta aberta a cineastas, reforçou a importância de criar obras que expressem o “espírito da época”, uma espécie de convite para que o cinema chinês siga impulsionando às transformações culturais e políticas do país. Espectadores de cinema assistem ao sucesso de bilheteria de animação chinês "Ne Zha 2" em Shangai, China, em 29 de janeiro de 2025. /VCG (CGTN) Falar das gerações do cinema chinês é, mais do que uma linha do tempo, um mergulho na relação entre política, arte e coletividade. Os primeiros filmes, lá de 1905, ainda tímidos e fortemente influenciados por estilos ocidentais (embora também relacionado fortemente ao tradicional teatro das sombras), traziam um olhar que misturava modernidade importada e cotidiano local. Até o início dos anos 1930, muito desse cinema ainda estava relativamente fora de uma lógica política engajada, mas, curiosamente, os dilemas em torno do coletivo já apareciam nas telas, às vezes de modo indireto, outras vezes como pano de fundo para discussões sobre papeis de gênero , tradição e mudança. Com a chegada dos anos 1930, o cinema chinês passa a ser atravessado pelas divisões políticas internas. É nesse período que se convencionou falar em “cinema de direita” e “cinema de esquerda”. Não se trata, aqui, de importar as categorias como as usamos hoje, mas de entender que essas divisões traduziam os embates e projetos de país daquele momento histórico. O interessante é notar que, mesmo em lados opostos, o tema da coletividade nunca deixava de ser central. Não havia aquela obsessão pelo indivíduo heroico típico de Hollywood ; o foco estava sempre no grupo, na família, na ideia de nação em disputa. Essa dinâmica de absorver influências externas também tinha bastidores. Já no início do século XX, o cinema ocidental era visto como ferramenta estratégica para os interesses das potências que atuavam na China, entre elas, EUA e Japão. Antes mesmos da revolução socialista de 1949, segundo pesquisas, de figuras institucionais dos EUA realizando pesquisas para entender a aceitação do cinema ocidental e encontrar maneiras de consolidar o “american way of life” nas telas chinesas. O cinema era parte da engrenagem geopolítica e, ao mesmo tempo, um espaço de resistência e reinvenção. Após 1949, com a fundação da República Popular da China , o cinema passou por novas inflexões, ora como instrumento oficial de construção do coletivo socialista , ora como campo de disputa simbólica. Da chamada “quinta geração” nos anos 1980, com filmes como Yellow Earth , que revolucionaram a linguagem ao unir paisagem, silêncio e crítica social, até a explosão recente de animações e superproduções épicas como, a coletividade que está imersa em elementos profundos da sociedade chinesa, segue atravessando narrativas, estéticas e projetos com estética contemporânea. Falar das gerações do cinema chinês , é reconhecer que a coletividade nunca deixou de ser questão central, mudando de cor, de tom, de linguagem, mas sempre presente, seja nos grandes épicos, nos dramas urbanos ou nas animações de bilheteria recorde. Depois da chamada “ quinta geração ”, vieram novos movimentos: cineastas da sexta geração , como Jia Zhangke , exploraram o cotidiano urbano, o deslocamento social e as transformações do país, muitas vezes com narrativas mais intimistas, porém sem perder o pano de fundo coletivo. O indivíduo aparece, mas sempre em diálogo com os efeitos das mudanças sociais mais amplas. Nos anos 2000 e 2010, o cinema chinês também se abriu a gêneros populares, superproduções históricas, blockbusters e animações como Ne Zha (2019) e Ne Zha 2 (2025), que trouxeram temas tradicionais para o centro do consumo de massa e reafirmaram o potencial da cultura local de dialogar com o mundo.  O sucesso recente de filmes épicos, de guerra ou animações digitais não é apenas resultado de uma indústria poderosa, mas também de uma busca constante de conexão com a identidade coletiva, seja celebrando figuras históricas, recontando mitos ancestrais ou abordando desafios contemporâneos . O convite de Xi Jinping neste aniversário de 120 anos é, no fundo, uma atualização desse mesmo debate. Como transformar o cinema em expressão viva do que pulsa no coletivo chinês? E como as diferentes gerações de cineastas vêm lidando com essa tarefa, seja revisitando o passado, como exploro na minha  pesquisa sobre o cinema até 1949 , ou projetando novas possibilidades para o futuro? Qual geração do cinema chinês mais te provoca ou emociona? E o que isso diz sobre o que buscamos, como sociedade, em tela?

  • Identidade étnica vai além do que você imagina, principalmente na China.

    Em meados de julho de 2025, no condado de Yanbian, província de Sichuan, a comunidade Yi se reuniu para celebrar o tradicional Festival das Tochas, uma festividade que alguns chamam de “Carnaval do fogo” chinês, considerado hoje um patrimônio cultural imaterial. O Festival originou-se da adoração do fogo pelos ancestrais e tem sido seguido por mais de 1.000 anos. Foto da performance de Dorohe por Wang Yulin. Embora festas coletivas façam parte de muitas culturas, o que chama atenção aqui é o modo como essas manifestações são parte viva da identidade desses grupos, um contraponto ao olhar muitas vezes associado a uma China homogênea e hi-tech . Durante o festival, com suas fogueiras comunitárias, danças étnicas, cantos tradicionais, competições populares, percebemos um princípio forte de coletividade ritualística. No entanto, isso não se trata apenas de entretenimento ou uma performance estética, mas uma reafirmação anual de pertencimento étnico, de conexão com membros do grupo e com a terra ancestral. É através dessas cenas, da chama partilhada e de todo ritual coletivo que a comunidade Yi reafirma seu lugar dentro e além da narrativa mais ampla da China contemporânea. Para quem acompanha debates sobre relações étnicas na China, esse evento mostra que minorias não são meramente “peças alegóricas” dentro da identidade nacional, e tampouco existem descoladas da ideia de país. Assim como qualquer agrupamento social (considerado étnico ou não), através de rituais afirma sua própria história e provoca reflexões. No caso de um povo minoritário que sempre está em contraponto a identidades mais normatizadas, o povo Yi (tal como os povos indígenas brasileiros) afirma valores sobre diversidade, identidade e coletividade, primeiro como diferencial dentro de um Estado unitário, segundo como identidade partilhada com a identidade nacional. A partir da minha pesquisa sobre coletividade no cinema chinês até 1949, posso traçar uma conexão interessante. Tanto no filme comum da época quanto nos eventos étnicos, o coletivo sempre se expressa como experiência de sentido e marcador identitário, para além da própria etnicidade enquanto diferença. Isso acontece porque o coletivo é sempre acionado como valor compartilhado que mantém a coesão social na China. No cinema, isso ocorria tanto em filmes considerados conservadores quanto naqueles chamados de "cinema de esquerda". A disputa era pelo sentido de coletivo e não entre indivíduo e sociedade. Nesse sentido, o festival pode ser usado como provocação ao olhar ocidental, tão acostumado a ver a relação entre indivíduo e sociedade como algo "naturalmente" hostil. Nos filmes da primeira metade do século XX, a estranheza pode vir de não encontrar um “herói solitário” no centro da cena, mas narrativas coletivas que ganham sentido e, ao mesmo tempo, reforçam a identificação dentro da teia social. No caso do ritual do povo Yi, a provocação surge da não oposição entre etnicidade e nação, ou seja, na consolidação de uma identidade local que compartilha uma identidade coletiva mais ampla, reconhecida hoje como identidade nacional. É muito importante que enxerguemos tais festejos de forma mais ampla e menos alegórica. Esse olhar, embora muitas vezes parta de um genuíno desejo de valorização, acaba, sem perceber, por engessar esses grupos em um lugar exótico e distante da contemporaneidade, o que não é verdade. Sobretudo na China, onde as pessoas têm consciência de sua origem étnica, mantêm suas práticas e idiomas regionais, ao mesmo tempo em que articulam sua participação nas decisões políticas do país. Mesmo que, na China, isso seja óbvio devido à própria formação da identidade nacional com base em um conceito inclusivo de nação (pesquise por Mingzu Zhuyi, 民族主义), em contextos ocidentais palavras como “nação”, “etnicidade” e “identidade nacional” podem possuir sentidos muito particulares, que não devem ser usados para explicar dinâmicas não ocidentais. Vou deixar aqui a matéria completa sobre o festival, que me inspirou a fazer esta breve reflexão.

  • O que é etnografia multissituada?

    Hoje vou postar algo mais técnico, que talvez apenas aqueles imersos no ambiente antropológico vão se interessar. Mas, como este lugar é também para falar sobre pesquisa, abordar métodos faz parte do escopo.  Wudangshan. Acervo pessoal. Para quem não está familiarizado com os debates mais antropológicos, talvez seja interessante perceber o universo por trás das falas de um cientista social que o diferencia do simples achismo sobre comportamento humano. Falar sobre etnografia multissituada envolve meu trabalho de pesquisa, e resolvi escrever este post porque, embora não seja algo novo, muitos colegas estudantes de graduação ainda têm dúvidas sobre os elementos mais básicos desse método e como ele se diferencia dos métodos tradicionais de pesquisa antropológica . Embora eu já esteja envolvido com assuntos relacionados à China desde os 14 anos, foi com base na etnografia multissituada que fiz uma viagem pela China com objetivos mais antropológicos, passando por várias cidades e contextos diferentes, depois de uma imersão de mais de três anos em ambientes digitais, onde me conectei com chineses, fiz amizades e desenvolvi reflexões relacionadas à minha pesquisa de doutorado. O método antropológico Historicamente, a antropologia se caracterizou e se consolidou em torno do trabalho de campo intensivo e de longo prazo em uma única localização geográfica, muitas vezes com foco em comunidades consideradas "isoladas" ou "autônomas", o que ajudou a construir a imagem do antropólogo como alguém que não está imerso apenas em salas de aula universitárias, usando terno e decorando fala de autores. Franz Boas, um antropólogo alemão conhecido como o pai da antropologia estadunidense e muito associado ao relativismo cultural, realizou pesquisas aprofundadas com grupos específicos, como os Kwakiutl e os esquimós, priorizando a compreensão detalhada de suas culturas em seu próprio contexto, em oposição a comparações abstratas ou generalizações. No momento em que Boas defendeu a importância de reconhecermos culturas sem um viés hierarquizante (final do século XIX), estava dialogando com o evolucionismo cultural, uma maneira de compreender culturas que orientava, inclusive, decisões geopolíticas de invasão a outros países ou, internamente, em países como o Brasil, que adotava o eugenismo no início do século XX. Ele era contra "abstrações rígidas" e "classificações de gênero e espécies culturais". Essa abordagem, hoje vista como tradicional, visava a uma compreensão holística de uma cultura delimitada. No entanto, o tempo passa, e as metodologias precisam sempre, como as de Boas, refletir as necessidades do seu tempo. O contexto para uma nova abordagem antropológica A necessidade de ir além do estudo de um único "campo" ou "cultura" começou a ser teorizada à medida que a antropologia passou por uma "crise da autoridade etnográfica". James Clifford, antropólogo e historiador estadunidense, nascido em 1945, discutiu como as representações etnográficas são construídas e como a autoridade do etnógrafo no campo precisava ser questionada, sugerindo que as realidades sociais são compostas por "múltiplos discursos" e perspectivas diversas, que não podem ser reduzidas a uma única essência ou dicotomia. Embora Clifford não use o termo "multissituada", sua crítica à "autoridade etnográfica monogâmica", ou seja, que se refere à ideia de uma única voz ou perspectiva dominante na descrição de uma cultura ou comunidade, aponta para as limitações de confinar a pesquisa a um só lugar. Ele deu ênfase à complexidade, às relações de poder e à maneira de construir o conhecimento etnográfico, abrindo caminho para metodologias que reconhecem a interconexão e a fluidez das culturas num mundo cada vez mais globalizado. Mas o que é então etnografia multissituada? A etnografia multissituada , dentro desse contexto, é uma metodologia de pesquisa antropológica que busca investigar fenômenos culturais e sociais que não se confinam a uma única localidade geográfica. Em vez de focar intensivamente em um "campo" singular e delimitado, ela acompanha pessoas, objetos, ideias, conflitos ou processos culturais através de suas múltiplas manifestações e interconexões em diferentes locais. Ela se faz necessária quando estamos pesquisando fenômenos que, se observados em apenas uma localidade, seriam insuficientes para perceber tanto sua variação quanto sua atuação em diversos contextos, onde os grupos sociais se diferenciam; por isso, transcendem as fronteiras geográficas. Sendo bem objetivo, as características são: Rastreamento de processos: a pesquisa segue um fenômeno em vez de uma fronteira geográfica fixa. Por exemplo, pode-se rastrear a produção e o consumo de um produto global, a migração de um grupo de pessoas, ou a disseminação de uma ideia política ou religiosa. Múltiplos "campos": o "campo" etnográfico é expandido para incluir diversos locais onde o fenômeno de interesse se manifesta ou é impactado, como cidades de origem e destino de migrantes, locais de produção e venda de mercadorias, ou diferentes centros de ativismo. Conexões e fluxos: a ênfase está nas relações, interações e fluxos que conectam esses locais, revelando como a cultura é moldada por processos transnacionais, globais e interligados. Descentramento: não há um único centro de análise ou um "campo" primário, mas uma rede de lugares e interações que formam o objeto de estudo. Como a etnografia multissituada se encaixa nas metodologias de pesquisa antropológica? A etnografia multissituada representa uma resposta às críticas e desafios enfrentados pela antropologia no final do século XX e início do XXI. Assim como Boas refletiu seu momento, ela também oferece uma maneira de compreender fenômenos pertinente aos tempos atuais, onde a vida online e offline se confundem e o trânsito de pessoas entre diferentes localidades é intenso. Surgiu da necessidade de compreender realidades que a etnografia tradicional, focada em comunidades delimitadas, não conseguia capturar adequadamente. No entanto, o termo "multissituada" se consolidou nos estudos antropológicos a partir do artigo "Ethnography in/of the World System " (1995), publicado pelo antropólogo estadunidense George Marcus, que abordou a necessidade de se estudar sistemas mundiais. Assim, vale apresentar alguns elementos contemporâneos que fundamentam novos métodos de pesquisa antropológica : Globalização e mobilidade: vivemos hoje em um mundo onde pessoas, bens, informações e culturas se movem constantemente, tornando o estudo de um único local insuficiente para entender fenômenos complexos. Superação do essencialismo cultural: a etnografia multissituada ajuda a desconstruir a noção de culturas como entidades estáticas e isoladas, mostrando como elas são formadas por interações e trocas contínuas — um tema que, como vimos, Clifford já abordava teoricamente com a "heteroglossia" e a crítica a visões reducionistas. Resistência à abstração: embora Boas defendesse o estudo detalhado em campo para evitar abstrações, a etnografia multissituada, ao conectar diferentes locais, ainda busca o detalhe etnográfico, mas em uma escala expandida, evitando generalizações vazias ao fundamentá-las em interconexões concretas. Em resumo, enquanto a tradição antropológica, exemplificada pelo trabalho de Boas, se concentrou em estudos aprofundados de um "campo" específico e bem delimitado, a emergência de discussões sobre a complexidade e a natureza multifacetada dos fenômenos culturais — como as abordagens críticas à autoridade etnográfica de Clifford — abriu caminho para a necessidade de acompanhar os fenômenos culturais através de seus múltiplos locais de manifestação e interação, reconhecendo que a "cultura" não é mais uma entidade estática, mas um processo dinâmico de sentidos interconectados. Por fim, embora este texto seja um resumo que buscou apenas iniciar um entendimento sobre o método, e por isso tenha deixado de citar muitos autores e debates para que não ficasse enfadonho e pesado para leitores não acadêmicos, acredito que ele já oferece uma boa introdução. Pense na etnografia multissituada como um detetive seguindo uma pista por várias cidades interligadas por diferentes meios de transporte e comunicação, em vez de investigar apenas a cena de um único crime. O antropólogo, dentro desse exemplo, vê a cena do crime, mas entende que as provas estão espalhadas por diferentes tipos de pessoas e locais. Cada localidade oferece uma peça do quebra-cabeça, e é a conexão entre essas peças dispersas que revela a imagem completa e complexa do fenômeno estudado.

  • Por que a China "quer" Taiwan? O que ninguém te conta

    A pergunta “ por que a China quer Taiwan? ” está presente em debates de redes sociais e reportagens de grandes portais de notícia, mas carrega uma armadilha conceitual difícil de escapar. Não se trata de uma dúvida neutra. Ela nasce de um "senso comum" construído por décadas de disputas geopolíticas , pressões externas e campanhas midiáticas que tratam Taiwan como “algo separado”, uma espécie de “anti-China” ou território à parte, cuja integração ao continente seria desejo recente, ligado ao socialismo ou a projetos expansionistas de Pequim. No entanto, um olhar atento à história revela que essa formulação ignora não só o processo histórico, mas o modo como a coletividade chinesa se entende e se organizou ao longo dos séculos. Raízes históricas e o pertencimento coletivo É um fato que a  relação entre a China continental e Taiwan está marcada por disputas ideológicas , mas o elemento central é que, durante a maior parte da história anterior à Revolução Popular, Taiwan foi compreendida como parte do mesmo corpo político e cultural. A cisão atual não resulta de um movimento separatista autônomo, mas do desfecho da Guerra Civil Chinesa, em 1949 , quando o governo nacionalista do Kuomintang (KMT), derrotado pelo Partido Comunista Chinês (PCC), se retirou para a ilha de Taiwan, levando consigo a estrutura administrativa da antiga República da China . A partir desse momento, duas administrações passaram a reivindicar a legitimidade do nome “China”. O Ocidente, sobretudo os Estados Unidos, optou por reconhecer Taiwan como legítima representante em fóruns internacionais, não por uma avaliação neutra sobre a história ou o direito, mas como parte da estratégia de contenção do comunismo e de isolamento da recém proclamada República Popular da China (RPC). Mesmo que Taiwan jamais tenha deixado de ser entendida pelos próprios chineses e por grande parte do mundo até os anos 1970, como pertencente a uma mesma entidade nacional, ainda que sob governos rivais. A disputa internacional e a inversão de papéis O que a pergunta que estrutura este post, “ por que a China quer Taiwan? ”, omite é o contexto imperialista do início do século XX, quando potências como Japão, Reino Unido, França e, posteriormente, Estados Unidos, dividiram a China em zonas de influência e buscaram moldar o destino do país.  Cedida ao Japão em 1895, após a derrota da dinastia Qing, a ilha de Taiwan só foi reincorporada ao território chinês no fim da Segunda Guerra Mundial , em 1945. Poucos anos depois, devido à guerra civil interna e à intervenção ocidental, a administração da ilha ficou separada do continente, mas nunca houve, da perspectiva chinesa, uma ruptura definitiva do pertencimento. O desconhecimento das pessoas desse período histórico (e anteriores) acaba por reforçar a leitura recente de invasão. Charge do início do século XX mostrando como os países ocidentais viam a China como um grande bolo a ser dividido. A lógica que se institui nesse contexto é de acusação invertida. Na defesa do poder ocidental sobre países periféricos, aqueles que historicamente ocuparam, fragmentaram e tentaram controlar a China, passaram a chamar de “invasora” a parte que resistiu à fragmentação. A insistência em tratar Taiwan como “outro país”, nesse sentido, responde mais ao desejo de manter uma ordem global favorável aos seus próprios interesses do que a um diagnóstico fundamentado na história local. Trata-se de uma narrativa em que o ocidente reivindica para si o direito de nomear e legitimar governos, enquanto recusa à China o direito de solucionar, segundo suas próprias matrizes, suas pendências históricas e simbólicas. Coletividade e unidade: o olhar chinês sobre si Para entender de fato a questão, é preciso perceber que, no imaginário chinês, tal qual a qualquer sociedade que não foi impregnada ao extremo com o individualismo liberal , a identidade coletiva está diretamente relacionada ao sentido de como o indivíduo interage no grupo e como este compreende a si e o todo. O pertencimento à coletividade não é mero dado ideológico, mas um elemento estruturante do cotidiano e da organização política desde antes da modernidade . Isso se expressa tanto em políticas estatais quanto nas formas como o cinema, a literatura e a própria vida urbana e rural são organizadas. Mesmo as diferenças regionais e étnicas são, em geral, mobilizadas em prol de uma unidade inclusiva, e não como fatores de ruptura. A individualidade (considerando a construção do indivíduo como ser social), ou identidade (como este indivíduo ou grupo se identifica em relação ao que considera diferente) existe em relação e não como negação do Outro. No caso chinês, a coletividade, longe de ser uma invenção do socialismo, é parte de uma trajetória que atravessa milênios. Basta recordarmos como se deu os processos dinásticos, as rupturas e acomodações das diversas identidades étnicas em prol sempre de uma unidade projetada na força do Estado. Nesse contexto, a ideia de “reunificação” com Taiwan não significa um projeto de conquista expansionista de um " regime autoritário ", mas sim a resolução de uma pendência histórica produzida artificialmente pelas guerras (bélicas e ideológicas) do século XX. Trata-se de um processo de reconstrução de uma totalidade que, para os chineses, jamais deixou de existir no plano simbólico, ainda que tenha sido fragmentada no imaginário global ao longo das décadas da segunda metade do século passado, através do isolamento geopolítico e midiático imposto ao país. A persistência da narrativa ocidental É fundamental notar que o Ocidente, no início do século passado, não só ocupou a China militarmente e economicamente, mas também tentou impor sua visão de mundo, sua lógica liberal individualista e suas categorias de análise. Na minha pesquisa sobre o cinema chinês da primeira metade do século XX , tem ficado claro o quanto ele foi utilizado no início como recurso de imposição narrativa do ocidente, passando a ser utilizado pelos chineses da mesma forma política e com mais força, a partir de 1930. Há artigos que mencionam, inclusive, pesquisas sobre o mercado chinês cinematográfico deste período, feitas por agentes dos Estados Unidos, seguida de um aumento dos filmes estadunidenses exibidos.  Nesse sentido, o discurso segundo o qual Taiwan seria “vítima” de um desejo de conquista chinês, é parte dessa construção. Ou seja, inverte papéis históricos e apresenta como natural uma divisão recente e artificial.  É importante colocar também que propagam tais discursos conscientes de que as relações sociais e os sentidos simbólicos compartilhados, se transformam conforme as dinâmicas políticas de poder, fazendo com que a insistência e propagação da mesma narrativa, impacte, sobretudo, os próprios chineses de Taiwan, aumentando a possibilidade de transformação de uma artificialidade em uma realidade concreta.   O que se vê, portanto, não é uma “ China querendo Taiwan ”, mas uma China que nunca deixou de considerar a ilha parte de si, enquanto potências estrangeiras tentam transformar a exceção da guerra civil do período anterior a 1949, em norma, perpetuando a divisão para atender a seus próprios interesses geopolíticos e econômicos atuais. Mapa da China do império Qing (1644-1912) Assim, responder à pergunta “ por que a China quer Taiwan? ” exige antes de tudo recusar a própria premissa da dúvida. O que está em jogo não é um desejo expansionista , mas a afirmação de uma continuidade histórica, de um projeto coletivo que resiste à fragmentação imposta de fora até hoje. No centro do debate está a disputa por narrativas. Enquanto o Ocidente insiste em legitimar a separação como estado permanente, a China reivindica o direito de recompor, nos seus próprios termos, no seu próprio tempo, a unidade de sempre. Se há algo a aprender com a história da relação China-Taiwan , é que as categorias com que olhamos o mundo não são universais. As histórias contadas pelos veículos de comunicação de massa, mesmo que sob o manto de representarem o "Mundo Livre", não necessariamente são neutras, expressando uma verdade absoluta e irrefutável. Em certos contextos, o pertencimento coletivo, a memória histórica e a resistência à fragmentação são tão centrais quanto os valores individuais que o próprio Ocidente costuma projetar como norma global. No entanto, o mundo está se transformando e novos sentidos hoje ganham forma na união do Sul Global , na figura dos BRICS .

  • Relações étnicas na China: diversidade, conflitos e o papel das minorias

    As relações étnicas na China hoje são resultado de processos históricos longos e políticas de Estado centradas na ideia de unidade nacional em meio à diversidade.  O país reconhece oficialmente 56 grupos étnicos, sendo os Han a maioria absoluta, com cerca de 92% da população. Os outros 55 grupos são classificados como minorias nacionais. A lógica estatal é de “ unidade na diversidade ”, conceito trabalhado por Fei Xiaotong  (antropólogo pioneiro na China do início do séuclo XX), no qual a nação chinesa seria composta pela união dessas etnias , cada uma com suas particularidades, mas integradas ao projeto nacional . A Constituição da China garante igualdade étnica, autonomia regional e defende políticas de equidade, incluindo sistemas próprios de administração em áreas de maior concentração de minorias, formalizados desde 1984. O nacionalismo, nesse contexto, não é só instrumento de identificação coletiva, mas também de manutenção da integridade territorial e da estabilidade do Estado. O termo Zhonghua minzu, “nação chinesa”, foi consolidado durante a resistência à invasão japonesa e passou a incluir todas as etnias como parte desse coletivo. Mapa das regiões autônomas chinesas Apesar da ênfase na diversidade, a centralidade cultural Han marca as dinâmicas sociais e políticas do país. O etnocentrismo Han é antigo, alimentado por mitos fundadores e tradições Huaxia , muitas vezes tratado como referência principal da história chinesa. O termo Huaxia (华夏), nesse sentido, faz referência ao povo original que habitava o Zhongyuan (Planícies Centrais), a região entre os rios Amarelo e Yangzi, considerada o território ancestral do povo chinês. Mapa mostrando a região entre os rios Amarelo e Yangzi. O confucionismo , por sua vez, defendia um universalismo cultural, não étnico (o conceito de etnicidade é posterior), que facilitava processos de assimilação de grupos externos. O resultado é uma política oficial que permite diversas expressões, mas, ao mesmo tempo, é frequentemente criticada por favorecer uma tendência à homogeneização cultural e linguística. Há, inclusive, estudos atuais de cientistas sociais chineses que pesquisam essa interação, com trabalhos de campo envolvendo o impacto do idioma oficial em práticas e usus de idiomas locais. Nos debates externos, especialmente em análises ocidentais, as críticas se concentram em episódios de repressão e tensão envolvendo grupos como uigures , tibetanos , hui e  mongóis , localizados principalmente em regiões periféricas . Os conflitos nessas áreas, marcados por episódios de violência desde os anos 1980, são tratados pelo Estado chinês como casos isolados e, muitas vezes, associados a células terroristas. A repressão de práticas religiosas, a censura na internet e acusações de violação de direitos humanos são temas recorrentes no noticiário internacional ocidental. Essas críticas, no entanto, partem de perspectivas externas, muitas vezes influenciadas por agendas geopolíticas . O discurso do “país fechado” contrasta com o cenário real: a China é hoje um dos países com maior uso de internet no mundo, e há ampla circulação de informações e experiências, tanto dentro como fora do país. Mesmo que tenha sido pioneira na regulamentação das redes e na compreensão dos dados do usuário como instrumento de poder internacional, as medidas restritivas estão ancoradas em sua legislação; algo que, no início era visto como autoritário, mas atualmente tem sido debate em diversos países, inclusive no Brasil.  O receio ocidental sobre o risco de fragmentação territorial também aparece em discussões sobre autonomia regional , que, para alguns, seria um passo para movimentos separatistas, mas a percepção sobre identidade e diferença dentro da China é distinta daquela promovida por olhares estrangeiros. O conceito de mingzu zhuyi (民族主义), usado no momento de elaboração para articular a questão nacional, no momento de sua elaboração refletia tanto tendências inclusivas quanto problemáticas típicas do início do século XX, como, por exemplo, a influência do evolucionismo social ao se tratar de diferentes grupos sociais e das ideias de raça atreladas a essa concepção. Seu desdobramento até os usos atuais, também passam por análises de antropólogos chineses que problematizam seu uso e a relação com unidade nacional e o próprio Estado. Etnia chinesa Dong Na prática, o nacionalismo chinês contemporâneo não pode ser entendido apenas como imposição de homogeneidade. A história das relações entre grupos étnicos na China  precisa ser compreendida não apenas como uma dinâmica sociológica, mas, sobretudo, atravessada por sentidos simbólicos. A manutenção da unidade passa menos por moralidade ou ideologia e mais por um imaginário históricos fundamentado na necessidade de garantir subsistência, estabilidade e resposta a crises, como desastres naturais. Mesmo que tais aspectos não sejam acionados hoje de forma objetiva, ele cria uma dinâmica complexa, em que conflitos existem, mas não podem ser reduzidos a um esquema simples de opressão estatal versus diversidade ameaçada. Essa dicotomia pode funcionar em países ocidentais e aqueles influenciados consideravelmente por eles na formação dos seus Estados nacionais , mas não todos os países. A questão do orgulho nacional é outro ponto de tensão entre discursos. Enquanto a mídia internacional costuma enfatizar o aspecto repressivo das políticas chinesas, pesquisas apontam que o sentimento de pertencimento e orgulho de “ser chinês” é elevado, inclusive entre grupos de minorias. A afirmação étnica e os conflitos, nesse sentido, não significam necessariamente rompimento com a ideia identidade nacional , mas uma reivindicação de que essa unidade atue e aja conforme suas demandas.  No campo acadêmico, a etnologia e antropologia chinesa buscam fundamentar uma narrativa nacional baseada em “características chinesas”, recorrendo tanto a abordagens ocidentais e marxistas quanto a dados arqueológicos e genéticos para justificar a integração dos diferentes grupos. O panorama geral é de um campo marcado por contradições e disputas de sentido, tal como qualquer sociedade. A política oficial enfatiza a unidade na diversidade, mas a predominância Han, os dilemas de integração e as pressões externas mostram que as relações étnicas na China são atravessadas por tensões reais, sem respostas simples ou interpretações unilaterais. O olhar sobre esse tema precisa considerar tanto as dinâmicas internas quanto a influência dos discursos externos. No entanto, em termos de soberania, é preciso defender sempre que cada país têm o direito de lidar com suas questões internas sem que uma régua moral imposta seja utilizada para esconder interesses de países dominantes. É importante considerar o processo histórico Encerrar o debate sobre relações étnicas na China a partir de categorias como “autoritarismo” ou “falta de liberdade” é insuficiente para compreender o que está em jogo. A construção da unidade nacional não nasce com o socialismo de 1949. O tema já era central no final do século XIX, quando as pressões externas e as insatisfações populares cobravam da dinastia Qing uma resposta mais eficaz diante das ameaças estrangeiras e da fragmentação interna. Ao longo da história chinesa , os ciclos de ascensão e queda das dinastias têm como marca recorrente a tensão entre grupos internos, sempre seguidos pelo esforço de uma nova dinastia em buscar uma acomodação capaz de reduzir conflitos e restabelecer uma base comum. O confucionismo , reinterpretado ao longo dos séculos, foi elemento chave nesse processo, funcionando como eixo de equilíbrio das diferenças internas e oferecendo modelos para o manejo das relações hierárquicas e para o controle das disputas. Esse padrão relacional não desapareceu. Ele atravessou períodos de paz e crise, sobreviveu às revoluções e foi reconfigurado por novas ideologias e sistemas políticos , mas nunca deixou de atuar como referência. No início do século XX, a demanda pela unidade nacional foi incorporada pelas forças republicanas e, depois, pela Revolução Popular de 1949 , como resposta à percepção de incapacidade do antigo regime de manter a integridade do território diante das ameaças externas.  Nesse sentido, reduzir os conflitos étnicos atuais à ideia de “rachaduras” no governo ou ao fracasso de uma política recente ignora o fato de que a gestão das dinâmicas internas, inclusive por meio de legislação específica sobre grupos étnicos, é parte constitutiva da história do Estado chinês desde dinastias antigas, como a Tang. Por fim, para analisar a China contemporânea, é preciso abandonar o filtro que reduz experiências históricas a dicotomias como liberdade versus autoridade . A complexidade do cenário exige um olhar atento à longa duração dos processos, à especificidade das soluções chinesas e à natureza relacional que marca tanto o confucionismo quanto o próprio Estado chinês. Isso não significa negar conflitos ou dificuldades, mas compreender que eles não representam uma falha do sistema, e sim um traço estrutural da história da China.

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