O caso do cão Orelha me lembrou os biquinhos-de-lacre
- Nino Rhamos
- há 3 dias
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Esses dias chegou até mim o caso do cão Orelha e o lamentável ocorrido me fez lembrar da minha infância. Sim, porque muito tem se questionado a capacidade de uma criança ou adolescente ter ou não consciência do que faz e se, por isso, deva ser responsabilizado.
O caso é inegavelmente terrível e, como acredito que todos já sabem do ocorrido, não vou me ater a problematizar o que meio mundo já está fazendo.
Diante da enxurrada de informações sobre o tema que chegam por toda parte, me lembrei de quando era criança, com uns 8 ou 10 anos, e tínhamos o hábito de pegar um tipo de passarinho comum no meu bairro de classe média baixa do Rio, o bico-de-lacre, que chamávamos carinhosamente de biquinho-de-lacre.
Todos nós, todos beirando a mesma idade, em um momento da infância, passávamos horas esperando nossas armadilhas pegarem os tais passarinhos, admirados por terem um bico vermelho contrastando com o corpo cinza e o peito avermelhado. Somado a um olhar atentamente fofo, como o de praticamente todo passarinho, aquilo despertava uma vontade de obter. Claro, não era para eliminar, mas para ter em gaiolas.
Às vezes me assusto com a engenhosidade das crianças e até hoje não sei como desenvolvemos armadilhas tão eficientes. Pegávamos vários e, aos poucos, começamos a compor uma coleção de gaiolas em casa.
Aquilo virou uma febre, mas que durou pouco. Me lembro que a fofura despertada pelo pássaro começou a ser contrastada com um sentimento de culpa. Eu não sabia nomear o sentimento como hoje, adulto, mas me lembro que era uma profunda dor pelo que tínhamos feito.
Quando passeava pela varanda da minha casa pela manhã, renovava a água e a comida, limpava o fundo e os observava. Todos ali, quietinhos esperando algo e, aos poucos, conforme os dias passavam, eu imaginava como eles estavam se sentindo. Eu os havia retirado do céu e agora estavam ali, como um brinquedo à minha disposição, presos.

Esse sentimento hoje compreendo como empatia, compaixão; uma capacidade de se colocar no lugar do outro que me despertou de forma súbita. Talvez tenha sido esse sentimento que faltou aos garotos que mataram o cão Orelha. Uma incapacidade de olhar para o animal e reconhecer nele a própria vida.
Poderíamos aqui ficar criando teorias sobre o momento atual, sobre a influência dos pais, sobre o impacto das redes sociais ou mesmo o velho saudosismo de botequim, analisando como antes era melhor do que hoje. Mas a falta de empatia é o problema. A incapacidade de reconhecer humanidade no próximo opera como norma em alguns grupos sociais, e esses garotos certamente refletem um modus operandi naturalizado. Isso, sim, é um problema real — e muitos dos que atuam assim defendem politicamente a palavra "liberdade".
E meus biquinhos-de-lacre? Bom, não demorou e um belo dia, também pela manhã, abri todas as gaiolas e os soltei, sentindo no meu coração o frescor de ter retirado do peito deles o peso que estava no meu. Por que fiz aquilo? Não foi por um motivo racional. Talvez tenha sido influenciado pelas mensagens humanísticas no final dos episódios de He-Man. Só sei que os livrei da prisão física, ao mesmo tempo em que me livrei da prisão da culpa.
Eu também estava preso e, soltando-os, me libertei.

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