A construção da identidade chinesa no cinema: entre o nacional e o transnacional
- Nino Rhamos
- 4 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de set. de 2025
Falar sobre cinema e identidade é sempre algo que me motiva, pois envolve diretamente minha pesquisa de doutorado sobre o cinema chinês do início do século XX, período anterior à Revolução Popular de 1949, cujas construções identitárias moldaram o cinema chinês até hoje. A relação entre coletivo, etnicidade, gênero e ideologias políticas já estava presente naquela época e segue alimentando debates positivos e críticos sobre os rumos do cinema chinês.
A identidade chinesa, longe de ser um conceito homogêneo, é um terreno marcado por múltiplas disputas e negociações – especialmente quando observada através do cinema. Diferentes “Chinas” coexistem no imaginário fílmico: China Continental, Hong Kong, Taiwan e, ainda, as comunidades chinesas da diáspora, como as da Malásia.

Essa diversidade desafia qualquer definição estática do que é “ser chinês”, um processo que o cinema expõe, negocia e problematiza desde o século XIX.
Fronteiras e subjetividades: o cinema chinês como “bagunça” criativa
A ideia de um “cinema nacional chinês” está longe de ser simples. Conforme Yingjin Zhang (Livro: Chinese National Cinema), trata-se de uma verdadeira “bagunça” ("messy affair"), já que a própria China é composta por múltiplos territórios com trajetórias políticas, culturais, étnicas e linguísticas muito distintas. O debate sobre a subjetividade nacional dos filmes chineses tornou-se central na academia, impulsionado por encontros como o Simpósio Internacional de Filmes Chineses e Subjetividade Nacional, em 2007. Há uma busca constante por características únicas, por um “estilo chinês” e pela projeção do chamado “espírito chinês”, mas sempre esbarrando na impossibilidade de síntese diante de tanta diversidade.
A presença de influências transnacionais é um dado estrutural do cinema chinês. Desde a chegada do cinema ao país, no final do século XIX, os filmes estrangeiros dominaram o mercado local, enquanto produções chinesas buscavam também conquistar o Ocidente – caso de Zhuangzi Tests His Wife (1913), exportado já com legendas em inglês e francês. A transnacionalidade não é um fenômeno novo, mas parte da matriz fundadora do cinema na China.
Sinophone, nacionalismo cultural e tensões com o Ocidente
Fora do eixo geopolítico central da China, a ideia de um cinema Sinophone ganha destaque, especialmente nas produções da diáspora (como na Malásia). Conforme proposta por Shih Shu-mei, o Sinophone articula uma identidade local, muitas vezes em oposição ao nacionalismo chinês, promovendo uma espécie de “anti-China-centrismo” e valorizando variações locais da língua e cultura chinesa. Filmes como South of South, Nasi Lemak 2.0 e Woohoo! exemplificam esse processo, afirmando identidades que dialogam com a China sem se subordinar a ela.
No campo do nacionalismo cultural, a projeção do “estilo chinês” – por meio dos chamados “genes culturais” e da valorização de modos artísticos sincréticos, como a ópera e o cinema de artes marciais – torna-se estratégia fundamental. Obras como O Tigre e o Dragão (Crouching Tiger, Hidden Dragon) e Herói (Hero) alcançaram sucesso global ao encarnar uma China mítica, ora voltada para dentro, ora dirigida ao olhar internacional.
O diálogo com o Ocidente, no entanto, é sempre ambíguo. Muitos filmes da chamada “Quinta Geração” (incluindo nomes como Chen Kaige e Zhang Yimou) foram financiados por capital estrangeiro e conquistaram prêmios e audiências globais. Isso gerou críticas internas, como as de Dai Qing, que acusa tais obras de exibirem uma China “reempacotada” para o consumo estrangeiro, alimentando o fetichismo orientalista.
Para competir no cenário global, o cinema chinês passou a adotar modelos de produção hollywoodianos, sobretudo em blockbusters como Hero (2002). Essa apropriação de técnicas e estruturas narrativas globais convive com o desejo de afirmar mitos fundadores chineses, numa tensão constante entre autenticidade e adaptação.
Cinema independente, desafios e reinvenções
Apesar do dinamismo, o setor enfrenta obstáculos como a fuga de talentos e a predominância do mercado hollywoodiano.
Paralelamente, o surgimento de filmes independentes e underground – frequentemente mais conhecidos fora da China do que internamente – representa novas formas de expressão e resistência, demonstrando que a construção da identidade chinesa no cinema está longe de um ponto final. Trata-se de um campo em permanente negociação, onde arte, política e economia se entrelaçam de maneiras inesperadas.
Por fim, vale dizer que, embora muita gente pense em uma China fechada, o caráter transnacional do cinema chinês é fundamental. O que existe é uma construção e reconstrução constante da identidade nacional — como em todos os contextos sociais — que, porém, não é isolada. Ela é atravessada por narrativas estrangeiras, principalmente de Hollywood. Essa influência está sempre presente no subtexto das críticas e elogios, refletindo a relação entre indivíduo e coletivo, entre quem financia e para quem o cinema é feito.

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