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Quem foi ConfĂșcio? O legado central do pensamento confuciano na sociedade chinesa [vĂ­deo]

  • 2 de ago. de 2025
  • 4 min de leitura

Atualizado: 5 de set. de 2025

Hoje resolvi falar sobre ConfĂșcio porque, embora ele seja uma figura conhecida atĂ© por quem nĂŁo tem muita proximidade com a China, poucos sabem de fato quais elementos caracterizam seu pensamento e sua maneira de compreender as relaçÔes sociais. Entender como ConfĂșcio via a sociedade Ă© fundamental para compreendermos a sociedade chinesa atual.


EstĂĄtua de ConfĂșcio no Templo de ConfĂșcio em Beijing.
EstĂĄtua de ConfĂșcio no Templo de ConfĂșcio em Beijing.

A influĂȘncia de ConfĂșcio (歔歐— Kǒngzǐ, 551-479 a.C.) atravessa mais de dois milĂȘnios de histĂłria, considerado uma das maiores referĂȘncias da civilização chinesa, com repercussĂ”es em toda a Ásia. Sua importĂąncia abrange a filosofia, a Ă©tica, a educação e a governança, fundamentando tanto as prĂĄticas sociais quanto os valores polĂ­ticos que estruturam o paĂ­s atĂ© hoje.


ConfĂșcio e a fundação da filosofia polĂ­tica e Ă©tica Chinesa

Vivendo em um contexto marcado pelo declĂ­nio do Estado de Zhou e por conflitos durante o perĂ­odo que ficou conhecido como PerĂ­odo dos Estados Combatentes, ConfĂșcio emergiu como figura central de uma verdadeira “era de ouro da filosofia chinesa”. 


Seu pensamento não apenas codificou os princípios que definiriam a tradição política chinesa, mas também estabeleceu a base para o desenvolvimento de uma ética orientada para a ordem social e o auto cultivo. Sua centralidade na história intelectual da China é tanta que ele é reconhecido como o mais importante pensador da civilização chinesa.


Representação de ConfĂșcio e seus discĂ­pulos examinando um pergaminho de seda. Dinastia Ming (1368-1644).
Representação de ConfĂșcio e seus discĂ­pulos examinando um pergaminho de seda. Dinastia Ming (1368-1644).

Um dos conceitos fundamentais no pensamento confuciano Ă© a ideia de centralidade do “eu” (zhong), a partir do qual as ondulaçÔes de auto cultivo moral se expandem para a famĂ­lia, o Estado e, por fim, para todo o mundo (tianxia). ConfĂșcio defendia que o processo de tornar-se humano Ă© indissociĂĄvel de uma dimensĂŁo relacional: seria pelo autocontrole e pela conformidade aos rituais (ke ji fu li) que se estruturaria o carĂĄter moral. 


A noção de Ren (benevolĂȘncia), termo que combina os ideogramas de “pessoa” e “dois”, traduz a essĂȘncia do humanismo confuciano. A condição social do indivĂ­duo e sua responsabilidade perante o outro sĂŁo inerentes Ă  sua humanidade. Nessa perspectiva, o ser humano Ă© entendido como “irredutivelmente social”, e a realização plena sĂł se concretiza por meio do reconhecimento e do exercĂ­cio dos papĂ©is sociais que o constituem.


ConfĂșcio colocou o li (ritual, propriedade) no centro de sua pedagogia e de sua visĂŁo de sociedade e relacionamento humano. O termo, originalmente ligado aos rituais da Dinastia Zhou, foi ampliado para abarcar toda uma sintaxe comportamental que ia desde o protocolo polĂ­tico, cerimĂŽnias religiosas, festividades e etiqueta cotidiana atĂ© as disciplinas pessoais. 


Mapa mostrando a jornada de ConfĂșcio por vĂĄrios estados entre 497 a.C. e 484 a.C.
Mapa mostrando a jornada de ConfĂșcio por vĂĄrios estados entre 497 a.C. e 484 a.C.

Li, nesse sentido, serve como mecanismo organizador da ordem moral coletiva, assegurando que a moralidade e a virtude possam florescer por meio da educação. Para ConfĂșcio, a educação moral seria nĂŁo apenas um caminho individual de autotransformação, mas o fundamento para a estabilidade social. O objetivo Ășltimo do cultivo pessoal era irradiar a virtude de Ren em todas as esferas da vida social.


O intelectual e a polĂ­tica: virtude, governo e responsabilidade social


Na tradição confuciana, a polĂ­tica tambĂ©m tem um grau de importĂąncia. Seria uma preocupação essencial e primĂĄria. ConfĂșcio concebe o governante ideal como um sĂĄbio educado, orientado pela virtude, que atuaria como modelo moral para a sociedade.

 

Ao intelectual, ConfĂșcio atribuĂ­a o papel de guardiĂŁo da Ă©tica pĂșblica, com o dever de se opor ao poder arbitrĂĄrio e injusto, sempre por meio da força da argumentação moral e nĂŁo pelo enfrentamento legalista. A ordem justa, para ConfĂșcio, significa o resultado de convençÔes morais e rituais difundidas pela educação, e nĂŁo da imposição coercitiva de leis.


A imensa influĂȘncia de ConfĂșcio estĂĄ registrada nos Analectos de ConfĂșcio (Lunyu). Uma coletĂąnea de seus ensinamentos e reflexĂ”es que se tornaram referĂȘncia para geraçÔes sucessivas de intelectuais. 


SĂ©culos mais tarde, Zhu Xi definiu os “Quatro Livros” (Sishu), incluindo os Analectos e a Doutrina do Meio (Zhongyong), como base dos exames imperiais de serviço civil. Um mecanismo que institucionalizou o confucionismo no centro da vida polĂ­tica chinesa por mais de cinco sĂ©culos. 


O impacto do confucionismo Ă© tal que Karl Jaspers, filĂłsofo alemĂŁo, identificou ConfĂșcio como figura-chave da “Era Axial”, perĂ­odo em que diversas civilizaçÔes lançaram simultaneamente as bases espirituais da humanidade.


Relevùncia e reinterpretação no século XXI

Apesar do repĂșdio a ConfĂșcio durante a Revolução Cultural, um perĂ­odo em que seus tĂșmulos foram vandalizados e seus valores oficialmente contestados — uma consequĂȘncia tambĂ©m do uso do confucionismo pelos conservadores no perĂ­odo prĂ©-revolucionĂĄrio —, sua figura foi plenamente reabilitada a partir de 1978, provocando forte comoção entre confucionistas devotos. 


Atualmente sua mensagem de “valores coletivos de trabalho ĂĄrduo, dever e benevolĂȘncia”, tal como a ĂȘnfase na fraternidade universal, ressurgem como respostas Ă s pressĂ”es do individualismo contemporĂąneo. 


Compartilho com vocĂȘs o filme sobre ConfĂșcio: A Batalha pelo ImpĂ©rio (2010), que mostra sua trajetĂłria, a relação com o taoĂ­smo (na figura de Laozi) e com as dinĂąmicas polĂ­ticas do perĂ­odo dos Estados Combatentes.


A Batalha pelo Império (2010)

O governo chinĂȘs, incluindo lideranças como Xi Jinping, tem promovido abertamente a “redescoberta da grandeza da civilização chinesa”, citando ConfĂșcio em discursos e inserindo princĂ­pios confucionistas em polĂ­ticas de cidadania e moralização pĂșblica, como ilustram os “dezesseis tĂłpicos sobre boa cidadania”. Pensamentos que, por outro lado, tambĂ©m encontram receptividade na vida cotidiana chinesa, em valores compartilhados nas redes sociais como um estilo prĂłprio de convivĂȘncia social.


A mĂĄxima de ConfĂșcio de que “uma ordem que nĂŁo Ă© moral irĂĄ, no final, perder a lealdade essencial da qual depende qualquer governo eficaz” permanece como elemento estruturante para a compreensĂŁo das bases da governança chinesa, mesmo em tempos de rĂĄpidas transformaçÔes sociais e polĂ­ticas. Assim, os valores confucionistas continuam a ser mobilizados tanto na sustentação da identidade nacional quanto na promoção da coesĂŁo social e no direcionamento das polĂ­ticas pĂșblicas.


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Antropólogo _____( a) notando a vida cotidiana

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