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O dilema musical na China: a preservação da diversidade e a busca pela unidade nacional

  • Foto do escritor: Nino Rhamos
    Nino Rhamos
  • 5 de ago. de 2025
  • 3 min de leitura

Atualizado: 5 de set. de 2025

A paisagem cultural da China, como já mencionei aqui diversas vezes, possui 55 minorias étnicas e uma maioria Han, que corresponde a mais de 90% da população. Essa diversidade é também um palco onde a música se torna uma das mais ricas expressões de identidade, principalmente para os grupos minoritários.


Conversa entre mulheres do grupo étnico Yi, China.
Conversa entre mulheres do grupo étnico Yi, China.

O estudo da música dessas populações não se restringe, no entanto, à estética, mas à sua complexidade, que envolve a relação com a maioria Han.


A representação da etnicidade na China se diferencia da do Brasil. Aqui, assim como em boa parte dos países ocidentais e naqueles que foram colonizados, há grupos não étnicos, na maior parte brancos, que se relacionam com grupos étnicos de uma maneira diferente de como os Han lidam com as minorias étnicas na China. O desafio da coesão, no entanto, existe nos dois países, embora a China compartilhe elementos de uma identidade coletiva mais forte. Assim, por meio da arte, especialmente na educação musical, os desafios de equilibrar a preservação de identidades culturais únicas com a coesão nacional implicam uma série de medidas governamentais.


Historicamente, o pensamento chinês esteve (e ainda está) enraizado na tradição confucionista, que operava sob uma distinção entre o grupo dominante Xia e as minorias periféricas, os Yi. Essa perspectiva etnocêntrica é evidenciada no próprio nome do país, Zhongguo (País do Meio).


Embora a ideologia confucionista permitisse a assimilação das diferenças, essa abordagem era fundamentalmente diferente das noções modernas de direitos das minorias. É importante lembrarmos que o conceito de "étnico" é recente (em comparação ao pensamento de Confúcio).

Nesse sentido, o ideal da "grande unidade" visava integrar as diferenças culturais e sociais sob uma única autoridade política, algo que já estava presente em elementos mitológicos, como a própria figura do Imperador Amarelo, que conseguiu conter forças divergentes e promover a paz entre as diferenças.


Mesmo após a Revolução de 1949, quando o Partido Comunista Chinês (PCC) promoveu a igualdade com base em um nacionalismo diferente do sentido ocidental — fundamentado no conceito de minzu zhuyi —, a percepção de que as minorias eram "primitivas" ou "atrasadas" persistiu, justificando a prevalência da etnia Han. Como apontado por alguns autores, a generosidade estatal para com as minorias poderia, ironicamente, se traduzir em uma forma de subordinação.


A preservação da cultura musical em um Estado unificado

A partir dos anos 1980, com a abertura comercial e as novas concepções socialistas pós-Mao, a China testemunhou um movimento significativo em direção à preservação cultural.

Esse período marcou a recuperação de inúmeras tradições musicais que haviam sido silenciadas ou prejudicadas durante a Revolução Cultural. Um dos marcos foi a fundação, em 1983, da Sociedade do Folclore Chinês, uma organização acadêmica dedicada à salvaguarda e divulgação dos estilos musicais das minorias étnicas da China.


Além disso, a iniciativa de desenvolver livros didáticos bilíngues e cursos de formação para professores de música em suas línguas maternas nas regiões étnicas demonstrou um esforço estatal para tornar o ensino culturalmente mais relevante.


No entanto, a forma como essas culturas são apresentadas não é isenta de complexidades, e muitos autores continuaram apontando questões importantes a considerar. Estudiosos levantam a questão da "exotização", onde as culturas minoritárias tendem a ser retratadas de forma a enfatizar suas qualidades mais alegóricas, correndo o risco de objetificá-las.

Para superar essa narrativa única, a imersão cultural e o aprendizado feito com os próprios membros desses grupos são considerados essenciais.


Questões envolvendo a coletividade chinesa, enquanto identidade nacional, também são apontadas pelos estudiosos. A figura do indivíduo nacional também é incentivada como um instrumento crucial na busca pela unidade.


Desde os anos 1990, o governo tem reforçado a mensagem patriótica na educação e nas artes, legitimando o sistema de valores do Partido Comunista. Porém, antes que pensem nisso como uma invenção do PCC, saibam que essa prática é antiga, assim como a coletividade chinesa como agregadora de diversas identidades étnicas.


Essa estratégia se alinha a uma longa tradição histórica, como o Édito Sagrado do imperador Kangxi no século XVII, que usava a moralização política para instruir a população. Essa prática persiste, como demonstrado por iniciativas recentes do governo, visando manter a lealdade da população.


O desafio central, portanto, é como o governo pode apoiar as culturas únicas das minorias sem que isso comprometa a estabilidade política, buscando uma harmonia entre a diversidade cultural e a unidade nacional. Contudo, não é um dilema urgente, nem preocupante, porque ele existe há muitos séculos na história da China.


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