Guerras Sino-Japonesas: humilhação, resistência e transformação na China moderna
- Nino Rhamos
- 1 de ago. de 2025
- 3 min de leitura
Atualizado: 5 de set. de 2025
Contexto das Guerras Sino-Japonesas e o Século das Humilhações
O estudo das guerras sino-japonesas revela não apenas episódios centrais no processo de transformação da China moderna, mas também elementos estruturantes para entender as dinâmicas de poder, resistência e construção nacional que atravessam o século XX chinês.

Tanto a Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894) quanto a Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945), também chamada de Guerra de Resistência contra o Japão, fazem parte do período histórico conhecido como “século das humilhações”, marcado por agressões imperialistas e a luta pela libertação nacional.
Essas guerras ilustram a passagem de uma China imperial em crise para uma nação que buscava, por meio do confronto e da resistência popular, redefinir seu lugar no cenário global.
1. Primeira Guerra Sino-Japonesa (1894): derrota, humilhação e transformação
No final do século XIX, a China era um vasto império feudal, já fragilizado pela pressão imperialista ocidental e por conflitos internos. O Japão, por sua vez, surgia como potência regional após a modernização da Era Meiji.
A guerra de 1894 começa dentro de um contexto de repetidas guerras de agressão contra a China, onde potências imperialistas ocidentais disputavam influência sobre o território chinês e seus recursos.

A derrota chinesa foi absoluta: o país foi obrigado a ceder Taiwan e as ilhas Penghu ao Japão (autores apontam interferência dos países ocidentais ao Japão, inclusive EUA) e a pagar pesadas indenizações. Essa derrota não apenas aprofundou o sentimento de humilhação nacional, mas também expôs as fragilidades militares, econômicas e políticas da China, destacando a urgência de reformas internas frente à capacidade organizativa do Japão.
A guerra, nesse sentido, acentuou a condição de semi-colônia, agravando as contradições do sistema imperial chinês e alimentando o desejo de transformação social e política.
2. Segunda Guerra Sino-Japonesa (1937-1945): Resistência Nacional e Consolidação do Projeto Revolucionário
Entre as décadas de 1920 e 1930, já após o estabelecimento da República da China em 1911/1912, a China permanecia fragmentada, com conflitos entre senhores da guerra e rivalidade entre o Kuomintang (KMT) e o Partido Comunista Chinês (PCC).

O Japão intensificou sua agressão, ocupando a Manchúria em 1931 e tentando transformar a China em um protetorado por meio das chamadas “21 Questões” em 1915. O cenário era de pressão imperialista cada vez mais intensa, o que fazia crescer o sentimento anti-japonês.
A guerra, segundo a teoria da Guerra Prolongada de Mao Tsé-tung, desenvolveu-se em três fases estratégicas:
Ofensiva japonesa e defensiva chinesa (1937): O Japão lançou ataques, ocupando grandes cidades, enquanto a China adotou inicialmente uma estratégia defensiva, baseada na guerra de movimento, com o apoio de táticas de guerrilha e posições fortificadas.
Consolidação japonesa e preparação da contraofensiva chinesa: Nesta fase, a resistência chinesa se concentrou nas guerrilhas camponesas lideradas pelo PCC, especialmente atrás das linhas inimigas, com o objetivo de desgastar o exército japonês e fortalecer as bases populares.
Contraofensiva chinesa e retirada japonesa: Combinando guerra de movimento, guerra de posições e guerrilha, a China reverteu o quadro, aproveitando o desgaste do Japão, o apoio internacional e a entrada de novos atores na Segunda Guerra Mundial.
A dinâmica interna foi marcada pela formação da Frente Única Nacional Anti-Japonesa, que uniu (ainda que de forma tensa e contraditória) o KMT e o PCC.
O papel do Partido Comunista Chinês foi decisivo na guerra: mobilizou camponeses, organizou as zonas libertadas (“China Vermelha”) e implementou reformas sociais e agrárias. O PCC consolidou sua base de apoio e fortaleceu sua legitimidade como liderança nacional.
Mao Tsé-tung adaptou o marxismo-leninismo às condições locais, privilegiando estratégias que visavam conservar forças e desgastar o inimigo, evitando batalhas frontais em situações desfavoráveis. A guerra foi também parte da luta antifascista mundial, recebendo apoio da União Soviética.
Consequências e o Reordenamento da China Moderna
A rendição incondicional do Japão, em 1945, marcou o fim da guerra e abriu caminho para uma reconfiguração profunda da política chinesa.

A vitória consolidou o PCC como principal força política e militar do país, legitimando sua capacidade de liderança nacional e de mobilização popular. O período pós-guerra foi imediatamente seguido por uma guerra civil entre o PCC e o KMT, que terminaria com a proclamação da República Popular da China em 1949.

A Guerra de Resistência contra o Japão não foi apenas uma etapa militar, mas uma experiência decisiva para a construção de um projeto revolucionário e socialista. Representou a passagem da China de uma condição de semicolônia à afirmação de sua independência nacional, e foi fundamental para estabelecer as bases de uma nova ordem política, social e econômica.

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